Era uma vez um brother

Se você acha que relacionamentos abusivos são causados apenas por homens violentos, aproveitadores e mentirosos, é preciso abrir um pouco mais sua cabeça, pois vou te contar a história de Felipe Arquer e Luana Villas Betis.

Felipe Arquer era mais um jovem de classe media/alta da metrópole paulistana. Havia cursado publicidade, morava em Perdizes e perdia horas e mais horas de sua vida jogando Pro Evolution Soccer no Playstation. Tinha um senso de humor calibrado e era digno de uma bela aparência. Possuía 1,80m, cabelos e olhos castanhos, tronco quadrado, e dono de um visual despojado. Provavelmente, um dos caras mais pegadores que já conheci. Sempre haviam mulheres no seu encalço ou algum esquema rolando por ai. Obviamente, nenhum desses casos era sério. Havia namorado apenas uma vez em sua vida, mas lembro-me que foi com uma garota estonteante. Os esportes em geral eram um grande hobbie, principalmente o futebol, sua maior paixão.

Luana Villas Betis, por sua vez, vinha de uma família mais humilde, teve sua formação toda em escola pública e pagou pelos próprios estudos superiores, trabalhando de dia e indo à faculdade a noite. Formou-se em Relações Públicas. Vivia na região da Pompeia, era descolada, comunicativa e tinha um humor diferente e sarcástico, que poucas mulheres possuíam. Sua altura era de 1,60m. Loira, magra, roqueira. Possuía algumas tatuagens espalhadas pelo corpo e um “quê” meio pin up. Uma bela garota. Características essas que chamavam bastante atenção e lhe rendiam grande admiração do público masculino.

Por alguma ironia do universo, os dois vieram a se conhecer quando estavam trabalhando na mesma agência de publicidade e marketing digital. Mais um desses empregos escravocratas que jovens estúpidos acreditam ser incríveis para trabalhar, pois podem usar havaianas e regatas durante o expediente e expor ao público sem qualquer remorso seus cabelos e barbas ridículos. Empregos quais ganham um salário de merda e são obrigados a fazer hora extra todos os dias e trabalhar aos finais de semana, enquanto são explorados por seus clientes e superiores, para depois, exaustos e sob uma pilha de nervos, se exibirem numa mesa de bar, expondo como sua vida profissional é magnifica, já que conseguem editar os vídeos da nova campanha num Apple de última geração.

Aos poucos os dois foram ganhando afinidade e passaram a frequentar as mesmas festas e bares quando descobriram que tinham alguns amigos em comum. Eu era um deles. Havia feito o colegial na mesma escola que Luana, mas nunca na mesma classe. Assim, nossa relação só viria a se estreitar depois que começamos a trabalhar juntos. Já Felipe, eu conhecia há anos, pois morávamos na mesma rua e eu frequentava o seu prédio toda semana. Éramos bons amigos. Jogávamos bola, vídeo game, saíamos ocasionalmente e ríamos de coisas sem sentido. Dessa forma, através de contatos cada vez mais frequentes com os dois, me encontrei em uma nova rotina semanal de bares, baladas e encontros em locais boêmios para extravasarmos a mente e aproveitar um pouco mais do que a juventude tinha a nos oferecer.

Rua Augusta por Douglas Pimentel

Um dos locais que fazíamos questão de estar sempre presentes era a famigerada Rua Augusta. Foram diversas noites perdidas beijando pessoas horríveis, usando drogas, arrumando brigas, batendo carros e chegando bêbado em casa. Lindas lembranças, incríveis ressacas e muitos arrependimentos.

Era claro desde o início que havia uma sintonia entre os dois, mas lembro-me que demorou algum tempo para que eles ficassem pela primeira vez. Apesar de todo o clima e momentos propícios para tal, o primeiro beijo entre os dois aconteceu muitos meses depois que a chama do amor já os havia entrelaçado.

O início, como sempre, foi lindo. Noites maravilhosas, amigos em comum e o prazer imensurável de uma nova paixão. E foi então que ocorreu o primeiro caso curioso dessa história. Depois de muitos meses que os dois começaram a ficar, saírem juntos, frequentar a casa um do outro e conviver com ambas as famílias, por algum motivo desconhecido Luana não queira assumir um namoro ou qualquer compromisso oficial. As razões não eram claras, mas ela carregava algum receio anterior, causado por antigas relações e por vontades atuais que não correspondiam àquele momento. De alguma forma, Felipe soube aceitar o caso muito bem e aguardou até que houvesse uma chance real para que tudo se concretizasse. Obviamente, esse fato rendeu várias piadas entre a galera, já que os pseudos namorados estavam sempre juntos, não saíam com ninguém mais e faziam questão de não manter um relacionamento aberto. Um casamento de mentira. O comprometimento invisível. Independentemente de quão próximos eles estavam, Arquer só conseguiu oficializar o namoro nove meses depois do primeiro beijo.

O primeiro fato que me deu sinais que havia algo estranho naquele relacionamento aconteceu por um motivo incrivelmente idiota. Em uma conversa em grupo entre eu, Felipe e outro camarada, através do Facebook, foi jogado ao ar que a grande maioria dos homens se masturbavam, mesmo após terem assumido um relacionamento estável. Alguns minutos depois, Luana me chamou inbox e começou a me perguntar como eu sabia que o namorado dela se masturbava agora que os dois estavam juntos. Porra! Como eu iria saber se o namorado dela se masturbava? E como ela sabia sobre o que estávamos conversando? Respondi que não fazia ideia se ele se masturbava ou não, mas, usando exemplos como o meu e de outros homens que conhecia, era realmente muito provável que ele também se masturbasse ocasionalmente. Teve início o inferno. Fui acusado, xingado e declarado mentiroso. Luana mandou mensagens até no Whatsapp de minha namorada, hoje noiva, para expor minhas declarações e também fazer com que eu brigasse com ela. Que filha da puta! Felipe ouviu as reclamações e a ferocidade de Luana por horas a fio, durante toda a tarde e noite. Em algum momento, as mensagens também chegaram por email, e era nítido, devido a forma como foram escritas e aos termos utilizados no texto, que não era Felipe que estava conversando comigo, mas sim Luana, através do endereço dele. No fim, mandei os dois para o inferno, pois tinha mais o que fazer da minha vida.

Spying Turquoise by JD Hancock

Não vejo problema nenhum em dividir suas senhas e liberar o aceso ao seu email, celular e redes sociais para a pessoa que você ama se essa for uma decisão consensual. Mas não aceito o fato de isso se tornar uma arma de espionagem para controlar seu companheiro e manipular as pessoas a sua volta.

Esse acontecimento recordou-me que Villas Betis uma vez me disse que obrigava seu ex-namorado a entrar no metro de cabeça baixa e manter aquela postura até sair da estação, pois assim ela garantiria que ele não olharia por um segundo sequer para qualquer outra mulher durante o trajeto. Que doentio! Mais estúpido ainda era o idiota aceitar essa condição. Não sei que tipo de poder ela tinha sobre seu ex-namorado, mas parecia que já havia começado a exercer esse tipo de dominação sobre Arquer também.

Lembro-me que no aniversário de Luana ela deu uma festa na ONG de um de nossos amigos, que cedeu o espaço e a ajudou a organizar a comemoração. Nesse dia, Felipe foi o lacaio de Luana durante todo o tempo, fazendo de tudo para montar o evento perfeito enquanto era destratado e humilhado em público. Podíamos ver com clareza os insultos e falta de paciência da aniversariante: “Vá buscar o gelo no Ceagesp, seu inútil!”, “Você é muito burro, não faz nada direito.”, “Pegue isto, leve aquilo, busque minha família agora!”, “Vai se foder!” Esses foram apenas alguns dos inúmeros insultos que Arquer foi obrigado a ouvir durante toda a noite perante os presentes. Recordo-me com clareza da sua cara de reprovação. Em alguns momentos parecia até desolado. De alguma forma, ele foi bastante paciente e acho que aguentou toda aquela encheção de saco sem revidar apenas porque era o aniversário dela ou porque sem perceber já estava se diminuindo perante uma relação que achava ser ideal. Vendo de fora, perguntava-me como alguém podia tratar tão mal uma pessoa que só estava ali para ajudar.

Foi engraçado que, com o passar do tempo, começaram a brigar cada vez mais em público e a forma como se tratavam nos momentos de tensão era grotesca. Xingavam-se sem qualquer tipo de barreira. Pareciam bêbados imundos insultando seu pior inimigo. Utilizavam palavões pesados e gestos inconcebíveis perante a boa família. Pais e avós ficariam horrorizados. Estar ao lado dos dois durante esses momentos era vergonhoso.

Por muitas vezes, quando Arquer se atrasava para algum compromisso, Luana  entrava em contato até com os amigos dele para saber sobre o seu paradeiro ou discutir os motivos da demora do seu namorado em retornar. Se toca! Isso não é problema deles!

Slidescreen by Johan Larsson

Uma vez, quando estava sem carro e havia ido de carona até a casa de um de seus amigos assistir a um jogo de futebol, Felipe recebeu mais de 20 ligações pressionando-o a voltar o mais rápido possível. De tanto ser infernizado, ele passou o telefone ao seu amigo, dono do veículo, para que Luana pudesse adverti-lo e obrigá-lo a voltar naquele momento, pois ela não poderia esperar o jogo terminar para encontrar seu amado. Obviamente, seu pedido foi ignorado. O que a deixou ainda mais puta e fez com que Felipe passasse por péssimos momentos quando voltou ao lar. Que cena ridícula. Tão ridícula que chega até a ser engraçada.

Enfim, não vou me alongar em todas as inúmeras historias nas quais Arquer foi destratado, manipulado ou teve suas vontades negadas, mas vou contar como foi a última vez que tive contato com ele. Numa de nossas conversas rotineiras de bar, Luana e Felipe tiveram a ideia de organizar um amigo/inimigo secreto entre nossa galera. Cada participante deveria se fantasiar de alguém do grupo, para deixar o evento ainda mais engraçado. Escolhemos o local, fizemos o sorteio, compramos as bebidas e quitutes e marcamos o dia. Parecia que seria uma jornada realmente divertida. Foi ai que os problemas começaram. Na data marcada, todos estavam presentes, menos Luana e Arquer. Independentemente das inúmeras mensagens e ligações, nenhuma satisfação foi dada por ambos. Haviam pessoas que tinham se fantasiado como os dois e comprado seus respectivos presentes para uma brincadeira que não daria mais certo. O evento estava marcado para às 14h, mas aguardamos o casal “somente” até às 18h30, pois alguns dos 08 idiotas que os esperavam tinham outros compromissos. Eles jamais foram, não deram qualquer satisfação e nunca mais falaram com nenhum de nós.

Após esse evento, Arquer nunca mais respondeu nenhuma mensagem de email, Whatsapp ou Facebook. Jamais atendeu a nenhuma de nossas ligações e nunca mais falou com nenhum de seus antigos amigos. Alguns deles o conheciam desde o primário. Haviam crescido juntos. Anos e anos jogados fora.

Eu também perdi a conta de quantas vezes fui ignorado. O motivo de tudo isso eu ainda não sei. Infelizmente, ele nunca teve a dignidade ou caráter de me contar o que aconteceu. Por mais ridículas, verdadeiras ou desastrosas que fossem as suas razões, poderia ao menos colocar as cartas na mesa e me dar uma chance de me retratar, se assim fosse preciso.

O pior de tudo é que algumas pessoas às vezes vêm me perguntar sobre ele e eu não tenho nenhuma resposta satisfatória a dar. Perguntam-me também porque Luana vive postando fotos e vídeos com suas amigas e Arquer está sempre sozinho. Eu não faço ideia.

Loneliness by Bert Kaufmann

Um dos poucos amigos que ainda possui algum tipo mínimo de contato com ele, disse-me que foi até a sua casa em seu último aniversário e ficou assustado por não encontrar ninguém. Não que isso seja uma novidade, mas ainda se espantam por vê-lo tão solitário.

Não posso provar, mas tenho quase certeza que Luana de alguma forma o convenceu que essa situação seria o melhor para ele. Se ele concorda ou não, não faz mais diferença. A vida é feita de escolhas e se alguém se sujeita a esse tipo de tratamento deve ter as suas próprias razões. O que me intriga é o fato de Luana continuar sua vida normalmente como se nada tivesse acontecido e seu companheiro ter escolhido um caminho vazio ao seu lado. Não é possível enxergar um ponto de equilíbrio nessa situação.

Por fim, parece-me um abuso psicológico que infelizmente ele não tem mais forças ou coragem para evitar. Talvez nem queira lutar contra isso ou tentar mudar essa situação. E nós, imbecis que foram deixados para trás, ainda nos preocupamos em saber se ele está realmente feliz.

É difícil entender os motivos que levam uma pessoa a aceitar esse tipo de comportamento, e ainda mais difícil fazê-la entender que essa não é de nenhuma forma uma relação saudável. Mas enquanto essa pessoa não conseguir enxergar o verdadeiro mal que isso vai lhe trazer, sempre estará recheada de culpa, medo e incapacidade diante da maioria das situações e provavelmente irá se diminuir e aceitar aquilo que seu companheiro estiver disposto a lhe dar.

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Obs.: Os personagens e eventos narrados neste texto são puramente ficcionais. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

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Já fui feliz um dia

Já fui feliz um dia. Antes de vir pra cá. Antes de ser uma atração de entretenimento para sua espécie repugnante e destruidora. Antes de ser capturado, escravizado e torturado. Antes de ser obrigado a trabalhar por anos a fio sem qualquer tipo de recompensa. Comendo mal, estressado, triste. Apanhando por não fazer aquilo que demorei diversas cicatrizes para aprender. Antes de ver meus pais e amigos serem assassinados, capturados e levados para um destino pior que o meu. Antes de me arrancarem de meu lar e prenderem-me em uma jaula mal adaptada por toda a eternidade, vendo outros animais tão desolados quanto eu sofrerem dia após dia sem esperanças. Antes de ser aterrorizado pelo medo da morte ao ouvir os gritos e uivos de dor dos meus compatriotas. Antes de entender que nunca mais teria controle sob minha própria vida, que seria sempre a marionete e objeto de exposição aos olhos dos demônios. Antes de descobrir que vocês existiam.

Quando nasci, eu e meus 7 irmãos da mesma ninhada não tínhamos ideia de como era o mundo. A vida era recheada de descobertas e aventuras. Brincávamos a todo momento, mamãe nos amamentava com carinho e os familiares mais velhos estavam sempre cuidando de nós.

Meu pai era imponente. Sempre atento e pronto a nos ensinar sobre nossa história e o nosso lugar dentro da cadeia alimentar. Um lutador nato. O chefe mais justo e primoroso que conheci. Rigoroso quando necessário, mas um completo brincalhão nas horas vagas. Demos boas risadas juntos. Todos os meus irmãos queriam ser como ele. Eu não. Apesar de admirar muito meu pai, dava-me melhor com minha mãe. Por sua postura e dedicação, sempre disposta a nos mostrar a importância que tínhamos junto à natureza e a nos acolher assim que qualquer problema acontecia. Fosse uma briga familiar, um machucado inesperado ou para nos defender diante de algum predador. Uma caçadora impiedosa. Lembro-me de uma ocasião na qual meu pai tinha saído para um reconhecimento de área e minha mãe sozinha espantou cinco hienas com apenas um rugido. Aterrorizante. Pura valentia. Meu pai com certeza era o macho alfa, mas quando minha mãe ficava nervosa nem ele se atrevia a discutir com ela. Um grande exemplo.

Image by Alberto Ziveri

Assim que fui crescendo, minhas garras aumentaram e meu rugido ficou aos poucos mais feroz. As explorações pela floresta eram maiores e mais inovadoras. Caçava pequenos animais, pois ainda não tinha experiência nem força para fazer como minha mãe e minhas tias que buscavam cervos, zebras e outros antílopes. Ao longo do tempo, minhas habilidades melhoravam. Agilidade. Espreita. Tempo de reação. A rivalidade com meus irmãos era muito saudável e sempre nos ajudávamos, mesmo com as diversas personalidades envolvidas em cada descoberta. Quando tínhamos alguma briga desnecessária, minha mãe nos falava da importância de nos mantermos unidos, para colocar as cartas na mesa e resolver de imediato a situação. Era difícil opor-se a ela. Primeiro, porque sempre tinha razão e, segundo, porque vê-la nervosa não era uma boa ideia.

Alguns parentes e outros animais já tinham me contado sobre os bípedes sanguinários, mas nunca tinha vivenciado a sua presença. Sabia o quanto eram cruéis e que deveríamos evitá-los a todo custo. Sabia que matavam por diversão. Para arrancar nossas peles, chifres, dentes. Na maioria das vezes nem se alimentavam de nossa carne, apenas largavam as carcaças ali, como lixo. Meus pais contavam que muitas espécies já não existiam mais por culpa deles e que logo, logo nós também seríamos uma delas.

O problema não era só a matança, eles também destruíam tudo que encontravam. Lagos, rios, florestas. Verdadeiros exterminadores. Aprendi a temê-los assim que comecei a entender as catástrofes que causavam, embora nunca tivesse tido a chance de encontra-los. Sua existência apenas pairava em minha imaginação.

A primeira vez que percebi sua presença foi quando resolvi disputar uma corrida com minha irmã mais velha. Acordamos que a chegada seria no conjunto de árvores em forma de “V” no topo do morro dos faisões. Em plena juventude, éramos rápidos como raios. Eu era mais veloz, mas ela entendia a topografia da montanha melhor que eu. Apesar de todo meu esforço, essa já era a sétima vez que perdia a corrida pra ela. Uma ótima competidora.

Image by Cristian Bortes

Assim que chegamos ao topo, vimos pela primeira vez a intervenção humana. Toda a floresta abaixo havia sido destruída. Queimada. As árvores colocadas abaixo. A fumaça ainda subia pelos focos de chama. O cheiro das cinzas era insuportável. Era uma área imensa. Tinha amigos e conhecidos que viviam por lá e provavelmente tiveram que deixar suas casas e procurar um novo lugar para viver. Foi uma visão horripilante. Senti muito medo. Finalmente entendi o poder que eles tinham e os motivos dos receios dos outros animais. Naquela época pensei que podiam ser deuses. Ledo engano.

Já nessa época, tínhamos que mudar constantemente nosso local de moradia. Tanto pela falta de caça quanto pelo desmatamento da floresta. Era cada vez mais comum vermos nuvens negras subirem pelas clareiras, pássaros voando em fuga e explosões. Por mais que nos movêssemos, não conseguíamos escapar da intervenção dos bípedes. Tínhamos paz algumas vezes, mas nossa alcateia sempre sofria baixas inesperadas. Tios desaparecidos, irmãos que não voltavam das caçadas, avós mortos ou capturados. Percebia a preocupação cada vez mais evidente de meus pais, porém, até aquele momento, ainda não tínhamos encontrado nenhum deles em nosso caminho. Não tínhamos mais para onde fugir. Apesar do medo e dos parentes desparecidos, esses dias ainda conseguiam ser especiais. Foram minhas ultimas lembranças de uma vida feliz.

A última vez que vi a floresta foi aterrorizante. Fomos acordados por um cheiro fortíssimo de mata queimada. A temperatura subiu de forma vertiginosa. Não era possível entender como tudo aconteceu tão rápido. Meu pai alertou a todos e nos reunimos para a fuga. Decidimos procurar um local no qual não havia chamas, mas em um raio de 240º atrás de nós só era possível enxergar desgraças. Meus pais e tios se dividiam buscando inutilmente algum local onde não seríamos queimados. No fim, com todos juntos, corremos ao único lugar que não havia fumaça, caos e chamas. Era uma armadilha. Os demônios nos esperavam lá. Um grupo deles. Carregavam materiais nas mãos e nas costas que jamais havia visto, mas que descobri naquele momento que eram instrumentos de morte. O primeiro a cair foi meu tio, irmão mais velho de meu pai. Não percebeu a chegada do inimigo e foi atingido diretamente na cabeça por um cabo enorme com foices nas pontas. Fiquei desesperado. Meu pai atacou seu algoz, diretamente na jugular. Aquele com certeza nunca mais foi mesmo. O ataque, porém, foi inútil. De longe, meu pai foi alvejado. Não entendia como, mas diversas marcas de sangue em suas costas surgiram. Ele rugiu de dor e caiu imóvel. Olhos abertos, expressão sem alma. Fiquei apavorado e com ódio. Minha mãe postava-se a nossa frente. Eu e meus irmãos tentávamos escapar de seus golpes. Alguns deles conseguiram fugir e sumir ao longe no horizonte. Foi a última vez que os vi. Não pude nem me despedir. Alguns dos bípedes apontavam suas armas na direção dos fugitivos, mas não os acertaram. Eu e meu irmão mais novo estávamos ao lado de nossa mãe, procurando uma forma de escapar. Via um a um de minha família, cair, morrer e agonizar no chão. Cercaram-nos. Eram oito deles. Havia sobrado apenas minha mãe, eu e meu irmão mais novo. O mais baixo dos demônios tentou acertá-la com um pau. Minha mãe, rápida como um raio, desviou do golpe e atacou. Uma patada direta na face. Vi o sangue jorrar. E então assisti à cena mais triste de toda a minha história. Dois estouros e minha mãe caiu. Sua barriga sangrava. Um bípede de olhos pequenos e pele amarela puxou uma faca da cintura e a enfiou no peito de minha mãe. Ela rugiu de dor. O sangue escorreu. Ela gritou para que fugíssemos sem olhar para trás. Fiquei imóvel. Vendo-a morrer, sofrer e chorar. O demônio arrancou seu coração na frente de todos. Após um rugido cheio de desespero, minha mãe não mais se moveu. Vi-a deitada, com os órgãos exposto e a expressão sem vida. Língua pra fora. Olhos abertos. Sangue. Lágrimas. Então, cercaram-me e senti uma picada no pescoço. Parecia um inseto gigante preso na garganta. Perdi os sentidos e deitei para esperar a morte. Nunca mais fui livre. Nunca mais vi ninguém de minha família. Nunca mais voltei pra casa.

Image by cdamundsen

Quando acordei, estava preso em uma gaiola minúscula, em um local escuro e sem ventilação. Assemelhava-se a um terremoto constante. Minha visão e meus sentidos estavam estranhos. Perdi horas e horas tentando entender o que estava acontecendo. Com sede e fome. Puro terror. Não conseguia parar de chorar. Conter meu desespero era impossível. O calor era imenso. Vomitei três vezes no processo. Depois de muito tempo, tudo ficou em silêncio. Escutava as vozes dos meus captores. Nunca senti tanto medo em minha vida. Abriram a porta e me olharam com desdém. Riram. Mostrei os dentes e garras. Não me libertaram. Levaram-me dentro da gaiola para uma jaula maior, ao lado de muitas outras. Vi diversos animais em outros compartimentos e diversas ferramentas que não sabia o que eram. Com uma vara por fora da gaiola, picaram-me novamente. O sono veio. Apaguei.

Assim que acordei pela segunda vez, percebi que estava fora da jaula, mas preso a uma corrente extremamente apertada que machucava meu pescoço. Permitia-me andar alguns metros em uma linha paralela. Olhei a minha volta e enxerguei outras jaulas separadas. Diversos animais em cada uma delas e uma expressão única de tristeza em cada olhar que defrontava. Percebi ali que nada mais seria fácil em minha vida.

Os dias passavam-se lentamente. O enclausuramento dava-me desespero. A corrente me sufocava. Uma vez ao dia deixavam algum tipo de carne podre ou mistura estranha para que me alimentasse. A água, sempre suja e morna. Não sei quanto tempo se passou, mas dei-me conta que sempre que algum bípede se aproximava, os animais ficavam tensos. Principalmente quando era aquele com a face cheia de pelos, alto, gordo e com um olhar malévolo no rosto. O pavor era intenso e sentia a energia de ódio e desespero assim que ele pisava o local. Toda vez que entrava em alguma jaula, os animais ficavam em silêncio. Fazia gestos e era obedecido a contragosto. Movia os braços e os animais pulavam. Movia os dedos e corriam em círculos, ficavam sob duas patas ou faziam outros truques. Era tenebroso, mas ao mesmo tempo curioso assistir. Quando algum animal o contrariava, era advertido com violência. Chutes, socos e principalmente paus e chicotes. Torturavam-no sem piedade. Pavoroso. Chamavam-no de “O Doutrinador”.

Image by Sean MacEntee

Na primeira vez que nos encontramos, eu estava preso. Podia me mover por apenas alguns metros. Vi-o de longe. Entrou na jaula lentamente e balbuciou sons que não podia entender. Gritou, gesticulou e me ameaçou. Mostrei meus dentes, garras e rugi. Sempre que tinha uma reação nervosa, apanhava. Ele era esperto o suficiente para não se aproximar a uma distância na qual pudesse alcança-lo.

Foram dias agonizantes. O estalo do chicote dava-me calafrio. E os espancamentos com paus e ferros faziam me ter dificuldade para saltar ou dormir. Com o tempo aprendi a mudar meu corpo de posição no momento do impacto, para que não atingisse uma área já machucada ou partes nas quais os danos físicos eram maiores. Ganhei muitas dores e cicatrizes até entender que não deveria feri-lo, mas sim respeitá-lo.

Aos poucos entendi que cada gesto tinha um significado. Mãos pra cima, mostravam-me que deveria subir em palanques, por exemplo. Um movimento continuo com os braços em direção a frente, indicava que deveria pular sobre arcos. Haviam muitos sinais e, à base de torturas, aprendi o que cada um deles queria dizer. Era basicamente um escravo e, quando mostrava-me mais dócil e disposto a cooperar, soltavam minhas correntes e me deixavam “livre”.

Circus Tent by Ryan McCullah

Quando comecei a entender de forma clara todos os sinais, obrigaram-me a fazer os movimentos na frente de outros demônios, em várias noites seguidas, por meses ou anos a fio. Eles gritavam a cada movimento. Eu ficava desesperado, mas sabia que se não obedecesse, depois seria castigado. Junto aos outros animais, rezava para que cada noite terminasse o mais rápido possível. Éramos completamente explorados. Tinha saudade de casa e principalmente de minha família. Perguntava-me se alguns de meus irmão haviam sobrevivido. E principalmente questionava-me porque deveria passar por tudo aquilo. Nunca havia feito nada de mal a nenhum deles. Mas eles me faziam sofrer todos os dias.

Não sei quantas horas, meses ou anos se passaram. Aprendi a viver em torpor. A ser uma marionete. A estar constantemente mudando de local, embora estivesse sempre preso. A comer e beber aquela comida horrível. A estar enclausurado. A esquecer os prazeres da vida. A apanhar o menos possível. A pensar menos e dormir mais para que o tempo passasse logo. Fiz amizade com espécies diferentes da minha. Por entre as grades. Naquele ambiente, não havia presa ou predador, apenas a solidariedade dos outros infelizes como eu. Quando algum deles estava velho demais ou ficava doente, era levado embora. Não sabíamos exatamente o que faziam com eles, mas era o único vislumbre que tínhamos de alguma chance de liberdade.

Certa noite, o galpão foi invadido por diversos bípedes e algo estranho aconteceu. Depois de uma dura e rápida batalha, os humanos que nos torturavam também foram acorrentados, um a um, e presos dentro de jaulas móveis. Nunca mais os vi. Fiquei novamente apavorado, como na época em que fui capturado. Imaginei que passaria por tudo aquilo outra vez. Os novos humanos, desconhecidos, entraram em cada jaula de nossa prisão, abateram (era o que eu pensava) os animais e também os levaram embora. Tentei fugir a todo custo, mas não havia falhas em minha gaiola. Tornei-me violento mais uma vez. Quando viram-me agitado, senti uma picada no torso. Meus movimentos ficaram lentos. Desmaiei.

Chester Zoo by Nigel Swales

Abri os olhos e estava em um local diferente. Tinham cuidado de meus ferimentos. Havia um pedaço de plástico preso à minha orelha esquerda. Estava sob um espaço aberto, com árvores, grama, terra, água e sol. Levantei-me, olhei para todos os lados e desatei a correr. Corri e corri até ficar exausto. Fui em cada canto daquele lugar. Cheirei e toquei cada planta e flor. Afiei minhas garras em todas as árvores que pude encontrar. Eram apenas três. Parei para observar o sol e o céu. Eram lindos. Porém, ainda haviam paredes que não me deixavam prosseguir. Estava preso, mas de uma forma menos desesperadora. Rolei na grama e chorei ao sentir a terra roçar meu corpo. Quanta saudade senti daquela sensação.

Ao longo do tempo, comecei a me entediar e sentir-me solitário novamente. Estava sozinho e minha única companhia eram os filhotes de bípedes e seus pais que apareciam todos os dias para me observar ao longe. Apontavam, faziam barulhos estranhos e se divertiam com minha presença. Fiquei com medo no início. Depois, intrigado. Então, perdi o interesse. Não havia nada de novo. Conhecia cada canto da prisão. Alimentavam-me uma vez ao dia. Durante as noites, tudo ficava em silêncio. De dia, tornava-me o entretenimento daqueles que me odiavam. Não tinha mais vontade de me movimentar ou correr. Tristemente, me conformei que esse seria o meu destino. E, desde então, apenas espero os dias passarem lentamente junto à minha eterna depressão.

Enfim, agora estou aqui, olhando diretamente nos seus olhos, tentando te mostrar a tristeza que é, e foi, minha vida. Por trás dessas grades, espero que você entenda o motivo de minhas angústias e o porquê tudo desde então tem sido apenas um borrão melancólico, tenebroso e solitário. Veja em meu olhos a infelicidade que assola o meu coração. Caso tenha a sensibilidade de perceber o mal que fizeram a mim e a meus semelhantes, mostre a verdade aos outros humanos, para que em algum momento deixem de nos perseguir, destruir e escravizar. Não acabem com nossas vidas. Ainda há tempo para que todos nós consigamos viver em harmonia. Os animais, a natureza e vocês, demônios.

Sonhos

Ela abriu a porta lentamente. O feixe de luz adentrou o quarto e iluminou a borda da cama. Podia ver a silhueta de seu corpo diante da entrada. Camisola. Cabelos soltos. Um brilho no olhar e um sorriso perverso. Meu coração saltava do peito. Nunca havia sentido isso. Paixão. Medo. Tesão.

Em passos lentos, se aproximou da cama. Apoiou o joelho esquerdo entre meus pés e jogou seu corpo sobre mim. O calor da pele me arrepiou. Podia sentir o perfume doce e delicado. O longo cabelo negro refletia a luz que vinha de fora. Aproximou vagarosamente seu rosto do meu. Senti sua respiração e supliquei por um beijo. Ela previa minhas intenções. Sussurrou ao meu ouvido e encostou suas mãos em minha cintura. Sorri. Primeiro beijou lentamente meu pescoço. Tirou com cuidado o cabelo que estava ao lado de meu rosto e lambeu minha orelha. Suspirei.

De repente, com um toque mais bruto, puxou meu cabelo com força e me beijou com violência. Com gosto. Com força. A língua delicadamente me inundava. O melhor beijo que já recebi. Rolamos na cama e continuamos a nos beijar por um longo tempo. Sentia calor. Euforia. Desejo. Lábios nos lábios. Língua na língua. Coração com coração.

Image by Santi Molina

Ela ficou novamente por cima. Seus olhos azuis cintilavam no escuro. Jamais haviam me olhado dessa forma. Sentia-me como um presente prestes a ser entregue a uma criança. Um a um, ela desabotoou a camisa do meu pijama. Suas mãos passeavam suavemente por meu corpo. Um carinho maldoso. Safado. Algumas vezes apertava-me com força. Outras, só deslizava as pontas dos dedos pelo contorno da minha pele. As unhas me arranhavam com leveza. Calor. Arrepio. Esses toques poderiam me excitar a noite toda.

Depois de soltar o último botão, puxou-me a sua frente e me beijou de novo enquanto arrancava minha blusa. Deitou-me. Beijou calmamente meu queixo. Depois meu pescoço. Lambeu meu colo. Estava em êxtase. Brincou com os dedos e apertou meu seio direito com força. Beliscou com cuidado a ponta do mamilo. Gemi. Gritei. Com o olhar, pedi mais. Ao mesmo tempo em que segurava o seio direito, beijava o esquerdo. Lambia, chupava. Sentia o hálito quente. A saliva escorreu por minhas costelas até o colchão. Que noite!

Image by Killy Ridols

Arrancou a camisola e postou seu corpo sobre o meu. Parecia fogo. Sentia seus seios sobre os meus. Os bicos estavam duros. A pele macia. Nunca havia sentido o calor do corpo dessa forma. Loucamente suave. Não cansava de me beijar. Sua coxa acariciava minha vagina. Para cima. Para baixo. Escorregava com paixão. Estava ofegante. A calcinha encharcada.

Sua língua decidiu passear pelo meu corpo. Dos lábios para o queixo. Do queixo para o pescoço. Desceu até os seios. Subiu para a bochecha. Atrás da orelhas. Nuca. Não conseguia segurar minha paixão. Gemia a cada beijo. Na barriga. Em volta do umbigo. Sua mão apertava minha buceta com suavidade. Com a ponta dos dedos. Meu clitóris pulsava. Com raiva, puxou minha calça e minha calcinha. Jogou tudo para fora da cama. Caíram ao lado das cobertas e travesseiros espalhados pelo chão.

Imagem por Kayla Kandzorra

Passou os dedos com vontade. No clitóris. Na entrada da vulva. Em volta dos lábios. Estava molhada. Perfeita. Enfiou o dedo médio. Urrei de prazer. Com movimentos leves, às vezes rápidos, penetrava-me. Para frente. Para trás. Maravilhoso. Acariciava a parte de trás do meu clitóris com a ponta do dedo. Ao mesmo tempo, lambeu minha vagina. Gemi loucamente. Beijou os lábios. Chupou o clitóris. Não podia me conter. Segurava o lençol com força. Um braço para cada lado. Crucificada de prazer. Contorcia-me. Movimentos circulares com a língua. O dedo por dentro. Tantas fontes de prazer faziam-me delirar.

Pouco a pouco, fui sentindo algo novo. Uma forma de gozar diferente. Ela era incansável. Quando tinha chance de vê-la, podia ver seus olhos me devorarem. Parecia adorar me ver em transe. De sentir meu gosto. Era único. Um calor intenso. Tremia. A vontade de explodir em excitação era cada vez maior. Nenhum homem jamais havia chegado a esse ponto. Mas minha companheira sabia exatamente o que fazer. Sabia exatamente onde queria chegar. Era lindo. Queria gozar maravilhosamente. Não sabia mais o que fazer. Estava a sua mercê. Língua, dedos, olhares. Não podia mais segurar. Queria gritar. Peguei o travesseiro e o coloquei na cara. Mordi a fronha com raiva. O gozo finalmente veio. Único. Mágico. Inesquecível. Ela tirou o rosto de dentro de minhas coxas. O liquido espirrou por todo o quarto. O travesseiro foi jogado aos céus. Tremia. Gemia. Sorria como uma criança. O dedo continuava a me estimular. Momentos inesquecíveis. Se havia algum sentido na vida, era para que algum dia os seres humanos chegassem àquela sensação. Podia gritar seu nome às estrelas.

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Aos poucos, foi diminuído o ritmo. Contorcia-me. Queria chorar de tanto tesão. Ela, enfim, tirou o dedo. Colocou-o calmamente em sua boca e o chupou. Depois, beijou minha barriga com carinho. Levantou-se. Acariciou meu joelho. Foi calmamente até a saída. Dessa vez, nua, olhou-me com desdém. Gesticulou-me um tchau e fechou a porta. Ainda ficaria ali, jogada por alguns minutos, a apreciar o que restou daquela magnífica sensação. O melhor orgasmo que já tive. Meu corpo relaxou. Suspirei. E tudo finalmente escureceu.

Abri os olhos. Sentia sede. Pisquei três vezes. Entretive-me com as luzes dos carros que brilhavam pelo teto. Ainda estava tentando entender o que havia acontecido. Ao me mexer, senti que minhas roupas estavam molhadas. Passei as mãos pela calça. O pijama e o edredom estavam encharcados. O colchão teria que ficar ao sol para secar. Realizei que havia sido tudo um sonho. Meu corpo paralisou. Estava em choque. Parei de respirar por alguns segundos. Meu coração disparou. Comecei a chorar. As lágrimas caíram e não havia ninguém na casa para me consolar. Estava em prantos. Soluçava. E o fato de não ter ninguém lá para desabafar tornava tudo mil vezes pior. Nenhum abraço. Nenhum carinho. Nenhuma alma para dividir tamanha tristeza.

Sentia nojo de mim mesma. Ânsia. Queria vomitar. Por que? Porque minhas fantasias traíram meus princípios. Porque meus desejos desprezaram minha razão. Era uma farsante. Inútil. Hipócrita.

chuveiro choro

Havia aprendido desde a infância que as relações homossexuais eram um erro inconcebível. Um ato desumano. Minha educação conservadora obrigou-me a aceitar que o pecado era severo entre aqueles que fornicavam com as pessoas do mesmo sexo. Desprezava gays, lésbicas e transexuais. Os comentários que ouvia em casa e nos círculos que frequentava reforçavam essa teoria. Fazia questão de espalhar tais ideias em todos os grupos que passava. Nas redes sociais. Na casa de amigos. Quanta hipocrisia. Minha mente tinha uma convicção, mas meus instintos mostraram-me que o ápice de minha sexualidade aconteceu ao lado de outra mulher.

Joguei-me ao chão. Engatinhei até o chuveiro. As lágrimas caíram pelo assoalho. Quanta vergonha. Que decepção. Estava inconsolável. Adentrei o box e abri o registro com uma das mãos. A água quente caiu sobre mim. O vapor começou a me envolver. Era impossível parar de chorar. Lembrava de meu passado. Pensava na minha família. Nos amigos. O que pensariam se soubessem da verdade? Meus pais ficariam extremamente desapontados.

A partir dali, dei-me conta que teria um bom tempo para refletir. Afinal, já era hora de aprender que cada um tem o direito de amar a quem quiser. Independentemente da raça, da cor, do sexo. E somente o nosso coração pode dizer o que é melhor para cada um de nós.