Ausência

Sem mais despedidas
Atrasos inconvenientes
Noites mal dormidas
Exageros imperturbáveis
Tristezas inconsoláveis
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Sem mais chances inúteis para tentar

Para voltar atrás
Para insistir
Para lembrar
Para continuar vivendo às margens de um rio de lágrimas

Promessas não compridas
Mentiras verdadeiras
Verdades mal contadas
Sorrisos interpretados
Amores falsos criados pelo conformismo

Sacrifícios irrelevantes
Sentimentos inventados
Angústias omitidas
Exaustos pela mesma companhia
Uma incrível solidão a dois

Levanto-me com cuidado
Faço as malas
Dou-lhe um último beijo
Carinhosamente
Enquanto você ainda dorme

Atravesso a porta
Fecho os olhos
E digo adeus

Voltaremos a nos ver algum dia?
Regularmente nunca mais

O último adeus

Sentado com o pequeno pinscher em seu colo, tentava se recuperar da incrível maratona de exageros e boemia que sua vida se tornava. Algumas vezes se perguntava em que momento tudo havia mudado tanto e em que parte de sua rotina havia deixado sua inocência para trás. Tinha certeza que era tudo um ciclo que não podia mais ser evitado e que precisava ser extremamente controlado para que todos os seus objetivos não se tornassem um fracasso eminente dali para frente. A cada dia se dava conta que tinha menos tempo a perder.
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Quando se levantou, ajeitou seu rebelde cabelo de fios loiros e vestiu a camiseta de sua banda favorita. Os jeans já estavam a postos e a chave do carro apenas aguardando ao lado do abajur. Deu a partida e seguiu sem rumo. Os olhos claros refletiam sua sensível instabilidade diante do retrovisor. Não havia um veículo na estrada e nenhuma alma viva pelos arredores.
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Image by NASA Goddard Space Flight Center
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Após vários quilômetros percorridos através do breu, percebeu um brilho intenso a sua frente e que se posicionava bem no meio da pista. Foi diminuindo a velocidade ao mesmo tempo que abaixava o volume do rádio. Aproximou- se da luz e estacionou. Não era possível perceber o que estava acontecendo. O brilho exagerado formava uma esfera gigantesca de luz que, por dentro, guardava a silhueta de uma pessoa. Estava incerto se deveria descer e se aproximar. Sentia um calafrio intenso. O pressentimento que algo terrível aconteceria era enorme, mas a curiosidade tomava conta de seus pensamentos. Depois de muito analisar, uma voz suave e muito convidativa ecoou em seus pensamentos:
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“Aproxime-se. Não seja covarde! O presente mais importante de toda a sua vida está à sua espera. É necessário que dê apenas um passo em direção à luz. Vamos, algo extremamente especial está prestes a acontecer. Os prazeres mais intensos finalmente chegarão até você. Entre… Não tenha medo… Seja muito bem vindo…”
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Image by Nana B Agyei
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O medo lhe dominava por completo, mas mesmo assim decidiu avançar. Desceu do carro e lentamente chegou cada vez mais perto. A luz era fortíssima e, caso demorasse um pouco mais, percebeu que logo ficaria cego. Deu um longo suspiro e finalmente entrou. O primeiro passo dentro da incrível luz mudou todos os seus conceitos sobre o mundo que, até aquele momento, conhecia.
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Estava em um quarto imenso que possuía apenas dois móveis: uma cama de casal gigantesca igual a de reis e rainhas dos séculos passados e um piano de calda preto à sua direita. A gravidade parecia ser diferente, seus passos muito mais leves e as luzes incrivelmente vivas e fortes. Uma varanda se posicionava em frente à cama e deixava a mostra um incrível mar rosado com a praia mais bela que já pudera ver. O som das ondas parecia uma canção e pelo céu completamente azul, choviam estrelas cadentes.
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Image by Pink Sherbet Photography
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Quando parou de apreciar o ambiente, percebeu que uma linda mulher o esperava deitada sobre a cama. Era linda. Possivelmente a mulher mais linda que já havia visto. Olhos azuis, cabelos pretos e lisos até as costas. Pele morena e leve como a seda, lábios suaves e uma voz melodiosa que poderia acalmar o mais raivoso animal. Ela o media de cima abaixo enquanto ele se perdia na hipnose que sua anfitriã o havia colocado. Havia se apaixonado intensamente em uma fração de segundos e pela primeira vez conseguiu acreditar que existia amor a primeira vista. Ela estava nua e o chamou para que se deitasse na cama. O medo não existia mais e ele apenas se aproximou e deitou-se ao seu lado. Ela o abraçou intensamente e sussurrou ao seu ouvido.
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– Saiba que a partir de agora não existe mais volta. Mas não se preocupe, pois todos os seus esforços serão recompensados essa noite. Não tenha medo, porque eu realmente te amo!
Image by Kristaps Bergfelds Seguir
Ele não podia responder. Apenas ouvia e amava intensamente. Ela começou a despi-lo e lhe deu o beijo mais gracioso que já havia recebido. Fizeram amor como em um conto de fadas. A cada beijo, gesto, carinho e abraço sentia- se cada vez mais completo. Jamais havia sido contemplado com algo tão intenso e pela primeira vez o verdadeiro amor inundava seu coração de felicidade. Estava em êxtase e, por pelo menos uma única vez, apreciou um verdadeiro prazer pela vida. Finalmente tudo valia a pena.
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Ao amanhecer, abriu os olhos e se viu imóvel com os braços e pernas amarrados em cima de uma cruz. Sua linda amada estava sentada ao piano e percebeu que ele havia acordado. Deu-lhe o sorriso mais lindo que uma garota poderia ter e começou a tocar enquanto lagrimas escorriam por seus olhos. Três garotas invadiram o quarto pela varanda. Caíram do céu e se aproximaram da cama. Eram belíssimas, mas, agora, todas eram ruivas e de olhos verdes. Pareciam gêmeas. Nuas e com estacas e martelos nas mãos foram em direção as pontas da cruz. O pavor tomou conta de seu interior e percebeu que por mais que se esforçasse, era impossível mover-se ou gritar. Estava paralisado. As estacas foram colocadas em suas mãos e pés. Ouviu um som ensurdecedor e a dor dominou todos os seus sentidos. A única coisa que podia fazer além de sofrer, era chorar. Após cinco marteladas, foi içado ao ar por uma força invisível. Crucificado, o colocaram na imensa parede em frente à cama. O sangue escorria por seus membros. As garotas saíram pela mesma varanda pela qual haviam chegado. O piano cessou e sua inesquecível anfitriã se aproximou. Deu-lhe um último beijo e desapareceu, deixando-o solitário em um mundo incrível que não conhecia.
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O sangue e a dor continuaram por mais alguns dias em seu eterno sofrimento. A dor pelo abandono era ainda maior que os ferimentos mortais ao qual estava exposto. Pôde refletir por muito tempo e chorar por mais um amor perdido. No quinto dia, seu coração, finalmente, parou de bater. Ele não teve chance de nem mesmo dizer-lhe um último adeus.

Uma forma triste para dizer adeus

É verdade que fiquei um pouco ausente nos últimos dias, meses e anos. Não porque era essa a minha intenção, mas, porque, apesar de nunca fazer nada, acabo sempre fazendo tudo ao mesmo tempo.
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Deitado na cama, conseguia avistar um pássaro negro, com algumas penas reluzentes e pardas, isolado no parapeito de minha janela. Sozinho, contemplava sua imensa solidão, imóvel, talvez refletindo sobre o que havia feito de realmente importante em sua vida, enquanto recordava os sentimentos que não mais o aqueciam e que agora apenas lhe deixavam um vazio obscuro em seu coração. Talvez. Mas nunca saberemos o que um animal livre e solitário como esse poderia realmente sentir.

Image by benjgibbs

Mesmo perdendo alguns minutos a observar, cheguei a conclusão que me senti um pouco mais alegre e com inveja de sua imponência. A sensibilidade em meus ouvidos estava cada vez maior e já podia ouvir os risos das crianças que brincavam na esquina. Os risos se aproximavam e o pequeno pássaro, atento, observava o mundo enquanto, em pequenos lampejos, enfiava graciosamente o bico entre as asas para quebrar o tédio. Os risos continuavam e estavam cada vez mais perto. Cessaram exatamente embaixo de minha janela. Peguei o violão e dedilhei algumas notas. O pássaro de penas negras finalmente quebrou sua postura e virou-se em minha direção. Olhou-me e grunhiu de uma forma tão sincera que pude sentir que estava dizia adeus. Mas por que comigo? Por que naquele momento e daquela forma?

Ouvi apenas um tiro. O violão caiu de minhas mãos e o pássaro havia sido perfurado por uma minúscula bala de chumbo em seu pescoço. Sua cabeça titubeou com o impacto e ficou dependurada. Os olhos ainda abertos, mas já imóveis, não demonstravam mais nenhum sinal de vida. O pequeno animal não era mais completamente negro e suas penas pardas, agora, estavam manchadas pelo seu próprio sangue e pela crueldade de uma criança que apenas queria se divertir. Ele girou e caiu para o chão como uma estrela cadente em seus últimos segundos de brilho e aterrissou no solo no mesmo instante em que o violão se debateu contra o assoalho. Já não estava mais entre nós.

Image by Andrew Dobos

Corri para a janela com uma raiva que jamais havia sentido. Tinha perdido algo dentro de mim, mas ainda não sabia o que era e que ainda, apesar dos anos, não descobri o que foi. Um grupo de cinco garotos que riam e se exaltavam com o feito. No meio deles, um garoto loiro, bem vestido e com uma arma na mão. Era o líder e o autor do crime. Olhei diretamente em seus olhos azuis e consegui sentir a maldade em suas intenções. Possuía um sorriso malicioso e perverso. Senti um calafrio me percorrer a espinha. Estava com vergonha da espécie humana e por pertencer a mesma raça daquele franzino menino. Há quem diga que possamos ver Deus no resto de uma inocente criança, mas não estava preparado para encarar um pequeno demônio de frente. Ele se virou e andou lentamente até dobrar a esquina. Seus capachos se apressaram e o seguiram sem pestanejar.

Foi a última vez que os vi na rua, mas ainda posso ouvir claramente os risos ecoando.