Transparecer

Acordava todas as manhãs com incrível dúvida. As respostas nunca vieram e a inquietação tornava-se inevitável. Possuía muitos atributos, mas não era a tarefa mais fácil se abrir com qualquer pessoa que valia a pena e deixar transparecer seus verdadeiros talentos. Talvez fosse esse o pequeno erro de sua conduta que lhe privava de belas felicidades.
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Ironicamente ele ainda se considerava um escritor. Um romance mal sucedido e alguns textos e contos publicados não lhe traziam satisfação alguma. Experiências anteriores fizeram-lhe acreditar que os escritores deviam manter-se completamente calados, pois só conseguem expressar realmente o que pensam e desejam quando estão com a caneta nas mãos. São cheios de complexos, medos e revoltas, mas sempre encontram chance para mostrarem como são imbecis nos momentos menos oportunos, deixando todos os envolvidos com a única impressão a seu respeito que não é verdadeira. Essa, provavelmente, seja a melhor explicação para entender porque a grande maioria deles ainda seja pobre, alcoólatra ou viciada.
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Image by Behzad No

Nos momentos difíceis, lutava contra seus próprios princípios. Atualmente passou a se perguntar se o amor era uma felicidade dos idiotas ou se somente os idiotas perdiam seu precioso tempo amando. Quanto mais dias, meses e anos passavam, percebia que era cada vez mais difícil se apaixonar. Para sua sorte, uma amiga mostrou-lhe que, apesar de tudo, ele não era o único que vivia tal situação. O ano não havia sido dos mais felizes, é verdade, mas isso não justificava a grande série de fracassos. Na verdade, se parasse um pouco para pensar, não havia existido absolutamente quase nenhum fracasso, porém seu ego era grande demais para que ele entendesse isso facilmente. A insegurança continuava sendo a porta de entrada para que as coisas não dessem certo. Seria ótimo se fosse capaz de agir da maneira como pensa, mas infelizmente ainda não podemos escolher a cruz que iremos carregar.

The Rolling Stones passaram a ser, mais uma vez, grande fonte de distração enquanto as doenças não resolvessem ir embora. Worried About You foi uma daquelas faixas perdidas que mostraram que, mesmo nos anos 1980, Mick Jagger e Keith Richards podiam ser ainda muito bons. Uma bela canção.

Graças aos céus um feriado estava por vir e mais uma chance de vitória chegaria. As nuvens negras resolveram se dissipar e os primeiros raios de sol começaram a brilhar sobre sua janela. Ouvir os pássaros cantarem ajudava a alegrar seu interior. Ainda não era hora de levar a vida tão a sério. Haveria muito tempo de sobra para esquecer as mágoas, voltar a concluir suas metas e lutar para tentar realizar seus sonhos.

Feriado prolongado

O cigarro passava de mão em mão enquanto percorríamos a estrada. A cerveja no porta copos a minha direita era uma ótima saída para acompanhar a conversa. Como sempre, estava no banco do passageiro fazendo a seleção musical e organizando alguns pensamentos. Plastic Zoo, mais uma vez, assim como eu, continuava em seu lugar habitual: no rádio a um volume considerável e empolgante. Havíamos comprado mantimentos, planejado os eventos posteriores e ansiávamos por um feriado promissor.
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Já estávamos quase a uma hora na estrada quando problemas não esperados passaram a acontecer. O carro apresentou falhas e ameaçava desligar a qualquer momento. Olhamos o painel e percebendo o quanto tínhamos sido estúpidos, pois não paramos para abastecer. Não colocar combustível foi apenas uma das inúmeras idiotices as quais nos sujeitamos. Também nos demos conta de que o ar condicionado estava acionando durante todo o trajeto, consequentemente, gastando o combustível, que não tínhamos, ainda mais rápido.
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Image by Kuster & Wildhaber Photography
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Não preciso me aprofundar na forma como ficamos apreensivos. Love Don’t Love Nobody fazia a trilha sonora do desespero ao mesmo tempo em que pedíamos aos céus para que um posto de gasolina surgisse a qualquer momento. Obviamente, em um certo ponto, o automóvel falharia para não mais funcionar e, claro, isso aconteceu.
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Estávamos na segunda faixa da esquerda e atravessamos até o acostamento, passando por duas faixas relativamente movimentadas e com o motor completamente desligado. Uma boa manobra de nosso motorista. Tivemos um pouco de sorte e conseguimos estacionar exatamente no ponto no qual havia um telefone de socorro. Ligamos o pisca-alerta e fui incumbido de  pedir ajuda. Quando me postei em frente ao telefone, enxerguei apenas uma grade amarela. Não havia números, gancho e nada que fosse semelhante a um aparelho de telefone normal. Simplesmente não sabia o que fazer e acabei desistindo. Pensando melhor, era possível perceber que minha sanidade não andava 100% aquela altura. Mais uma burrice para completar a noite. Olhei as estrelas e conclui que, realmente, o amor não amava ninguém.
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image by Andrew Hill
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Coloquei os pensamentos em ordem e decidi usar o cérebro para algo útil. Telefonei para o 102 e consegui o número da administradora da estrada daquela região. Expliquei-lhes a situação e consegui que mandassem uma rota para averiguar o que havia acontecido. Quando fui avisar que algo bom tinha, finalmente, ocorrido, vi meu companheiro conversando com a grade amarela. Ele, ao contrário de mim, conseguiu usar o telefone de alguma forma que eu não podia entender. Assim que terminou, supliquei para que me mostrasse como utilizá-lo e ele me indicou um gigante botão vermelho que ficava logo abaixo da grade. Ainda não sei como não consegui vê-lo. Já tinha ouvido dizer que o álcool podia nos deixar cego, mas pensava que era a longo prazo. Enfim, existia, agora, dois pedidos de socorro para o mesmo local.
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Aguardamos cerca de dez minutos até que a ajuda chegasse.  Um socorro bastante eficiente, pois pensava que ficaríamos esperando por algumas horas. A rota levou meu amigo até o posto mais próximo para que nosso pequeno problema fosse solucionado. Tive que aguardar ao lado do veículo até que retornassem.  Depois de mais alguns minutos um caminhão guincho se aproximou e parou em frente ao carro. “Meu Deus! E agora?” Não podíamos levar o carro, porque logo, logo retornariam com o combustível e estaríamos prontos para partir. Expliquei isso ao funcionário, mas ele já sabia do problema. Disse apenas que não poderia me deixar esperando sozinho já que estávamos em uma área de risco. Pelo rádio, avisou a rota que nos encontraríamos todos no próximo posto. Colocar o carro no caminhão foi mais um dos doze trabalhos de Hércules. Eram muitos botões e mecanismos para uma pessoa no estado que me encontrava, porém, com um pouco de concentração, tudo correu razoavelmente bem.
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Image by Giorgio Galeotti
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O posto de gasolina mais próximo encontrava-se, para nossa sorte, ou azar, a apenas três ou quatro curvas adiante. A rota estava lá e o caminhão guincho se aproximou. Descemos o automóvel e colocamos a sagrada gasolina. O carro voltou a funcionar e decidimos partir. Não tivemos que desembolsar um centavo sequer. O pedágio custara apenas R$ 2,40. Um serviço de qualidade! Agradecemos e recomeçamos a viagem pensado que tudo seria diferente dali para a frente.
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A neblina estava um pouco acentuada durante a serra, mas tudo parecia andar bem. Parecia. De repente, freadas bruscas, carros fugindo pela contra mão e um risco eminente de engavetamento. O exímio motorista jogou o carro para esquerda e desviou-nos do perigo. Foi um susto inesperado, que voltou a nos atormentar mais duas vezes, e da mesma forma, durante o caminho. Ainda tenho minhas duvidas sobre o que realmente aconteceu, mas quero acreditar que o condutor não foi negligente em nenhuma delas. De qualquer forma, não estava nas condições ideais para analisar a situação com a profundidade necessária.
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Imagem de Andreia
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Após alguns contratempos, conseguimos chegar, inteiros, até o litoral. Estávamos agradecidos por ter superado todos os obstáculos. O sacrifício havia valido a pena e agora tínhamos quatro dias livres pela frente. Sossego, festas e diversão.  Mais um cigarro foi aceso antes de fugirmos para o descanso final.
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No dia seguinte, assim que levantei, lembrei-me da noite anterior e fui até a varanda para analisar o clima. Estava otimista, mas obtive uma imensa decepção. O céu estava nublado, o tempo chuvoso e a temperatura abaixo dos dezessete graus. Não era nada do que estávamos esperando. Não mesmo. E assim continuou até o fim do feriado.

Noites de verão

Dor de cabeça, sede e vestígios de uma noite cheia de excessos. Não havia segredo algum pelo fato de estar me sentindo um lixo: a caipirinha custava apenas cinco reais! O enjoo durou metade do dia e apenas uma porção extremamente gordurosa de camarão fez com que me sentisse melhor no final da tarde.
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Não tinha levado calças nem mesmo tênis para a viagem. Entrei no bar de havaianas e bermuda. A camiseta pólo melhorava um pouco meu estigma. O local estava completamente cheio e já me lembrava vagamente de pelo menos metade das pessoas que estavam ali na noite anterior. Talvez aquele fosse o lugar mais apropriado da cidade para se divertir naquele momento.
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Image by davidd
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Primeiramente fui até o bar, claro. Não tenho certeza de quantos copos tomei exatamente, mas me recordo de já estar em um nível bastante agradável. Estar solteiro pode, algumas vezes, lhe trazer liberdades exageradas.  Voltei a conversar com uma garota que havia conhecido na noite anterior. Com uma insistência mínima, ganhei um beijo. Despedi-me com um sorriso e fui até o bar mais uma vez.
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Aquela altura a sobriedade já havia me abandonado por completo. Estávamos em um grupo de três conversando em uma roda agradável quando uma garota passou ao lado e esbarrou em mim. Voltei-me para ela e, certamente, dei alguma cantada idiota que normalmente nunca daria certo. Ela me ignorou e continuou andando, pelo menos foi o que eu havia pensado. Virei-me novamente para a roda. Assim que me dei conta, percebi que ela estava parada ao meu lado. A introduzi na roda e voltamos a conversar. Gostaria muito de oferecer uma descrição razoável de como ela era, mas infelizmente, por mais que me esforce, não consigo resgatar nenhuma imagem válida.
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Image by paisley's such a nice girl
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Não sei sobre o que conversávamos, porém acredito que estava tentando conquistá-la com alguma história de bêbado pouco convincente.  Meus amigos não tinham abeto a boca para dizer uma única palavra até que um deles puxou o celular do bolso e escreveu no espaço de mensagens:
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“Escolha um de nós três e dê um beijo nele.”
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Não entendi muito bem o que havia acontecido, mas ela se aproximou e lhe deu um beijo sem que ele lhe dissesse uma única frase de consolação. Não sei o que passou por meus pensamentos, mas pedi que ela também me agraciasse com tal gesto. No começo ela hesitou, mas simplesmente também me beijou. A lei do mínimo esforço voltava a imperar. Aproveitei a deixa e pedi que ela beijasse o amigo que restava . Ela, claro, o fez. Fico imaginando o que meus avós diriam se tivessem a chance de observar uma cena inusitada como esta.  Meus netos possivelmente irão aproveitar a vida de uma forma incrível.
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Image by www.david baxendale.com
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Assim que paguei a conta, meu amigo – aquele que conquista mulheres sem dirigir-lhes a palavra – disse-me para sairmos sem pagar. Apenas me convenceu a voltar até o caixa e dizer que eu não havia recebido o comprovante. Um plano alcoólatra nunca havia dado tão certo. Apesar do estado em que me encontrava, acho que fui convincente, pois não deve ser nada fácil acreditar nas palavras de um bêbado. Esperei um pouco ao lado direito do caixa conversando, quando a funcionária se aproximou com o segurança e pediu-lhe que me escoltasse até a saída. Meu amigo percebeu o que estava acontecendo e se aproximou. Tirei cuidadosamente o comprovante do bolso e lhe passei com a mão direita sem que ninguém percebesse. Sai e esperei que me encontrassem la fora.
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Estávamos apenas esperando o último companheiro, quando resolvi me aventurar em mais uma empreitada. Era uma morena linda, cabelos lisos até as costas, olhos negros. Estava sozinha apoiada no muro ao lado da saída. Dela, conseguia me lembrar perfeitamente. Aproximei-me e começamos a conversar até que um amigo seu postou-se ao nosso lado e me fez um gesto para que eu fosse embora.  Não sei o que pensei exatamente, mas respondi de forma pouco amistosa:
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– Por que você está sendo um puta de um babaca?
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Image by mark sebastian
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Não preciso dizer que ele não gostou nem um pouco da forma como me dirigi à sua pessoa. Voltei a conversar com a garota quando ele se aproximou e me empurrou. Ainda estava com as mãos no bolso. Se ele tivesse me acertado um soca na face, não teria sequer percebido. Assim que ele começou a armar a briga, a mesma terminou em menos de trinta segundos. Meus amigos e a turma do “deixa disso” apartaram toda a movimentação. Não houve um soco nem mesmo um copo quebrado, apenas uma ofensa um tanto incomum.
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Todos reunidos, voltamos para casa tranquilos e realmente felizes pelo amanhecer. A noite havia sido muito bem aproveitada e ainda tínhamos pela frente mais dois dias livres no feriado.
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