Cirque du soleil do rock n’ roll

Lembro-me de quando era garoto e minha banda favorita era o Kiss. Entre os treze e quinze anos possuía uma coleção infindável de discos, artigos e bugigangas sobre tudo que se relacionava aos caras maquiados. Tudo o que acontecia de novo com os integrantes e com a banda me interessavam mais que a escola e os deveres, que não eram muitos naquela época. Com o tempo, fui crescendo e expandi o meu gosto musical, a procura de letras mais sofisticadas e riffs mais elaborados naquela gama infinita de bandas setentistas, e deixei-os um pouco de lado.

Nunca me esqueço de uma Playboy que eu tinha da Juliana Paes, realmente “boa”, mas que eu não havia comprado por causa dela e sim pela reportagem que a acompanhava: “os 50 melhores discos de rock já lançados”.

Meu Deus! Quem compra uma Playboy por causa de uma reportagem? E lá tinha uma frase embaixo do álbum Destroyer que dizia o seguinte:

“Existe uma fase na vida de qualquer garoto que o KISS é a coisa mais importante do mundo”

Puta que o pariu! O show de hoje me lembrou que isso é verdade.

Explosões, luzes, música, sexo e arte, como uma mistura de Cirque du Soleil e Andy Warhol enfiados em uma lamborguini a 250km/h se estraçalhando contra um muro de concreto. Isso é o que poderíamos descrever da incrível experiência de assistir a um concerto do KISS.

Quando as luzes do estádio se apagaram e os holofotes disparavam suas luzes contra o publico a procura de algo inimaginável, a voz nos bastidores anunciava: “You wanted the best, you got the best…”, aquela massa ensurdecedora de mais de 20 mil pessoas já gritavam a espera da entrada triunfal dos donos da noite. Quando as primeiras notas de Deuce soaram, as explosões de luzes incendiaram nossos olhos e os quatro rockeiros de plataforma pisaram no palco, a arena de Verona veio abaixo.

Logo seguida de Strutter, Got to Choose e Hotter Than Hell com breves pausas do starman Paul Stanley para interagir com o público e arranhar um pouco no italiano. Logo depois, Eric Singer (o substituto de Peter Criss, que por sinal usa a maquiagem do integrante original) fez uma bela versão de Nothin’ To Loose emendada por C’mon And Love Me e Parasite.

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Finalmente o momento que eu mais esperava havia chegado. O Riff de She anunciava que era a hora de Tommy Thayer (o novo Space Ace) brilhar. No meio dessa canção é reservado um momento especial a ele e todos os outros integrantes saíram do palco para que homem do espaço pudesse fazer seus solos alucinantes e brincar com a platéia, que delirava a cada nota tocada. O seu momento de gloria chegou quando apontou a sua Gibson Les Paul para o céu e atirou como se possuísse um rifle nas mãos. Chovia uma cachoeira de fogos e faíscas do braço de sua guitarra. A cada novo tiro, ouvia-se os gritos histéricos dos presentes que pareciam não acreditar no que estavam vendo.

100,000 Years mostrou as habilidades de Eric como baterista, fazendo o mesmo solo que Peter fazia nos anos 70 e injetaram nova dose de adrenalina nos fans. Cold Gin, Let Me Go Rock N’ Roll e Black Diamond continuaram a odisseia.

E eis que fomos agraciados com os primeiros acordes de Rock And Roll All Nite, que fizeram a arena ferver em delírio enquanto as bombas explodiam e a infinidade de fogos eram lançados ao céu como se aquela noite fosse a virada do ano. Tudo isso, ao lado de uma imensa chuva de papeis picados que eram enviados ao público sem que nenhum espectador deixasse uma parte sequer do refrão escapar de seus pulmões enquanto observavam eufóricos Paul destruir sua guitarra, transformando aquele evento em uma das coisas mais extraordinárias que é possível se ver em termos de espetáculo.

A primeira parte do show em comemoração aos 35 anos da turnê Alive!, focada somente nos três primeiros álbuns (Kiss, Hotter Than Hell e Dressed To Kill), terminava. Então, no palco, os diretores do evento entraram e presentearam a banda com uma placa enorme em respeito aos milhares de discos vendidos mundialmente e por ser a primeira vez que os “garotos” pintados tocavam em Verona.

Depois dos agradecimentos, Paul tomou o microfone para sí e aos berros disse: “Let’s Rock!. Ao mesmo tempo eu me perguntava como era possível me darem mais do que que já havia visto.  Shout It Out Loud e Lick It Up, que fez um medley com Won’t Get Folled Again (eu juro!) do The Who, me mostraram que os velhinhos ainda tinham gás. Mais explosões, fogos, luzes e rock pareciam eternizar aquela noite.

Stanley dançava, gritava, rebolava e se divertia como se ainda tivesse 20 anos de idade. Tommy Thayer solava e viajava pelo palco como ninguém. Eric Singer urrava e espancava sua bateria com furia e gosto. Mas onde “cazzo” estava Gene Simons? Os gritos do público me responderam.

As luzes do estádio se apagaram e somente Gene era focalizado. O show de horror começava e Simons roubou a cena espancando seu baixo e cuspindo sangue como um animal raivoso. Prosseguindo já com o rosto todo manchado de ovos e catchup, abriu os braços e foi alçado até um sobre-palco a 10 metros de altura. Sozinho no alto e com o público nas mãos ele iniciou a melodia de I Love It Loud e a Arena transbordou em felicidade enquanto todos cantaram juntos. Acho que toda Verona acordou com essa música.

I Was Made For Loving You e Love Gun terminavam o maior show de rock que Verona já havia presenciado e Detroit Rock City fechou o evento com a bateria sendo levantada em uma plataforma a 5 metros de altura e uma cascata de faíscas enorme que caiaram sobre a banda e lembraram o Copacabana Palace em noite de réveillon.

kiss cascata

Hoje, mais de um mês depois, ainda guardo boas lembranças desse espetáculo e espero ter a oportunidade de reviver experiências como essas, não sei se com o Kiss ou com alguma outra banda, mas se for a minha, melhor ainda.

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