Visita inesperada

Faz tanto tempo que não venho aqui, que me sinto um pouco encabulado. Como se houvesse encontrado uma ex-namorada, mas não houvesse tempo de atravessar a rua para evitar o contato. Palavras cordiais, pressa incontrolável, sentimentos remoídos. A rotina me domesticou. Trabalho, namoro, família. Deixei a incrível inutilidade do sistema financeiro subjugar os meus prazeres. Podíamos ter tudo que quiséssemos, mas somos escravos de um estilo de vida que destrói o mundo que vivemos. A espécie humana é a pior praga que o planeta terra já enfrentou.

Chega de refletir. Enxergo meus pés. A TV está ligada. Djokovic saca a caminho de mais um título. Ouço passos no corredor. O portão ao fundo bate com violência. Os passos se aproximam. Abaixo o volume da televisão.  Quem quer que seja, posta-se em frente à minha porta. Sussurra. A campainha toca. Não costumo receber visitas sem aviso. A porta não possui olho mágico. O interfone está quebrado. Nenhuma mensagem ou ligação perdida.

Imagem de Carlos Ignacio
– Quem é?
– Entrega para o senhor! – É uma mulher. Jovem.
– As entregas são feitas diretamente na portaria.
– Sim, eu sei, mas essa é uma entrega especial e não pode ser deixada nas mãos de desconhecidos. Seu conteúdo é totalmente valioso. Você pode me atender, por favor? Prometo que será rápido. É um comunicado extremamente importante.
– Ok. Só um minuto.

Sinto que será um erro. Porém, sua voz inocente engana meus pressentimentos. Giro a chave uma vez. Engulo seco. Na segunda volta, um calafrio percorre minha espinha. Abro lentamente. Uma força inesperada me empurra. A quina da porta quebra meu nariz. Dou três passos cambaleantes para trás. A garota entra sem minha permissão. Veste um short jeans curtíssimo. Uma bota preta, com salto e cano longo. Um top preto e uma jaqueta de couro marrom. Cabelos negros, compridos até o meio das costas. Não posso ver seu rosto. Usa a máscara de um gato ao estilo japonês. O corpo é escultural. O rosto provavelmente deve combinar com ele.

Image by Ken

Sinto o calor do sangue escorrendo pelas minhas narinas. Avanço sobre ela. Antes que me aproxime, aponta-me uma arma. Não faço ideia qual seja. Mas sei que não é Taurus, pois sinto a bala alvejar meu estômago. O impacto é forte e dolorido, mas impressiona-me muito mais a sensação de ardor. Minha barriga está em chamas. Perco a força nas pernas e desabo. Tento gritar, mas não consigo. Pergunto-me porque o tiro não fez tanto barulho. Nem sabia que existiam silenciadores no Brasil. Arrasto-me em direção ao criado mudo. Busco o telefone. O maldito celular está sempre ao meu lado o dia inteiro, mas, quando mais preciso, não o encontro. Minha algoz corre em minha direção antes que minhas mãos encostem no aparelho e me chuta a cara. O bico da bota impacta o centro do meu rosto. Meu queixo fica mole. Alguns dentes se espalham pelo chão. Urro de dor. Tudo fica branco. Apago.

Completamente desnorteado, pisco três vezes. A barriga queima, a face dói. Estou amarrado de uma forma que fico completamente imóvel.  No chão, o sangue escorre pelo meu estômago e por minha face. O assoalho costumava ser cinza, mas agora está completamente escarlate. Vai dar um puta trabalho para limpar. A garota mexe no computador enquanto desespero-me.  Ela olha para mim. Sua máscara emana um sorriso irônico. Estou fodido.

fox_mask_by_mishutka

Uma música começa a tocar. Presto atenção e percebo que é Velvet Undergroud. Apesar de maníaca e louca, pelo menos seu gosto musical mostra-se decente. Um doce vazio toma conta de mim. Oh…Sweet Nuthin’… He ain’t got nothing at all. Ela se aproxima a passos lentos. Não consigo falar. Há um pano imundo amarrado em volta da minha boca. Solto um grunhido de desespero. Desliga a TV. Passa as pernas por cima de minha cabeça. Que belas coxas. O short minúsculo é proposital. Fica de pé em frente a mim. Balança os ombros. Sou dominado pelo medo. Abaixa-se e começa a tirar meu cinto. Lentamente abaixa minhas calças.  Em seguida a cueca. Deixa-me praticamente nu da cintura para baixo. Meu Deus! Minha morte será muito pior que imaginava. Debato-me, sofro e finalmente choro.

– Ouça-me! – Fala em tom opressor. – Vou tirar minha máscara. Portanto, feche os olhos. AGORA!
Não obedeço. Apenas observo com uma expressão de desespero.
– Ok. Vou pedir só mais uma vez. E se não fizer o que mando, garanto que farei você se arrepender amargamente.

Image by Sean MacEntee

Acho que a perda de sangue afetou meu raciocínio. Burramente, continuo a encará-la. O gato sorri. A assassina vai o balcão e encontra uma caneta. Corre em minha direção. Tento me esquivar, mas é impossível. Estou preso de uma forma que impede qualquer reação defensiva. Pavor e desespero incontroláveis. Ela fecha o punho com força e enfia a caneta diretamente em meu olho esquerdo. Fecho-o de imediato. Mesmo assim o objeto perfura a carne da pálpebra e dilacera os tecidos do meu globo ocular.

UHHHHRRRRRRRRRHHHHHOOOOOHHHHRRRR!

É a primeira vez que sinto tamanha dor. O sangue escorre. Grito e me debato para tentar confundir meu sistema nervoso. Sinto choques contínuos no lado esquerdo da minha cabeça. Lembra uma furadeira rodando por dentro do meu crânio. A caneta ainda está lá. Não tenho como tirá-la. Engulo sangue, suor e lágrimas.

HUUUNNNNMMMMMM! UHHHRRROOOMNMMMMMNN!

Rezo para que tudo acabe rápido. Aprendo uma lição: nunca mais vou abrir os olhos enquanto ela ainda estiver por aqui. Sinto frio. Estou fraco. A dor aos poucos diminui. Vou morrer.

Image by Paulo Figueiredo
Ouço seus passos novamente. Param. Seus pés encostam nos meus. Sinto suas mãos em minhas pernas. As unhas passam por minha virilha.  Dou-me conta que tudo ainda pode piorar. Serei mutilado. Nunca fui religioso, mas rezo a todos os deuses e peço ao universo que me tragam um pouco de luz. Minhas preces são atendidas.

Aos poucos, sinto suas mãos acariciarem meu pênis. Levemente. De um lado ao outro. De cima a baixo. Carinhosamente, na cabeça, no saco. Aos poucos ela me masturba. De alguma forma bizarra, isso me excita. Está completamente duro. Tudo fica quente e úmido. Sua boca está lentamente saboreando meu pau. Pequenos beijos ao redor. A língua passeia de baixo para cima. Então chupa. É doentio, mas é perfeito. Devagar. Às vezes rápido. As mãos ajudam. Acariciam e movimenta-se em meu pau no mesmo sentido que os lábios. É maravilhoso. A língua brinca. Estou em êxtase. Prazerosamente apavorado. Sinto que aos poucos estou perdendo minhas forças. Os movimentos ficam mais rápidos. Meu pênis pulsa. Ela geme com a boca cheia. Estou quase lá. Não sinto mais nenhuma dor. Ela se esforça cada vez mais. Deliro. Ela percebe e continua sem pausas. Estou tremendo. Enxergo um céu púrpura. Gozo loucamente. Ela não para até a última gota se esvair.  Um orgasmo incrível. Ela se levanta. Não sinto mais nada. Os passos estão cada vez mais longe. A porta bate. Meu coração para.

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5 comentários sobre “Visita inesperada

  1. O figurino perfeito para a Morte, adequado aos tempos. A Morte econômica, eficiente, dúctil. a Morte “hightech”, impessoal, mas particular. . Não sei quais os motivos iniciais para o teu texto, mas eu li como a descrição de uma intervenção da Morte (assim, antropomorfa, real, com cheiro), uma amostra de seu “modus operandi”. Uma profissional em ação. Como já escrevi acima, a Morte para estes tempos. A poliMorte, dispensadora de dor e prazer. E é isso. Abraço.

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