Jagged Little Pill

Estava sentado com o joelho sobre o banco e o braço direito apoiado sobre a mesma perna. O pulso balançava enquanto ele observava o movimento. Estava postado exatamente em frente ao elevador do oitavo andar. Cada vez que o sinal tocava, uma garota mais linda que a outra chegava para retomar seus estudos. Com paixões instantâneas a cada minuto, dava-se conta que havia matriculado-se na faculdade errada, afinal estava ali observando magníficas beldades apenas para esperar seu amigo ganhar presença para que, então, pudessem se alcoolizar no bar da avenida mais próxima.
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Após um quarto de hora, seu companheiro saiu da sala com uma das mulheres mais lindas que ele já havia tido a oportunidade de ver. Branca como a neve, longos cabelos negros até o meio das costas, um sorriso incrível e um olhar, no mínimo, cativante. Poderia gritar versos de amor para um telhado de cimento. Era exatamente o seu tipo. O tipo que mais lhe encantava. Apresentaram-se e começaram a discutir sobre o preocupante trabalho. Ela precisava ensaiar suas falas para a apresentação de um seminário e acabou usando os dois como cobaia. Seu amigo fazia o possível para tentar ajudar, mas ele, o protagonista, claro, nunca havia tido uma aula sequer de marketing, não fazia ideia sobre o que estavam falando e, mesmo que se esforçasse, a única coisa que realmente lhe prendia a atenção era a impressionante beleza daquela menina.
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Image by Maarten van Maanen
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Mais um tempo se passou e a garota mágica voltou à sala para terminar seu propósito. Os dois desceram até a rua para fumar um cigarro, tomar alguns goles de cerveja e voltar ao lar para acabar mais uma quinta-feira em grande estilo. Nove tragadas e três copos de cerveja eram mais que suficientes para deixá-lo em um estado benevolente e bastante agradável. Bateram um papo, contaram boas piadas sobre a vida medíocre que cada um deles levava e nosso personagem pôde fazer algumas novas amizades que provavelmente nunca mais voltaria a ver.
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O caminho de volta no velho ônibus não foi tão agradável assim, pois àquela altura gostaria muito de ouvir uma bela canção, mas não havia nenhum meio disponível para tal. A leitura talvez viesse a calhar, mas Don Quixote não era o livro mais apropriado para o momento. Bukowski ou Hemingway cairiam bem, porém não havia um modelo útil disponível. Aproveitou a brisa que chegava pela janela e contentou-se apenas em admirar as luzes e os carros que passavam em alta velocidade.
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Image by Donnie Ray Jones
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Outra vez em casa. Cansado, feliz e lembrando-se de como existem pessoas apaixonantes a cada nova esquina. Girou as chaves e cumprimentou os cães que o aguardavam com uma felicidade incomum. Abriu a geladeira e agradeceu aos céus por encontrar uma bela porção de lasanha que ainda sobrara do almoço. Era um caso raro chegar ao lar e não ter que encarar pela frente mais um prato de arroz e bife como vinha acontecendo nos últimos quinze anos, sem interrupções. O mesmo prato por mais da metade da vida costuma, ao menos, ficar um pouco enjoativo.
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Carregando o peso de mais um dia de estudos e trabalho, atirou-se de cabeça na Internet para se atualizar sobre as notícias de última hora e pesquisar artigos de cultura inútil. Durante esse pequeno passeio, acabou descobrindo que um álbum da Alanis Morissette havia vendido mais de trinta milhões de cópias ao redor do mundo. Como um disco dela poderia ter feito tanto sucesso assim? Era óbvio que subestimava seu talento e precisava comprovar por si mesmo que tinha algo errado em suas próprias concepções. Graças a internet, ouvir o disco em tempo real não foi problema algum. Seus avós não faziam ideia do quanto tudo é fácil nos dias de hoje. Informação, sexo e violência. O mundo se tornou uma estação aberta para todo o tipo de alegrias e desgraças.
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Image by Fe Ilya
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Já o disco, meu Deus! Fazia tempo que uma descoberta musical não o pegava de surpresa. Que voz, que belas composições. Talvez merecesse mesmo ter vendido tanto. Talvez. Depois de muito ouvir, ainda carregava uma pequena dúvida. Não conseguia ter absoluta certeza se o álbum era realmente incrível ou se estava pouco a pouco virando bicha. Não que tivesse dúvidas concretas sobre sua masculinidade, mas não lembrava-se de ter conhecido algum heterossexual que considerava Jagged Little Pill um dos seus CDs favoritos ou que fosse seu fã incondicional. O único amigo que admitia esse gosto peculiar, tinha Buffy, A Caça Vampiros  como sua série de TV preferida, portanto não poderia ser levado 100% em consideração.
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Voltou à cama enquanto You Oughta Know tocava pela terceira vez e aos poucos foi deixando o sono lhe dominar. Uma aula de revolta para expressar angustias em grande estilo. Provavelmente o cara tenha sido mesmo um grandessíssimo filho da puta, porém, acreditava, e hoje tem ainda mais certeza, que mulheres rancorosas nunca conseguem ser totalmente racionais quando lidam com certas mágoas, por isso era difícil digerir com convicção todas aquelas insinuações. Era ótimo sentir o edredom esquentar-lhe o corpo em uma noite fria. O efeito do álcool e dos cigarros persistia levemente. Nem percebeu quando seus olhos se fecharam. Cair no sono embriagado era o segundo modo para adormecer que mais lhe agradava.  O primeiro era, sem nenhuma dúvida, deixar-se levar depois de um belo orgasmo enquanto uma linda garota acariciava os seus cabelos. Infelizmente, esse não fora o caso naquela noite.
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