Sonhos

Ela abriu a porta lentamente. O feixe de luz adentrou o quarto e iluminou a borda da cama. Podia ver a silhueta de seu corpo diante da entrada. Camisola. Cabelos soltos. Um brilho no olhar e um sorriso perverso. Meu coração saltava do peito. Nunca havia sentido isso. Paixão. Medo. Tesão.

Em passos lentos, se aproximou da cama. Apoiou o joelho esquerdo entre meus pés e jogou seu corpo sobre mim. O calor da pele me arrepiou. Podia sentir o perfume doce e delicado. O longo cabelo negro refletia a luz que vinha de fora. Aproximou vagarosamente seu rosto do meu. Senti sua respiração e supliquei por um beijo. Ela previa minhas intenções. Sussurrou ao meu ouvido e encostou suas mãos em minha cintura. Sorri. Primeiro beijou lentamente meu pescoço. Tirou com cuidado o cabelo que estava ao lado de meu rosto e lambeu minha orelha. Suspirei.

De repente, com um toque mais bruto, puxou meu cabelo com força e me beijou com violência. Com gosto. Com força. A língua delicadamente me inundava. O melhor beijo que já recebi. Rolamos na cama e continuamos a nos beijar por um longo tempo. Sentia calor. Euforia. Desejo. Lábios nos lábios. Língua na língua. Coração com coração.

Image by Santi Molina

Ela ficou novamente por cima. Seus olhos azuis cintilavam no escuro. Jamais haviam me olhado dessa forma. Sentia-me como um presente prestes a ser entregue a uma criança. Um a um, ela desabotoou a camisa do meu pijama. Suas mãos passeavam suavemente por meu corpo. Um carinho maldoso. Safado. Algumas vezes apertava-me com força. Outras, só deslizava as pontas dos dedos pelo contorno da minha pele. As unhas me arranhavam com leveza. Calor. Arrepio. Esses toques poderiam me excitar a noite toda.

Depois de soltar o último botão, puxou-me a sua frente e me beijou de novo enquanto arrancava minha blusa. Deitou-me. Beijou calmamente meu queixo. Depois meu pescoço. Lambeu meu colo. Estava em êxtase. Brincou com os dedos e apertou meu seio direito com força. Beliscou com cuidado a ponta do mamilo. Gemi. Gritei. Com o olhar, pedi mais. Ao mesmo tempo em que segurava o seio direito, beijava o esquerdo. Lambia, chupava. Sentia o hálito quente. A saliva escorreu por minhas costelas até o colchão. Que noite!

Image by Killy Ridols

Arrancou a camisola e postou seu corpo sobre o meu. Parecia fogo. Sentia seus seios sobre os meus. Os bicos estavam duros. A pele macia. Nunca havia sentido o calor do corpo dessa forma. Loucamente suave. Não cansava de me beijar. Sua coxa acariciava minha vagina. Para cima. Para baixo. Escorregava com paixão. Estava ofegante. A calcinha encharcada.

Sua língua decidiu passear pelo meu corpo. Dos lábios para o queixo. Do queixo para o pescoço. Desceu até os seios. Subiu para a bochecha. Atrás da orelhas. Nuca. Não conseguia segurar minha paixão. Gemia a cada beijo. Na barriga. Em volta do umbigo. Sua mão apertava minha buceta com suavidade. Com a ponta dos dedos. Meu clitóris pulsava. Com raiva, puxou minha calça e minha calcinha. Jogou tudo para fora da cama. Caíram ao lado das cobertas e travesseiros espalhados pelo chão.

Imagem por Kayla Kandzorra

Passou os dedos com vontade. No clitóris. Na entrada da vulva. Em volta dos lábios. Estava molhada. Perfeita. Enfiou o dedo médio. Urrei de prazer. Com movimentos leves, às vezes rápidos, penetrava-me. Para frente. Para trás. Maravilhoso. Acariciava a parte de trás do meu clitóris com a ponta do dedo. Ao mesmo tempo, lambeu minha vagina. Gemi loucamente. Beijou os lábios. Chupou o clitóris. Não podia me conter. Segurava o lençol com força. Um braço para cada lado. Crucificada de prazer. Contorcia-me. Movimentos circulares com a língua. O dedo por dentro. Tantas fontes de prazer faziam-me delirar.

Pouco a pouco, fui sentindo algo novo. Uma forma de gozar diferente. Ela era incansável. Quando tinha chance de vê-la, podia ver seus olhos me devorarem. Parecia adorar me ver em transe. De sentir meu gosto. Era único. Um calor intenso. Tremia. A vontade de explodir em excitação era cada vez maior. Nenhum homem jamais havia chegado a esse ponto. Mas minha companheira sabia exatamente o que fazer. Sabia exatamente onde queria chegar. Era lindo. Queria gozar maravilhosamente. Não sabia mais o que fazer. Estava a sua mercê. Língua, dedos, olhares. Não podia mais segurar. Queria gritar. Peguei o travesseiro e o coloquei na cara. Mordi a fronha com raiva. O gozo finalmente veio. Único. Mágico. Inesquecível. Ela tirou o rosto de dentro de minhas coxas. O liquido espirrou por todo o quarto. O travesseiro foi jogado aos céus. Tremia. Gemia. Sorria como uma criança. O dedo continuava a me estimular. Momentos inesquecíveis. Se havia algum sentido na vida, era para que algum dia os seres humanos chegassem àquela sensação. Podia gritar seu nome às estrelas.

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Aos poucos, foi diminuído o ritmo. Contorcia-me. Queria chorar de tanto tesão. Ela, enfim, tirou o dedo. Colocou-o calmamente em sua boca e o chupou. Depois, beijou minha barriga com carinho. Levantou-se. Acariciou meu joelho. Foi calmamente até a saída. Dessa vez, nua, olhou-me com desdém. Gesticulou-me um tchau e fechou a porta. Ainda ficaria ali, jogada por alguns minutos, a apreciar o que restou daquela magnífica sensação. O melhor orgasmo que já tive. Meu corpo relaxou. Suspirei. E tudo finalmente escureceu.

Abri os olhos. Sentia sede. Pisquei três vezes. Entretive-me com as luzes dos carros que brilhavam pelo teto. Ainda estava tentando entender o que havia acontecido. Ao me mexer, senti que minhas roupas estavam molhadas. Passei as mãos pela calça. O pijama e o edredom estavam encharcados. O colchão teria que ficar ao sol para secar. Realizei que havia sido tudo um sonho. Meu corpo paralisou. Estava em choque. Parei de respirar por alguns segundos. Meu coração disparou. Comecei a chorar. As lágrimas caíram e não havia ninguém na casa para me consolar. Estava em prantos. Soluçava. E o fato de não ter ninguém lá para desabafar tornava tudo mil vezes pior. Nenhum abraço. Nenhum carinho. Nenhuma alma para dividir tamanha tristeza.

Sentia nojo de mim mesma. Ânsia. Queria vomitar. Por que? Porque minhas fantasias traíram meus princípios. Porque meus desejos desprezaram minha razão. Era uma farsante. Inútil. Hipócrita.

chuveiro choro

Havia aprendido desde a infância que as relações homossexuais eram um erro inconcebível. Um ato desumano. Minha educação conservadora obrigou-me a aceitar que o pecado era severo entre aqueles que fornicavam com as pessoas do mesmo sexo. Desprezava gays, lésbicas e transexuais. Os comentários que ouvia em casa e nos círculos que frequentava reforçavam essa teoria. Fazia questão de espalhar tais ideias em todos os grupos que passava. Nas redes sociais. Na casa de amigos. Quanta hipocrisia. Minha mente tinha uma convicção, mas meus instintos mostraram-me que o ápice de minha sexualidade aconteceu ao lado de outra mulher.

Joguei-me ao chão. Engatinhei até o chuveiro. As lágrimas caíram pelo assoalho. Quanta vergonha. Que decepção. Estava inconsolável. Adentrei o box e abri o registro com uma das mãos. A água quente caiu sobre mim. O vapor começou a me envolver. Era impossível parar de chorar. Lembrava de meu passado. Pensava na minha família. Nos amigos. O que pensariam se soubessem da verdade? Meus pais ficariam extremamente desapontados.

A partir dali, dei-me conta que teria um bom tempo para refletir. Afinal, já era hora de aprender que cada um tem o direito de amar a quem quiser. Independentemente da raça, da cor, do sexo. E somente o nosso coração pode dizer o que é melhor para cada um de nós.

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