A jornada

Não seria fácil encontrar um caminho certo pelo qual seguir, mas estava disposto a tentar. Chovia há mais de três dias sem parar. O vento era forte e cortante. Seus amigos já não acreditavam se seria capaz de chegar até o fim e voltar com vida. Apoiando o cajado sobre a terra, se esforçava ao máximo para manter os olhos abertos e continuar, aos poucos, seguindo a estrada.
.
Seus pés e mãos estavam cheio de calos e, das feridas, escorriam pequenas gotas de sangue que ardiam a cada nova queda. As pedras no caminho dificultavam cada vez mais o seu percurso e a areia que arranhava seu rosto com as rajadas do vento transformavam seu medo em algo ainda mais perverso.
.
Image by Dom Crossley
.
Por que tanto esforço e dedicação? A crença e a necessidade de alcançar o perdão verdadeiro o motivavam, e muito. A neblina que se e erguia a sua volta, não lhe permitia enxergar mais de três palmos a sua frente. A fome e a sede eram tão grandes que já não incomodavam mais. Os pensamentos lhe convidavam sempre a desistir. Nem sempre apenas força de vontade e amor próprio são suficientes para seguir em frente.
.
Após muita caminhar, finalmente conseguiu perceber algo novo durante o infernal trajeto.  Uma gigantesca sombra começava a surgir a sua frente. Será que depois de tanto lutar, havia chegado ao seu desejado destino? A neblina pouco a pouco foi cessando e a chuva intensa pela primeira vez parou de cair. Foi o primeiro sorriso que expressou durante toda a jornada. Após alguns metros, o sol voltou a brilhar e ele se deparou com uma enorme mansão que dominava a última parte de terra habitável daquela monstruosa colina. A beira do penhasco, um mundo novo se abriu e a felicidade voltou a reinar em seu peito.
.
Image by Sean MacEntee
.
Aproximou-se lentamente da imensa construção. Enquanto caminhava, retirou com muito cuidado uma carta que estava dobrada ao meio dentro de seu bolso direito da, agora esfarrapada, calça jeans. Ante a porta, encontrava-se uma bela cesta de frutas com um papel indicando seu nome na extremidade. Ajoelhou-se e segurou nas mãos a maçã mais vermelha e bonita do cesto. Deu apenas uma mordida e arremessou a fruta para longe. Colocou com cuidado a carta na caixa do correio e virou-se para o horizonte. Voltou lentamente a caminhar e se aproximou da beira da montanha. Podia sentir a brisa sobre cada parte do seu corpo. Olhou para baixo, mas não era possível enxergar onde acabava a montanha e o mundo recomeçava. Quando parou um segundo para observar o céu, uma estrela cadente cortou o horizonte ao meio. Era a primeira vez que via uma. Deu um grande suspiro e mergulhou para o infinito. Sua missão estava cumprida.
Anúncios

Um comentário sobre “A jornada

  1. Thiago, há muito eu não lia algo tão bonito. Uma linda história, repleta de lições e sentimento,e muito bem escrita. A busca pelo perdão, a força que existe em nós que nos move à onde queremos, o desejo de ter paz, de se superar, de cumprir seus destino.

    Você escreve muito!

    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s