Enquanto Você Dormia

Enquanto Você Dormia é um projeto idealizado, escrito, gravado e produzido por Thiago Gacciona, em um apartamento de 35m², nos Campos Elísios, São Paulo, durante as madrugadas e tardes de domingo, nos períodos que sua esposa dormia no quarto ao lado.

A ideia tomou forma em 2017 quando resolveu juntar diversas músicas que tinha composto ao longo dos anos em um álbum. Metade do disco é atual, a outra metade foi escrita durante sua adolescência.

T.Gacciona é paulistano, começou a tocar violão e guitarra aos 14 anos e participou de diversas bandas ao longo do caminho, dentre elas o Plastic Zoo.

É possível ouvir o trabalho através das plataformas abaixo:

Por Favor Aguenta Só mais Um Segundo‘ é a segunda faixa do álbum de estreia da banda Enquanto Você Dormia.

Procrastinar é a terceira música de trabalho da banda Enquanto Você Dormia.

Eu Não Quero Mais é o 2º single do álbum de estreia do grupo.

É Tão Difícil Esquecer é o primeiro single do álbum homônimo da banda.

 

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Proletário

Horas seguidas olhando pra tela do computador. As costas doem. Um sedentarismo obrigatório. Por um trabalho sem fim. O escritório pulsa à escravidão. Dia após dia. E continuaremos assim por anos a fio. Insatisfeitos. Deprimidos. Até que todos envelheçam ou sejam substituídos por alguém que faça o mesmo trabalho, porém com maior rapidez ou afinco.
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Os jovens têm mais vontade. Mais atitude. Mais disposição para se sacrificarem em prol de uma mentira. A maioria deles ainda não percebeu que foi enganada desde que abriram os olhos na maternidade. Quando assistiram os filmes e programas na TV. Quando fizeram as provas e tarefas escolares. Quando foram obrigados a trabalhar para sustentar a vida que possuem. Infelizmente, não se deram conta que poderiam ter tudo o que quisessem. Uma pena que não vão lhes deixar viver. Não querem que os outros também tenham. Para manter a engrenagem girando, muitos ainda terão que sofrer.
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Declaro que nunca me farão acreditar na economia. Bolsa de valores? FMI? Índice Dow Jones? No cu! São todos uma farsa. Dinheiro é papel. Não é matéria prima para nada. Não constrói. Não mata fome. Não sacia a sede. Talvez esquente, se o queimarmos em uma bela fogueira. Aliás, nem papel é mais. Agora, é apenas um dígito na tela de um celular. É óbvio que já temos tecnologia para prover energia a todo o planeta da melhor forma possível. Sem explorar a natureza. Sem acabar com o mundo. Desperdiçamos comida suficiente para extinguir a fome da terra. Mas continuamos aqui batendo o ponto. Suicidando-nos pela ganância de outrem. Para colocar o pão na mesa. Para ver o riso na face de nossos filhos.
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Pessoa estressada, com a mão na cabeça em frente ao laptop
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Pense. Dez horas por dia. Durante 5 ou 6 dias por semana. Por 11 meses do ano. Por, no mínimo, 30 ou 40 anos da sua existência. Meu chapa, roubaram sua vida. Subjugaram sua felicidade. Aniquilaram seu precioso tempo. Privaram-te de inúmeras experiências. Imagine o que você poderia fazer durante esse período. Os lugares que poderia conhecer. As culturas que poderia apreciar. As novidades com as quais poderia se surpreender. O tanto de informação útil e inútil que poderia absorver. As pessoas com as quais poderia se relacionar. Você poderia fazer o que quisesse. A hora que quisesse. Quando quisesse. Para você. Para quem você gosta. Para os outros. Vislumbre o tempo que teríamos para ajudar a construir algo melhor. Seria infinito. Faríamos por amor. Por entusiasmo. Por tédio.
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E não venha me falar que “sempre foi assim”. Que “nunca vai mudar”. Que “é de nossa natureza”. E “não há nada a se fazer”. Se os extraterrestres estiverem nos observando, devem estar discutindo todo o nosso potencial e gargalhando sobre a idiotice maquiavélica, manipuladora e destrutiva que ocorre aqui há centenas de anos. Meu caro, quanto mais pessoas abrirem os olhos, mais perto estaremos de mudar essa realidade. E quem tem que fazer isso somos nós. Nós, que tivemos oportunidade. Que conseguimos de alguma forma nos educar perante esse sistema educacional ridículo. Que adquirimos consciência para pensar e perceber a imensa porcaria que paira ao nosso redor.
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Chega de deadlines. Estresses. Burn outs. Karoshis.  Queremos um mundo com menos depressão. Com menos consultas ao psicologo. Precisamos que os tratamentos psiquiátricos sejam cada vez menos utilizados. Que as drogas legais não sejam a nossa salvação mental. Que as drogas ilegais não sejam nossa válvula de escape dessa grande maldição chamada rotina. Exigimos que seja extinta essa insensata corrida dos ratos. Por favor! Devolvam nossa auto-estima. Nossa vontade. Nossa perseverança. Deem-nos liberdade para viver!
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Enfim, chega de proferir tanta bobagem! Já perdi muito tempo divagando enquanto olho para o teto. Tenho prazos a cumprir e preciso voltar ao trabalho.
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É… retornar das férias nunca será uma tarefa fácil!
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Imagem: Omer Unlu
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Garça

Eu olho para o céu e vejo um azul tão lindo quanto você! Sua pele, seu rosto, suas mãos. O contorno perfeito do shorts sobre suas pernas. Perderia horas e mais horas a te observar.

O riso inocente, o som do vento e uma brisa serena felicitam a nossa estadia. Uma garça solitária passeia pelo jardim. Observa com receio os estranhos que se aproximam. Esbelta. Firme. Bela. Voa solenemente assim que um casal cruza a passarela. Pousa no galho mais alto enquanto espera os intrusos se afastarem. Sua vida seria diferente se não estivéssemos aqui. Minha vida também seria. Talvez uma ínfima mudança apenas por ter passado algumas horas nesse lugar.

Os contornos orientais fazem-me imaginar como seria a vida dos primeiros descendentes que pisaram sobre essa terra. Também divago porque ninguém nessa cidade abriu uma escola de kung-fu estilo garça. Poderiam prosear que o nome da cidade era uma homenagem às habilidades do inesquecível sensei Fung Ja Mal Kin. Ele podia quebrar os galhos com apenas um sopro. E cortar as nuvens com um único petardo. É, às vezes, nossa imaginação nos leva longe demais.

Lago espelhado com pedalinhos em forma de cisnes na margem

Dou um gole na água e refresco meus pensamentos. Vejo o reflexo das árvores cintilarem no lago a minha frente. Impressiono-me por não encontrar uma nuvem no céu. Que beleza memorável. Uma pena a asma não querer me abandonar. Inspiro com dificuldade. Esforço-me para sentir os ar puro a minha volta. Infelizmente, as drogas não fazem o efeito necessário. Tudo bem! Nada disso poderá me atrapalhar. É apenas um lembrete pulmonar sussurrando que certas coisas em nossa vida nunca mudarão.

Crianças riem no pedalinho. Almas gêmeas se amam abaixo das cerejeiras. Um rastafári puxa fumo enquanto se funde à calmaria do ambiente. Afinal, todos podem ser felizes.

Vejo-te ao longe e lembro da sorte que  tenho por tê-la ao meu lado. Está agitada. Suplica por um sorvete. Faz de tudo para espantar os insetos que insistem em importuná-la. A cena me diverte, pois nunca vi ninguém ter medo de borboletas antes. Sorrio. Você vive em um mundo que não tenho capacidade de entrar. Ainda tenho muito a aprender.

Tiro a camisa, levanto e volto lentamente para o veiculo. Abro a porta. Respiro três vezes até me sentir satisfeito.  Com o dedo indicador, você desenha um coração sobre minha perna direita. O carro parte.

Foi um dia lindo. Tão lindo quanto você!

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Imagem: Black Throated Green Warbler