Já fui feliz um dia

Já fui feliz um dia. Antes de vir pra cá. Antes de ser uma atração de entretenimento para sua espécie repugnante e destruidora. Antes de ser capturado, escravizado e torturado. Antes de ser obrigado a trabalhar por anos a fio sem qualquer tipo de recompensa. Comendo mal, estressado, triste. Apanhando por não fazer aquilo que demorei diversas cicatrizes para aprender. Antes de ver meus pais e amigos serem assassinados, capturados e levados para um destino pior que o meu. Antes de me arrancarem de meu lar e prenderem-me em uma jaula mal adaptada por toda a eternidade, vendo outros animais tão desolados quanto eu sofrerem dia após dia sem esperanças. Antes de ser aterrorizado pelo medo da morte ao ouvir os gritos e uivos de dor dos meus compatriotas. Antes de entender que nunca mais teria controle sob minha própria vida, que seria sempre a marionete e objeto de exposição aos olhos dos demônios. Antes de descobrir que vocês existiam.

Quando nasci, eu e meus 7 irmãos da mesma ninhada não tínhamos ideia de como era o mundo. A vida era recheada de descobertas e aventuras. Brincávamos a todo momento, mamãe nos amamentava com carinho e os familiares mais velhos estavam sempre cuidando de nós.

Meu pai era imponente. Sempre atento e pronto a nos ensinar sobre nossa história e o nosso lugar dentro da cadeia alimentar. Um lutador nato. O chefe mais justo e primoroso que conheci. Rigoroso quando necessário, mas um completo brincalhão nas horas vagas. Demos boas risadas juntos. Todos os meus irmãos queriam ser como ele. Eu não. Apesar de admirar muito meu pai, dava-me melhor com minha mãe. Por sua postura e dedicação, sempre disposta a nos mostrar a importância que tínhamos junto à natureza e a nos acolher assim que qualquer problema acontecia. Fosse uma briga familiar, um machucado inesperado ou para nos defender diante de algum predador. Uma caçadora impiedosa. Lembro-me de uma ocasião na qual meu pai tinha saído para um reconhecimento de área e minha mãe sozinha espantou cinco hienas com apenas um rugido. Aterrorizante. Pura valentia. Meu pai com certeza era o macho alfa, mas quando minha mãe ficava nervosa nem ele se atrevia a discutir com ela. Um grande exemplo.

Image by Alberto Ziveri

Assim que fui crescendo, minhas garras aumentaram e meu rugido ficou aos poucos mais feroz. As explorações pela floresta eram maiores e mais inovadoras. Caçava pequenos animais, pois ainda não tinha experiência nem força para fazer como minha mãe e minhas tias que buscavam cervos, zebras e outros antílopes. Ao longo do tempo, minhas habilidades melhoravam. Agilidade. Espreita. Tempo de reação. A rivalidade com meus irmãos era muito saudável e sempre nos ajudávamos, mesmo com as diversas personalidades envolvidas em cada descoberta. Quando tínhamos alguma briga desnecessária, minha mãe nos falava da importância de nos mantermos unidos, para colocar as cartas na mesa e resolver de imediato a situação. Era difícil opor-se a ela. Primeiro, porque sempre tinha razão e, segundo, porque vê-la nervosa não era uma boa ideia.

Alguns parentes e outros animais já tinham me contado sobre os bípedes sanguinários, mas nunca tinha vivenciado a sua presença. Sabia o quanto eram cruéis e que deveríamos evitá-los a todo custo. Sabia que matavam por diversão. Para arrancar nossas peles, chifres, dentes. Na maioria das vezes nem se alimentavam de nossa carne, apenas largavam as carcaças ali, como lixo. Meus pais contavam que muitas espécies já não existiam mais por culpa deles e que logo, logo nós também seríamos uma delas.

O problema não era só a matança, eles também destruíam tudo que encontravam. Lagos, rios, florestas. Verdadeiros exterminadores. Aprendi a temê-los assim que comecei a entender as catástrofes que causavam, embora nunca tivesse tido a chance de encontra-los. Sua existência apenas pairava em minha imaginação.

A primeira vez que percebi sua presença foi quando resolvi disputar uma corrida com minha irmã mais velha. Acordamos que a chegada seria no conjunto de árvores em forma de “V” no topo do morro dos faisões. Em plena juventude, éramos rápidos como raios. Eu era mais veloz, mas ela entendia a topografia da montanha melhor que eu. Apesar de todo meu esforço, essa já era a sétima vez que perdia a corrida pra ela. Uma ótima competidora.

Image by Cristian Bortes

Assim que chegamos ao topo, vimos pela primeira vez a intervenção humana. Toda a floresta abaixo havia sido destruída. Queimada. As árvores colocadas abaixo. A fumaça ainda subia pelos focos de chama. O cheiro das cinzas era insuportável. Era uma área imensa. Tinha amigos e conhecidos que viviam por lá e provavelmente tiveram que deixar suas casas e procurar um novo lugar para viver. Foi uma visão horripilante. Senti muito medo. Finalmente entendi o poder que eles tinham e os motivos dos receios dos outros animais. Naquela época pensei que podiam ser deuses. Ledo engano.

Já nessa época, tínhamos que mudar constantemente nosso local de moradia. Tanto pela falta de caça quanto pelo desmatamento da floresta. Era cada vez mais comum vermos nuvens negras subirem pelas clareiras, pássaros voando em fuga e explosões. Por mais que nos movêssemos, não conseguíamos escapar da intervenção dos bípedes. Tínhamos paz algumas vezes, mas nossa alcateia sempre sofria baixas inesperadas. Tios desaparecidos, irmãos que não voltavam das caçadas, avós mortos ou capturados. Percebia a preocupação cada vez mais evidente de meus pais, porém, até aquele momento, ainda não tínhamos encontrado nenhum deles em nosso caminho. Não tínhamos mais para onde fugir. Apesar do medo e dos parentes desparecidos, esses dias ainda conseguiam ser especiais. Foram minhas ultimas lembranças de uma vida feliz.

A última vez que vi a floresta foi aterrorizante. Fomos acordados por um cheiro fortíssimo de mata queimada. A temperatura subiu de forma vertiginosa. Não era possível entender como tudo aconteceu tão rápido. Meu pai alertou a todos e nos reunimos para a fuga. Decidimos procurar um local no qual não havia chamas, mas em um raio de 240º atrás de nós só era possível enxergar desgraças. Meus pais e tios se dividiam buscando inutilmente algum local onde não seríamos queimados. No fim, com todos juntos, corremos ao único lugar que não havia fumaça, caos e chamas. Era uma armadilha. Os demônios nos esperavam lá. Um grupo deles. Carregavam materiais nas mãos e nas costas que jamais havia visto, mas que descobri naquele momento que eram instrumentos de morte. O primeiro a cair foi meu tio, irmão mais velho de meu pai. Não percebeu a chegada do inimigo e foi atingido diretamente na cabeça por um cabo enorme com foices nas pontas. Fiquei desesperado. Meu pai atacou seu algoz, diretamente na jugular. Aquele com certeza nunca mais foi mesmo. O ataque, porém, foi inútil. De longe, meu pai foi alvejado. Não entendia como, mas diversas marcas de sangue em suas costas surgiram. Ele rugiu de dor e caiu imóvel. Olhos abertos, expressão sem alma. Fiquei apavorado e com ódio. Minha mãe postava-se a nossa frente. Eu e meus irmãos tentávamos escapar de seus golpes. Alguns deles conseguiram fugir e sumir ao longe no horizonte. Foi a última vez que os vi. Não pude nem me despedir. Alguns dos bípedes apontavam suas armas na direção dos fugitivos, mas não os acertaram. Eu e meu irmão mais novo estávamos ao lado de nossa mãe, procurando uma forma de escapar. Via um a um de minha família, cair, morrer e agonizar no chão. Cercaram-nos. Eram oito deles. Havia sobrado apenas minha mãe, eu e meu irmão mais novo. O mais baixo dos demônios tentou acertá-la com um pau. Minha mãe, rápida como um raio, desviou do golpe e atacou. Uma patada direta na face. Vi o sangue jorrar. E então assisti à cena mais triste de toda a minha história. Dois estouros e minha mãe caiu. Sua barriga sangrava. Um bípede de olhos pequenos e pele amarela puxou uma faca da cintura e a enfiou no peito de minha mãe. Ela rugiu de dor. O sangue escorreu. Ela gritou para que fugíssemos sem olhar para trás. Fiquei imóvel. Vendo-a morrer, sofrer e chorar. O demônio arrancou seu coração na frente de todos. Após um rugido cheio de desespero, minha mãe não mais se moveu. Vi-a deitada, com os órgãos exposto e a expressão sem vida. Língua pra fora. Olhos abertos. Sangue. Lágrimas. Então, cercaram-me e senti uma picada no pescoço. Parecia um inseto gigante preso na garganta. Perdi os sentidos e deitei para esperar a morte. Nunca mais fui livre. Nunca mais vi ninguém de minha família. Nunca mais voltei pra casa.

Image by cdamundsen

Quando acordei, estava preso em uma gaiola minúscula, em um local escuro e sem ventilação. Assemelhava-se a um terremoto constante. Minha visão e meus sentidos estavam estranhos. Perdi horas e horas tentando entender o que estava acontecendo. Com sede e fome. Puro terror. Não conseguia parar de chorar. Conter meu desespero era impossível. O calor era imenso. Vomitei três vezes no processo. Depois de muito tempo, tudo ficou em silêncio. Escutava as vozes dos meus captores. Nunca senti tanto medo em minha vida. Abriram a porta e me olharam com desdém. Riram. Mostrei os dentes e garras. Não me libertaram. Levaram-me dentro da gaiola para uma jaula maior, ao lado de muitas outras. Vi diversos animais em outros compartimentos e diversas ferramentas que não sabia o que eram. Com uma vara por fora da gaiola, picaram-me novamente. O sono veio. Apaguei.

Assim que acordei pela segunda vez, percebi que estava fora da jaula, mas preso a uma corrente extremamente apertada que machucava meu pescoço. Permitia-me andar alguns metros em uma linha paralela. Olhei a minha volta e enxerguei outras jaulas separadas. Diversos animais em cada uma delas e uma expressão única de tristeza em cada olhar que defrontava. Percebi ali que nada mais seria fácil em minha vida.

Os dias passavam-se lentamente. O enclausuramento dava-me desespero. A corrente me sufocava. Uma vez ao dia deixavam algum tipo de carne podre ou mistura estranha para que me alimentasse. A água, sempre suja e morna. Não sei quanto tempo se passou, mas dei-me conta que sempre que algum bípede se aproximava, os animais ficavam tensos. Principalmente quando era aquele com a face cheia de pelos, alto, gordo e com um olhar malévolo no rosto. O pavor era intenso e sentia a energia de ódio e desespero assim que ele pisava o local. Toda vez que entrava em alguma jaula, os animais ficavam em silêncio. Fazia gestos e era obedecido a contragosto. Movia os braços e os animais pulavam. Movia os dedos e corriam em círculos, ficavam sob duas patas ou faziam outros truques. Era tenebroso, mas ao mesmo tempo curioso assistir. Quando algum animal o contrariava, era advertido com violência. Chutes, socos e principalmente paus e chicotes. Torturavam-no sem piedade. Pavoroso. Chamavam-no de “O Doutrinador”.

Image by Sean MacEntee

Na primeira vez que nos encontramos, eu estava preso. Podia me mover por apenas alguns metros. Vi-o de longe. Entrou na jaula lentamente e balbuciou sons que não podia entender. Gritou, gesticulou e me ameaçou. Mostrei meus dentes, garras e rugi. Sempre que tinha uma reação nervosa, apanhava. Ele era esperto o suficiente para não se aproximar a uma distância na qual pudesse alcança-lo.

Foram dias agonizantes. O estalo do chicote dava-me calafrio. E os espancamentos com paus e ferros faziam me ter dificuldade para saltar ou dormir. Com o tempo aprendi a mudar meu corpo de posição no momento do impacto, para que não atingisse uma área já machucada ou partes nas quais os danos físicos eram maiores. Ganhei muitas dores e cicatrizes até entender que não deveria feri-lo, mas sim respeitá-lo.

Aos poucos entendi que cada gesto tinha um significado. Mãos pra cima, mostravam-me que deveria subir em palanques, por exemplo. Um movimento continuo com os braços em direção a frente, indicava que deveria pular sobre arcos. Haviam muitos sinais e, à base de torturas, aprendi o que cada um deles queria dizer. Era basicamente um escravo e, quando mostrava-me mais dócil e disposto a cooperar, soltavam minhas correntes e me deixavam “livre”.

Circus Tent by Ryan McCullah

Quando comecei a entender de forma clara todos os sinais, obrigaram-me a fazer os movimentos na frente de outros demônios, em várias noites seguidas, por meses ou anos a fio. Eles gritavam a cada movimento. Eu ficava desesperado, mas sabia que se não obedecesse, depois seria castigado. Junto aos outros animais, rezava para que cada noite terminasse o mais rápido possível. Éramos completamente explorados. Tinha saudade de casa e principalmente de minha família. Perguntava-me se alguns de meus irmão haviam sobrevivido. E principalmente questionava-me porque deveria passar por tudo aquilo. Nunca havia feito nada de mal a nenhum deles. Mas eles me faziam sofrer todos os dias.

Não sei quantas horas, meses ou anos se passaram. Aprendi a viver em torpor. A ser uma marionete. A estar constantemente mudando de local, embora estivesse sempre preso. A comer e beber aquela comida horrível. A estar enclausurado. A esquecer os prazeres da vida. A apanhar o menos possível. A pensar menos e dormir mais para que o tempo passasse logo. Fiz amizade com espécies diferentes da minha. Por entre as grades. Naquele ambiente, não havia presa ou predador, apenas a solidariedade dos outros infelizes como eu. Quando algum deles estava velho demais ou ficava doente, era levado embora. Não sabíamos exatamente o que faziam com eles, mas era o único vislumbre que tínhamos de alguma chance de liberdade.

Certa noite, o galpão foi invadido por diversos bípedes e algo estranho aconteceu. Depois de uma dura e rápida batalha, os humanos que nos torturavam também foram acorrentados, um a um, e presos dentro de jaulas móveis. Nunca mais os vi. Fiquei novamente apavorado, como na época em que fui capturado. Imaginei que passaria por tudo aquilo outra vez. Os novos humanos, desconhecidos, entraram em cada jaula de nossa prisão, abateram (era o que eu pensava) os animais e também os levaram embora. Tentei fugir a todo custo, mas não havia falhas em minha gaiola. Tornei-me violento mais uma vez. Quando viram-me agitado, senti uma picada no torso. Meus movimentos ficaram lentos. Desmaiei.

Chester Zoo by Nigel Swales

Abri os olhos e estava em um local diferente. Tinham cuidado de meus ferimentos. Havia um pedaço de plástico preso à minha orelha esquerda. Estava sob um espaço aberto, com árvores, grama, terra, água e sol. Levantei-me, olhei para todos os lados e desatei a correr. Corri e corri até ficar exausto. Fui em cada canto daquele lugar. Cheirei e toquei cada planta e flor. Afiei minhas garras em todas as árvores que pude encontrar. Eram apenas três. Parei para observar o sol e o céu. Eram lindos. Porém, ainda haviam paredes que não me deixavam prosseguir. Estava preso, mas de uma forma menos desesperadora. Rolei na grama e chorei ao sentir a terra roçar meu corpo. Quanta saudade senti daquela sensação.

Ao longo do tempo, comecei a me entediar e sentir-me solitário novamente. Estava sozinho e minha única companhia eram os filhotes de bípedes e seus pais que apareciam todos os dias para me observar ao longe. Apontavam, faziam barulhos estranhos e se divertiam com minha presença. Fiquei com medo no início. Depois, intrigado. Então, perdi o interesse. Não havia nada de novo. Conhecia cada canto da prisão. Alimentavam-me uma vez ao dia. Durante as noites, tudo ficava em silêncio. De dia, tornava-me o entretenimento daqueles que me odiavam. Não tinha mais vontade de me movimentar ou correr. Tristemente, me conformei que esse seria o meu destino. E, desde então, apenas espero os dias passarem lentamente junto à minha eterna depressão.

Enfim, agora estou aqui, olhando diretamente nos seus olhos, tentando te mostrar a tristeza que é, e foi, minha vida. Por trás dessas grades, espero que você entenda o motivo de minhas angústias e o porquê tudo desde então tem sido apenas um borrão melancólico, tenebroso e solitário. Veja em meu olhos a infelicidade que assola o meu coração. Caso tenha a sensibilidade de perceber o mal que fizeram a mim e a meus semelhantes, mostre a verdade aos outros humanos, para que em algum momento deixem de nos perseguir, destruir e escravizar. Não acabem com nossas vidas. Ainda há tempo para que todos nós consigamos viver em harmonia. Os animais, a natureza e vocês, demônios.

Não fica velho, não…

Não é nem um pouco nobre ansiar pela morte
Mas só é possível viver de verdade
Quando não se tem uma vida de merda

Fraqueza
Buracos de agulha por todos os lados
Um vulto negro em cada foco

Não ando
Não corro
Não vejo

Mal consigo cagar  sem sujar o caminho com merda
Não tenho forças nem para calçar os chinelos
Suplico aos céus por uma redenção

Gostaria de dormir tranquilo para nunca mais acordar
Mas não sou eu quem decide
Uma pena

O cano que sai de minha bexiga
A bengala ao lado da cama
A expressão de tristeza nos olhos de quem não enxergo

Que estado deplorável fui me encontrar

A família finge se importar com minha desgraça
Minha esposa já faleceu
Somente a medicação pode me confortar

Eu
Que já fui tão forte
Hoje, dependo dos outros para viver

Você não sabe o quanto isso me machuca
Me desculpe

Se pudesse te dar um conselho
Seria
Não fica velho, não, Thiago

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Imagem: ZaldyImg