Já fui feliz um dia

Já fui feliz um dia. Antes de vir pra cá. Antes de ser uma atração de entretenimento para sua espécie repugnante e destruidora. Antes de ser capturado, escravizado e torturado. Antes de ser obrigado a trabalhar por anos a fio sem qualquer tipo de recompensa. Comendo mal, estressado, triste. Apanhando por não fazer aquilo que demorei diversas cicatrizes para aprender. Antes de ver meus pais e amigos serem assassinados, capturados e levados para um destino pior que o meu. Antes de me arrancarem de meu lar e prenderem-me em uma jaula mal adaptada por toda a eternidade, vendo outros animais tão desolados quanto eu sofrerem dia após dia sem esperanças. Antes de ser aterrorizado pelo medo da morte ao ouvir os gritos e uivos de dor dos meus compatriotas. Antes de entender que nunca mais teria controle sob minha própria vida, que seria sempre a marionete e objeto de exposição aos olhos dos demônios. Antes de descobrir que vocês existiam.

Quando nasci, eu e meus 7 irmãos da mesma ninhada não tínhamos ideia de como era o mundo. A vida era recheada de descobertas e aventuras. Brincávamos a todo momento, mamãe nos amamentava com carinho e os familiares mais velhos estavam sempre cuidando de nós.

Meu pai era imponente. Sempre atento e pronto a nos ensinar sobre nossa história e o nosso lugar dentro da cadeia alimentar. Um lutador nato. O chefe mais justo e primoroso que conheci. Rigoroso quando necessário, mas um completo brincalhão nas horas vagas. Demos boas risadas juntos. Todos os meus irmãos queriam ser como ele. Eu não. Apesar de admirar muito meu pai, dava-me melhor com minha mãe. Por sua postura e dedicação, sempre disposta a nos mostrar a importância que tínhamos junto à natureza e a nos acolher assim que qualquer problema acontecia. Fosse uma briga familiar, um machucado inesperado ou para nos defender diante de algum predador. Uma caçadora impiedosa. Lembro-me de uma ocasião na qual meu pai tinha saído para um reconhecimento de área e minha mãe sozinha espantou cinco hienas com apenas um rugido. Aterrorizante. Pura valentia. Meu pai com certeza era o macho alfa, mas quando minha mãe ficava nervosa nem ele se atrevia a discutir com ela. Um grande exemplo.

Image by Alberto Ziveri

Assim que fui crescendo, minhas garras aumentaram e meu rugido ficou aos poucos mais feroz. As explorações pela floresta eram maiores e mais inovadoras. Caçava pequenos animais, pois ainda não tinha experiência nem força para fazer como minha mãe e minhas tias que buscavam cervos, zebras e outros antílopes. Ao longo do tempo, minhas habilidades melhoravam. Agilidade. Espreita. Tempo de reação. A rivalidade com meus irmãos era muito saudável e sempre nos ajudávamos, mesmo com as diversas personalidades envolvidas em cada descoberta. Quando tínhamos alguma briga desnecessária, minha mãe nos falava da importância de nos mantermos unidos, para colocar as cartas na mesa e resolver de imediato a situação. Era difícil opor-se a ela. Primeiro, porque sempre tinha razão e, segundo, porque vê-la nervosa não era uma boa ideia.

Alguns parentes e outros animais já tinham me contado sobre os bípedes sanguinários, mas nunca tinha vivenciado a sua presença. Sabia o quanto eram cruéis e que deveríamos evitá-los a todo custo. Sabia que matavam por diversão. Para arrancar nossas peles, chifres, dentes. Na maioria das vezes nem se alimentavam de nossa carne, apenas largavam as carcaças ali, como lixo. Meus pais contavam que muitas espécies já não existiam mais por culpa deles e que logo, logo nós também seríamos uma delas.

O problema não era só a matança, eles também destruíam tudo que encontravam. Lagos, rios, florestas. Verdadeiros exterminadores. Aprendi a temê-los assim que comecei a entender as catástrofes que causavam, embora nunca tivesse tido a chance de encontra-los. Sua existência apenas pairava em minha imaginação.

A primeira vez que percebi sua presença foi quando resolvi disputar uma corrida com minha irmã mais velha. Acordamos que a chegada seria no conjunto de árvores em forma de “V” no topo do morro dos faisões. Em plena juventude, éramos rápidos como raios. Eu era mais veloz, mas ela entendia a topografia da montanha melhor que eu. Apesar de todo meu esforço, essa já era a sétima vez que perdia a corrida pra ela. Uma ótima competidora.

Image by Cristian Bortes

Assim que chegamos ao topo, vimos pela primeira vez a intervenção humana. Toda a floresta abaixo havia sido destruída. Queimada. As árvores colocadas abaixo. A fumaça ainda subia pelos focos de chama. O cheiro das cinzas era insuportável. Era uma área imensa. Tinha amigos e conhecidos que viviam por lá e provavelmente tiveram que deixar suas casas e procurar um novo lugar para viver. Foi uma visão horripilante. Senti muito medo. Finalmente entendi o poder que eles tinham e os motivos dos receios dos outros animais. Naquela época pensei que podiam ser deuses. Ledo engano.

Já nessa época, tínhamos que mudar constantemente nosso local de moradia. Tanto pela falta de caça quanto pelo desmatamento da floresta. Era cada vez mais comum vermos nuvens negras subirem pelas clareiras, pássaros voando em fuga e explosões. Por mais que nos movêssemos, não conseguíamos escapar da intervenção dos bípedes. Tínhamos paz algumas vezes, mas nossa alcateia sempre sofria baixas inesperadas. Tios desaparecidos, irmãos que não voltavam das caçadas, avós mortos ou capturados. Percebia a preocupação cada vez mais evidente de meus pais, porém, até aquele momento, ainda não tínhamos encontrado nenhum deles em nosso caminho. Não tínhamos mais para onde fugir. Apesar do medo e dos parentes desparecidos, esses dias ainda conseguiam ser especiais. Foram minhas ultimas lembranças de uma vida feliz.

A última vez que vi a floresta foi aterrorizante. Fomos acordados por um cheiro fortíssimo de mata queimada. A temperatura subiu de forma vertiginosa. Não era possível entender como tudo aconteceu tão rápido. Meu pai alertou a todos e nos reunimos para a fuga. Decidimos procurar um local no qual não havia chamas, mas em um raio de 240º atrás de nós só era possível enxergar desgraças. Meus pais e tios se dividiam buscando inutilmente algum local onde não seríamos queimados. No fim, com todos juntos, corremos ao único lugar que não havia fumaça, caos e chamas. Era uma armadilha. Os demônios nos esperavam lá. Um grupo deles. Carregavam materiais nas mãos e nas costas que jamais havia visto, mas que descobri naquele momento que eram instrumentos de morte. O primeiro a cair foi meu tio, irmão mais velho de meu pai. Não percebeu a chegada do inimigo e foi atingido diretamente na cabeça por um cabo enorme com foices nas pontas. Fiquei desesperado. Meu pai atacou seu algoz, diretamente na jugular. Aquele com certeza nunca mais foi mesmo. O ataque, porém, foi inútil. De longe, meu pai foi alvejado. Não entendia como, mas diversas marcas de sangue em suas costas surgiram. Ele rugiu de dor e caiu imóvel. Olhos abertos, expressão sem alma. Fiquei apavorado e com ódio. Minha mãe postava-se a nossa frente. Eu e meus irmãos tentávamos escapar de seus golpes. Alguns deles conseguiram fugir e sumir ao longe no horizonte. Foi a última vez que os vi. Não pude nem me despedir. Alguns dos bípedes apontavam suas armas na direção dos fugitivos, mas não os acertaram. Eu e meu irmão mais novo estávamos ao lado de nossa mãe, procurando uma forma de escapar. Via um a um de minha família, cair, morrer e agonizar no chão. Cercaram-nos. Eram oito deles. Havia sobrado apenas minha mãe, eu e meu irmão mais novo. O mais baixo dos demônios tentou acertá-la com um pau. Minha mãe, rápida como um raio, desviou do golpe e atacou. Uma patada direta na face. Vi o sangue jorrar. E então assisti à cena mais triste de toda a minha história. Dois estouros e minha mãe caiu. Sua barriga sangrava. Um bípede de olhos pequenos e pele amarela puxou uma faca da cintura e a enfiou no peito de minha mãe. Ela rugiu de dor. O sangue escorreu. Ela gritou para que fugíssemos sem olhar para trás. Fiquei imóvel. Vendo-a morrer, sofrer e chorar. O demônio arrancou seu coração na frente de todos. Após um rugido cheio de desespero, minha mãe não mais se moveu. Vi-a deitada, com os órgãos exposto e a expressão sem vida. Língua pra fora. Olhos abertos. Sangue. Lágrimas. Então, cercaram-me e senti uma picada no pescoço. Parecia um inseto gigante preso na garganta. Perdi os sentidos e deitei para esperar a morte. Nunca mais fui livre. Nunca mais vi ninguém de minha família. Nunca mais voltei pra casa.

Image by cdamundsen

Quando acordei, estava preso em uma gaiola minúscula, em um local escuro e sem ventilação. Assemelhava-se a um terremoto constante. Minha visão e meus sentidos estavam estranhos. Perdi horas e horas tentando entender o que estava acontecendo. Com sede e fome. Puro terror. Não conseguia parar de chorar. Conter meu desespero era impossível. O calor era imenso. Vomitei três vezes no processo. Depois de muito tempo, tudo ficou em silêncio. Escutava as vozes dos meus captores. Nunca senti tanto medo em minha vida. Abriram a porta e me olharam com desdém. Riram. Mostrei os dentes e garras. Não me libertaram. Levaram-me dentro da gaiola para uma jaula maior, ao lado de muitas outras. Vi diversos animais em outros compartimentos e diversas ferramentas que não sabia o que eram. Com uma vara por fora da gaiola, picaram-me novamente. O sono veio. Apaguei.

Assim que acordei pela segunda vez, percebi que estava fora da jaula, mas preso a uma corrente extremamente apertada que machucava meu pescoço. Permitia-me andar alguns metros em uma linha paralela. Olhei a minha volta e enxerguei outras jaulas separadas. Diversos animais em cada uma delas e uma expressão única de tristeza em cada olhar que defrontava. Percebi ali que nada mais seria fácil em minha vida.

Os dias passavam-se lentamente. O enclausuramento dava-me desespero. A corrente me sufocava. Uma vez ao dia deixavam algum tipo de carne podre ou mistura estranha para que me alimentasse. A água, sempre suja e morna. Não sei quanto tempo se passou, mas dei-me conta que sempre que algum bípede se aproximava, os animais ficavam tensos. Principalmente quando era aquele com a face cheia de pelos, alto, gordo e com um olhar malévolo no rosto. O pavor era intenso e sentia a energia de ódio e desespero assim que ele pisava o local. Toda vez que entrava em alguma jaula, os animais ficavam em silêncio. Fazia gestos e era obedecido a contragosto. Movia os braços e os animais pulavam. Movia os dedos e corriam em círculos, ficavam sob duas patas ou faziam outros truques. Era tenebroso, mas ao mesmo tempo curioso assistir. Quando algum animal o contrariava, era advertido com violência. Chutes, socos e principalmente paus e chicotes. Torturavam-no sem piedade. Pavoroso. Chamavam-no de “O Doutrinador”.

Image by Sean MacEntee

Na primeira vez que nos encontramos, eu estava preso. Podia me mover por apenas alguns metros. Vi-o de longe. Entrou na jaula lentamente e balbuciou sons que não podia entender. Gritou, gesticulou e me ameaçou. Mostrei meus dentes, garras e rugi. Sempre que tinha uma reação nervosa, apanhava. Ele era esperto o suficiente para não se aproximar a uma distância na qual pudesse alcança-lo.

Foram dias agonizantes. O estalo do chicote dava-me calafrio. E os espancamentos com paus e ferros faziam me ter dificuldade para saltar ou dormir. Com o tempo aprendi a mudar meu corpo de posição no momento do impacto, para que não atingisse uma área já machucada ou partes nas quais os danos físicos eram maiores. Ganhei muitas dores e cicatrizes até entender que não deveria feri-lo, mas sim respeitá-lo.

Aos poucos entendi que cada gesto tinha um significado. Mãos pra cima, mostravam-me que deveria subir em palanques, por exemplo. Um movimento continuo com os braços em direção a frente, indicava que deveria pular sobre arcos. Haviam muitos sinais e, à base de torturas, aprendi o que cada um deles queria dizer. Era basicamente um escravo e, quando mostrava-me mais dócil e disposto a cooperar, soltavam minhas correntes e me deixavam “livre”.

Circus Tent by Ryan McCullah

Quando comecei a entender de forma clara todos os sinais, obrigaram-me a fazer os movimentos na frente de outros demônios, em várias noites seguidas, por meses ou anos a fio. Eles gritavam a cada movimento. Eu ficava desesperado, mas sabia que se não obedecesse, depois seria castigado. Junto aos outros animais, rezava para que cada noite terminasse o mais rápido possível. Éramos completamente explorados. Tinha saudade de casa e principalmente de minha família. Perguntava-me se alguns de meus irmão haviam sobrevivido. E principalmente questionava-me porque deveria passar por tudo aquilo. Nunca havia feito nada de mal a nenhum deles. Mas eles me faziam sofrer todos os dias.

Não sei quantas horas, meses ou anos se passaram. Aprendi a viver em torpor. A ser uma marionete. A estar constantemente mudando de local, embora estivesse sempre preso. A comer e beber aquela comida horrível. A estar enclausurado. A esquecer os prazeres da vida. A apanhar o menos possível. A pensar menos e dormir mais para que o tempo passasse logo. Fiz amizade com espécies diferentes da minha. Por entre as grades. Naquele ambiente, não havia presa ou predador, apenas a solidariedade dos outros infelizes como eu. Quando algum deles estava velho demais ou ficava doente, era levado embora. Não sabíamos exatamente o que faziam com eles, mas era o único vislumbre que tínhamos de alguma chance de liberdade.

Certa noite, o galpão foi invadido por diversos bípedes e algo estranho aconteceu. Depois de uma dura e rápida batalha, os humanos que nos torturavam também foram acorrentados, um a um, e presos dentro de jaulas móveis. Nunca mais os vi. Fiquei novamente apavorado, como na época em que fui capturado. Imaginei que passaria por tudo aquilo outra vez. Os novos humanos, desconhecidos, entraram em cada jaula de nossa prisão, abateram (era o que eu pensava) os animais e também os levaram embora. Tentei fugir a todo custo, mas não havia falhas em minha gaiola. Tornei-me violento mais uma vez. Quando viram-me agitado, senti uma picada no torso. Meus movimentos ficaram lentos. Desmaiei.

Chester Zoo by Nigel Swales

Abri os olhos e estava em um local diferente. Tinham cuidado de meus ferimentos. Havia um pedaço de plástico preso à minha orelha esquerda. Estava sob um espaço aberto, com árvores, grama, terra, água e sol. Levantei-me, olhei para todos os lados e desatei a correr. Corri e corri até ficar exausto. Fui em cada canto daquele lugar. Cheirei e toquei cada planta e flor. Afiei minhas garras em todas as árvores que pude encontrar. Eram apenas três. Parei para observar o sol e o céu. Eram lindos. Porém, ainda haviam paredes que não me deixavam prosseguir. Estava preso, mas de uma forma menos desesperadora. Rolei na grama e chorei ao sentir a terra roçar meu corpo. Quanta saudade senti daquela sensação.

Ao longo do tempo, comecei a me entediar e sentir-me solitário novamente. Estava sozinho e minha única companhia eram os filhotes de bípedes e seus pais que apareciam todos os dias para me observar ao longe. Apontavam, faziam barulhos estranhos e se divertiam com minha presença. Fiquei com medo no início. Depois, intrigado. Então, perdi o interesse. Não havia nada de novo. Conhecia cada canto da prisão. Alimentavam-me uma vez ao dia. Durante as noites, tudo ficava em silêncio. De dia, tornava-me o entretenimento daqueles que me odiavam. Não tinha mais vontade de me movimentar ou correr. Tristemente, me conformei que esse seria o meu destino. E, desde então, apenas espero os dias passarem lentamente junto à minha eterna depressão.

Enfim, agora estou aqui, olhando diretamente nos seus olhos, tentando te mostrar a tristeza que é, e foi, minha vida. Por trás dessas grades, espero que você entenda o motivo de minhas angústias e o porquê tudo desde então tem sido apenas um borrão melancólico, tenebroso e solitário. Veja em meu olhos a infelicidade que assola o meu coração. Caso tenha a sensibilidade de perceber o mal que fizeram a mim e a meus semelhantes, mostre a verdade aos outros humanos, para que em algum momento deixem de nos perseguir, destruir e escravizar. Não acabem com nossas vidas. Ainda há tempo para que todos nós consigamos viver em harmonia. Os animais, a natureza e vocês, demônios.

Sonhos

Ela abriu a porta lentamente. O feixe de luz adentrou o quarto e iluminou a borda da cama. Podia ver a silhueta de seu corpo diante da entrada. Camisola. Cabelos soltos. Um brilho no olhar e um sorriso perverso. Meu coração saltava do peito. Nunca havia sentido isso. Paixão. Medo. Tesão.

Em passos lentos, se aproximou da cama. Apoiou o joelho esquerdo entre meus pés e jogou seu corpo sobre mim. O calor da pele me arrepiou. Podia sentir o perfume doce e delicado. O longo cabelo negro refletia a luz que vinha de fora. Aproximou vagarosamente seu rosto do meu. Senti sua respiração e supliquei por um beijo. Ela previa minhas intenções. Sussurrou ao meu ouvido e encostou suas mãos em minha cintura. Sorri. Primeiro beijou lentamente meu pescoço. Tirou com cuidado o cabelo que estava ao lado de meu rosto e lambeu minha orelha. Suspirei.

De repente, com um toque mais bruto, puxou meu cabelo com força e me beijou com violência. Com gosto. Com força. A língua delicadamente me inundava. O melhor beijo que já recebi. Rolamos na cama e continuamos a nos beijar por um longo tempo. Sentia calor. Euforia. Desejo. Lábios nos lábios. Língua na língua. Coração com coração.

Image by Santi Molina

Ela ficou novamente por cima. Seus olhos azuis cintilavam no escuro. Jamais haviam me olhado dessa forma. Sentia-me como um presente prestes a ser entregue a uma criança. Um a um, ela desabotoou a camisa do meu pijama. Suas mãos passeavam suavemente por meu corpo. Um carinho maldoso. Safado. Algumas vezes apertava-me com força. Outras, só deslizava as pontas dos dedos pelo contorno da minha pele. As unhas me arranhavam com leveza. Calor. Arrepio. Esses toques poderiam me excitar a noite toda.

Depois de soltar o último botão, puxou-me a sua frente e me beijou de novo enquanto arrancava minha blusa. Deitou-me. Beijou calmamente meu queixo. Depois meu pescoço. Lambeu meu colo. Estava em êxtase. Brincou com os dedos e apertou meu seio direito com força. Beliscou com cuidado a ponta do mamilo. Gemi. Gritei. Com o olhar, pedi mais. Ao mesmo tempo em que segurava o seio direito, beijava o esquerdo. Lambia, chupava. Sentia o hálito quente. A saliva escorreu por minhas costelas até o colchão. Que noite!

Image by Killy Ridols

Arrancou a camisola e postou seu corpo sobre o meu. Parecia fogo. Sentia seus seios sobre os meus. Os bicos estavam duros. A pele macia. Nunca havia sentido o calor do corpo dessa forma. Loucamente suave. Não cansava de me beijar. Sua coxa acariciava minha vagina. Para cima. Para baixo. Escorregava com paixão. Estava ofegante. A calcinha encharcada.

Sua língua decidiu passear pelo meu corpo. Dos lábios para o queixo. Do queixo para o pescoço. Desceu até os seios. Subiu para a bochecha. Atrás da orelhas. Nuca. Não conseguia segurar minha paixão. Gemia a cada beijo. Na barriga. Em volta do umbigo. Sua mão apertava minha buceta com suavidade. Com a ponta dos dedos. Meu clitóris pulsava. Com raiva, puxou minha calça e minha calcinha. Jogou tudo para fora da cama. Caíram ao lado das cobertas e travesseiros espalhados pelo chão.

Imagem por Kayla Kandzorra

Passou os dedos com vontade. No clitóris. Na entrada da vulva. Em volta dos lábios. Estava molhada. Perfeita. Enfiou o dedo médio. Urrei de prazer. Com movimentos leves, às vezes rápidos, penetrava-me. Para frente. Para trás. Maravilhoso. Acariciava a parte de trás do meu clitóris com a ponta do dedo. Ao mesmo tempo, lambeu minha vagina. Gemi loucamente. Beijou os lábios. Chupou o clitóris. Não podia me conter. Segurava o lençol com força. Um braço para cada lado. Crucificada de prazer. Contorcia-me. Movimentos circulares com a língua. O dedo por dentro. Tantas fontes de prazer faziam-me delirar.

Pouco a pouco, fui sentindo algo novo. Uma forma de gozar diferente. Ela era incansável. Quando tinha chance de vê-la, podia ver seus olhos me devorarem. Parecia adorar me ver em transe. De sentir meu gosto. Era único. Um calor intenso. Tremia. A vontade de explodir em excitação era cada vez maior. Nenhum homem jamais havia chegado a esse ponto. Mas minha companheira sabia exatamente o que fazer. Sabia exatamente onde queria chegar. Era lindo. Queria gozar maravilhosamente. Não sabia mais o que fazer. Estava a sua mercê. Língua, dedos, olhares. Não podia mais segurar. Queria gritar. Peguei o travesseiro e o coloquei na cara. Mordi a fronha com raiva. O gozo finalmente veio. Único. Mágico. Inesquecível. Ela tirou o rosto de dentro de minhas coxas. O liquido espirrou por todo o quarto. O travesseiro foi jogado aos céus. Tremia. Gemia. Sorria como uma criança. O dedo continuava a me estimular. Momentos inesquecíveis. Se havia algum sentido na vida, era para que algum dia os seres humanos chegassem àquela sensação. Podia gritar seu nome às estrelas.

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Aos poucos, foi diminuído o ritmo. Contorcia-me. Queria chorar de tanto tesão. Ela, enfim, tirou o dedo. Colocou-o calmamente em sua boca e o chupou. Depois, beijou minha barriga com carinho. Levantou-se. Acariciou meu joelho. Foi calmamente até a saída. Dessa vez, nua, olhou-me com desdém. Gesticulou-me um tchau e fechou a porta. Ainda ficaria ali, jogada por alguns minutos, a apreciar o que restou daquela magnífica sensação. O melhor orgasmo que já tive. Meu corpo relaxou. Suspirei. E tudo finalmente escureceu.

Abri os olhos. Sentia sede. Pisquei três vezes. Entretive-me com as luzes dos carros que brilhavam pelo teto. Ainda estava tentando entender o que havia acontecido. Ao me mexer, senti que minhas roupas estavam molhadas. Passei as mãos pela calça. O pijama e o edredom estavam encharcados. O colchão teria que ficar ao sol para secar. Realizei que havia sido tudo um sonho. Meu corpo paralisou. Estava em choque. Parei de respirar por alguns segundos. Meu coração disparou. Comecei a chorar. As lágrimas caíram e não havia ninguém na casa para me consolar. Estava em prantos. Soluçava. E o fato de não ter ninguém lá para desabafar tornava tudo mil vezes pior. Nenhum abraço. Nenhum carinho. Nenhuma alma para dividir tamanha tristeza.

Sentia nojo de mim mesma. Ânsia. Queria vomitar. Por que? Porque minhas fantasias traíram meus princípios. Porque meus desejos desprezaram minha razão. Era uma farsante. Inútil. Hipócrita.

chuveiro choro

Havia aprendido desde a infância que as relações homossexuais eram um erro inconcebível. Um ato desumano. Minha educação conservadora obrigou-me a aceitar que o pecado era severo entre aqueles que fornicavam com as pessoas do mesmo sexo. Desprezava gays, lésbicas e transexuais. Os comentários que ouvia em casa e nos círculos que frequentava reforçavam essa teoria. Fazia questão de espalhar tais ideias em todos os grupos que passava. Nas redes sociais. Na casa de amigos. Quanta hipocrisia. Minha mente tinha uma convicção, mas meus instintos mostraram-me que o ápice de minha sexualidade aconteceu ao lado de outra mulher.

Joguei-me ao chão. Engatinhei até o chuveiro. As lágrimas caíram pelo assoalho. Quanta vergonha. Que decepção. Estava inconsolável. Adentrei o box e abri o registro com uma das mãos. A água quente caiu sobre mim. O vapor começou a me envolver. Era impossível parar de chorar. Lembrava de meu passado. Pensava na minha família. Nos amigos. O que pensariam se soubessem da verdade? Meus pais ficariam extremamente desapontados.

A partir dali, dei-me conta que teria um bom tempo para refletir. Afinal, já era hora de aprender que cada um tem o direito de amar a quem quiser. Independentemente da raça, da cor, do sexo. E somente o nosso coração pode dizer o que é melhor para cada um de nós.

Crime doloso

Ele não se lembrava de ter passado por um verão tão quente e perturbado. Trinta e seis graus durante o dia e muita chuva, água e desespero durante o final da jornada. Não havia mais vagas pelas ruas, a inflação elevou o valor dos alimentos a preços exorbitantes e as manifestações ocorriam por todo o planeta. O que nos restava fazer? Nós, meros mortais? Seguir em frente. Trabalhar, estudar, pagar as malditas contas e torcer por um pouco de felicidade durante o período de folga.
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Aquela época de sua vida podia ser chamada de “Aguardando pelo Final de Semana”. As segundas-feiras começavam com um único pensamento: quantos dias faltam para sexta? O problema era que a cada semana, os dias tornavam-se cada vez mais longos e cheios de obrigações. Talvez isso estivesse levando-o há uma vida dividida. Durante os dias de estudo e trabalho, concentrava-se em ser um rapaz centrado, integro e responsável. Nos tempos livres, sua principal ocupação era enlouquecer e se divertir. Não havia muitas regras. Álcool, drogas e mulheres fúteis e desinteressantes que nunca receberam um telefonema sequer após a noite anterior. A verdadeira felicidade é igual ao amor: está em todo lugar, mas a gente nunca encontra.
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Image by Gideon Tsang
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Uma bela noite, quando voltava de mais uma jornada de trabalho, saiu apressado do escritório e apertou o botão do terceiro andar. Saiu do elevador apenas para verificar se os manifestantes ainda estavam por ali. Meia dúzia de estudantes maltrapilhos haviam se acorrentado junto a catraca da entrada principal para mais um protesto sem resultados. Quem não chora não mama! Mas aquela era mais uma luta perdida. A polícia logo chegaria e dispersaria aqueles garotos na força. Os primeiros a apanhar seriam os três mil desocupados ao lado de fora. Aqueles da catraca certamente teriam um destino pior. Talvez presos. Talvez espancados.
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Foi obrigado a sair pela garagem do prédio. Ainda atravessava a ponte em direção ao terminal de ônibus quando percebeu toda a gritaria. Enquanto subia o escadarão, podia ouvir ao longe os tiros de bala de borracha e as bombas de gás lacrimogêneo sendo atiradas contra a multidão.  Não era nenhuma novidade.  O protesto nunca acabaria com pedidos de “licença” e “por favores”. Ele continuou andando enquanto pensava qual era o caminho mais rápido até o lar. Não iria se rebelar. Estava ocupado demais preocupado com seus próprios problemas para aderir a uma batalha perdida. E caso tivesse culhões para fazê-lo, certamente seria demitido no dia seguinte. Essa não era, nem de perto, a solução. Covarde? Egoísta? Chamem-no do que quiser, mas ele nunca seria um “revolucionário”.
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No ponto, como sempre, o transporte casual estava cheio, cheio até demais. Ficou parado por cinco minutos em frente a porta do primeiro ônibus que havia chagado e desistiu. Seria mais fácil voltar a pé. Teria sete quilômetros para refletir. O trajeto continuava sendo o mesmo de sempre, mas pelo menos seria percorrido de forma diferente.
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Depois de alguns quarteirões, havia constatado que precisava cortar os cabelos, arrumar uma namorada, tirar férias e suspender por alguns momentos a boêmia e os exageros. Seria conveniente se ausentar do mundo por uma quinzena de dias. Viajar para algum lugar qualquer e esquecer todos os problemas e preocupações. Mas sabe qual a grande ironia? Nada disso seria feito. E ele, mais que ninguém, percebia isso com muita clareza. Tudo bem, ele precisava de algum modo dispersar os pensamentos e continuar a caminhada.
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Depois de mais algumas dezenas de minutos, chegava a parte mais estranha do percurso. Razoavelmente próximo de sua casa, havia um cemitério que torneava uma grande avenida. Algumas partes desse trajeto eram, às vezes, um pouco perigosas, escuras e desertas. Alguns mendigos, flanelinhas e viciados deixavam o ambiente literalmente mais inóspito. Não que ele se preocupasse, afinal nunca havia sido assaltado nem tinha sofrido problemas severos vivendo em uma das metrópoles mais perigosas do país. Talvez essa falsa sensação de segurança fosse seu grande erro. Erro que lhe custaria caro.
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Enquanto caminhava calmamente, percebeu a movimentação estranha de dois sujeitos que vinham pela direção oposta. Eles conversavam desconfiados e pareciam planejar alguma coisa. Seus instintos perceberam que algo estava prestes a dar errado. Aquele velho frio na espinha, o coração acelerado e o medo atento que desperta e aguça todos os seus sentidos. Não era necessário ser nenhum vidente para se dar conta que problemas sérios estavam a caminho.
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O movimento dos carros era intenso, não havia brechas para mudar o curso, atravessar ou ir para o outro lado da rua. Os dois inimigos estavam cada vez mais próximos. Descalços, sujos e com feições nada animadoras. Os olhos injetados, as roupas em frangalhos. Andavam, quase corriam. Já haviam escolhido o alvo. Não havia como escapar. Seus olhos rápidos localizaram uma barra de ferro apoiada no poste a sua frente. Seria sua arma, sua defesa.
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Estavam apenas há alguns metros do confronto definitivo, quando um dos dois algozes gritou e seu companheiro correu em direção a vítima. Percebendo o perigo, agarrou a barra de fero com seu braço direito e deferiu o golpe com toda sua força. A haste atingiu o meio da face do indigente. Exatamente embaixo do nariz. Ele não esperava tal reação. Não conseguiu desviar. Mal tentou evitar o golpe. A força do impacto foi tão grande que estremeceu todo seu braço e metade do tronco. O sangue jorrou e o inimigo desabou. Ficou estirado no chão, gemendo e, ao que parecia, tendo algumas convulsões. A barra havia entortado pela metade.
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Image by Mate Marschalko
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Seu companheiro assistiu toda a cena tranquilamente. Olhou diretamente nos seus olhos e então observou seu amigo no chão. Abriu um grande sorriso e começou a gargalhar. Enquanto ria, retirou uma arma da cintura e apontou para o trabalhador que apenas tentava voltar para casa. Não disse nada e divertiu-se mais um pouco. Sem ter como reagir, deixou a barra de ferro cair e se rendeu. O som do ferro batendo no concreto foi o único barulho que se podia ouvir. Ecoou. O semáforo tinha fechado e a rua ficou deserta por alguns instantes. A tensão era imensa. O assaltante não esboçou emoção, apenas tirou do bolso esquerdo um pequenino saco contendo um pó branco em seu interior. Provavelmente era cocaína. Colocou um pouco sobre as costas da mão que estava desocupada e cheirou com muita satisfação. Deu algumas fungadas e sorriu novamente. Guardou o restante da droga no bolso e levantou a arma. Mirou com atenção. Ninguém dizia nada. A luz verde do farol ascendeu. Os carros aceleraram, as buzinas tocaram, o caos urbano recomeçou e ele puxou o gatilho.
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BAM!
                       BAM!
                                                                                                                BAM!
                                           BAM!
                                                                                      BAM!
                                                                                                                                                            BAM!

 BAM!

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Nosso protagonista caiu e não mais se mexeu. Sem movimentos, sem palavras, sem discursos perdidos. O sangue escorria e chegava até a sarjeta. O assassino analisou atentamente a situação, desdenhou o corpo e perdeu alguns segundos observando a iluminação que era refletida nas poças de sangue. Guardou a arma e foi em direção ao seu companheiro. Ajudou-o a se levantar e novamente começou a rir. A situação debilitada em que se encontrava parecia alegrar, e muito, o amigo. Aos poucos começaram a se afastar, seguindo o caminho que vinham fazendo antes do sangrento encontro.
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Não havia dúvidas, a intenção realmente era o homicídio. Sete tiros foram disparados. Todos contra o peito.  Não roubaram a vítima. Não levaram absolutamente nenhum pertence nem ao menos encostaram suas mãos no falecido corpo. Dobraram a esquina e desapareceram no horizonte.