Everyone is a Winner

Eu não sei o que estou fazendo aqui. Sem motivo. Sem vontade. Resolvi andar a esmo e agora estou perdido. Coloquei a coleira no cachorro, desci as escadas, ouvi um baque e tudo se apagou. Minha cabeça dói. Sinto o sangue escorrer por todo o lado esquerdo do meu crânio. Por dentro da orelha. Até o pescoço. A cicatriz lateja.
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Meus braços estão presos atrás da cadeira. Que por sinal é extremamente desconfortável. Que merda de licitação foi essa? Com certeza alguém tirou uma bela grana por fora para convencer a diretoria que essa seria a melhor opção de compra. O número de licenças por problemas na coluna deve ser enorme. Minhas pernas estão presas com silvertape.
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Vejo uma esbelta mulher sentada à minha frente. Fora ela, o galpão está vazio. Percebo apenas velhos cartazes dando as indicações de um trabalho que foi abandonado há muito tempo. Existe sujeira, um imenso vazio a minha volta e um cheiro pútrido no ar.
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A luz acesa no fundo da sala não para de piscar. Repetidamente. Sem ritmo. Deve ser um simples defeito de fabricação da lâmpada ou da fiação elétrica. Parece uma balada de quinta categoria. O constate ascender e apagar das luzes torna a face dessa desconhecida um pouco mais sombria.
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Taça de vinho vazia
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“Por que não fala comigo? Por que não me diz o que vai fazer? Por que tenta me aterrorizar?” Ela não responde. Finge que nem ouviu. Apenas me olha com um sorriso cínico, balança a taça de vinho na mão direita e coloca a pistola em cima da mesa. Às vezes, pega o revólver, destrava a arma e aponta em minha direção. Ao rosto, ao peito. Até em direção ao meu pau. E, em todas as vezes que isso acontece, meu coração acelera, o estômago revira e o suor gelado corre por minha espinha. Não sei se vou sair vivo dessa.
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Subjugado e imóvel, lembro de minha esposa. Recordo-me que não lhe disse o quanto a amava antes de dormir. Estava bravo por uma briga fútil que tivemos no dia anterior. Como fui imbecil! Imagino tudo que poderia ter feito para deixá-la mais feliz. De todos os sentimentos que deixei de demonstrar para lembrá-la o quanto era especial. Talvez agora seja tarde demais. Também lembro-me da minha mãe. Coitada. Percebo que vai ser ela quem mais vai sofrer. E mais uma vez me arrependo por ter sido um filho tão frio. Nunca declarei o quão importante ela foi pra mim. A visão da minha cachorra é a última que me vem aos olhos. O que será que aconteceu? Ela não esteve comigo por muito tempo, mas ficou claro que o amor entre nós foi incondicional. Os cães nunca mentem. Uma lágrima escorre pelo meu olho esquerdo. Não posso secá-la. Estou preso de uma forma que não consigo mexer meus membros nem por um mísero centímetro.
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“Onde está minha cachorra? O que você fez com ela?” Minha algoz apenas sorri. Levanta-se. Aponta a arma em minha direção. Dá um gole no vinho. “Não se preocupe, ela nem saiu do prédio. Não sou tão sádica assim, para maltratar um pobre animal tão puro. Quanto a você, infelizmente, já não há mais salvação!” Ela começa a rir. A gargalhar loucamente. Anda de um lado ao outro e resmunga consigo mesma palavras que não posso ouvir. Começo a rezar silenciosamente. Nunca fui religioso, mas agora um suposto Deus é a minha última salvação. Começo a tremer enquanto ela vem em minha direção.
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“Hoje, estou a fim de fazer uma experiência. E já te digo: você não vai sair vivo daqui! Não adianta gritar, implorar ou tentar me subornar. Nada nem ninguém poderá te ouvir ou socorrer. Gente egocêntrica, estúpida e sem empatia como você não merece salvação. Sempre tiveram tudo de mão beijada. Não conhecem a realidade do mundo ao seu redor. Presta atenção! Assim que você ficar de pau duro você vai morrer! Você entendeu?”
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Estou apavorado. Mas saber que o cão está a salvo alivia meu medo por um breve momento. Penso no que ela me disse e não consigo achar nenhuma resposta. “Mas que merda você está dizendo? Me solta, por favor! Pelo amor de Deus!”
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Em um movimento rápido, ela saca a arma e atira em minha direção. Sinto o ardor e a queimação no meu ombro direito. O sangue espirra. O impacto é forte e a dor domina meu corpo. “Ahhhhhrrrrrrggggggg! Caralho! Que porra foi essa? Por quê? Por quê você fez isso?” Começo a chorar como uma criança. Soluço. Grito. Rezo.
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Lábios com batão e cabelo ruivo sobre o rosto
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Ela vem em minha direção. Solta o cabelo. É ruivo, liso, espelhado até o meio das costas. Levanta o braço e me dá um tapa na cara com as costas da mão. “Seu merda! Não foi isso que eu perguntei. Pare de chorar como uma vadia! Recomponha-se! Você só vai morrer quando seu pau ficar duro! Você entendeu? Hein, puto?”
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Respiro fundo, engulo a seco e aceno com a cabeça. O sinal positivo a faz se afastar um pouco. Ela anda vagarosamente até o interruptor e faz algumas tentativas até a luz se estabilizar. Observo-a com atenção. Fungo mais um pouco para secar as lágrimas. Sua beleza é inacreditável. Usa uma calça de academia colada ao corpo e um top preto. Barriga seca. Bunda empinada. Rosto lindo. Olhos azuis, nariz fino e pequenas sardas nas bochechas. É apaixonante. Deve ser a assassina mais gostosa que já existiu.
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Ela pega o celular e coloca uma música. Every 1’s a Winner ecoa pelos alto-falantes. Em passos lentos, dança em minha direção de uma forma bastante sensual e com um sorriso perverso. Os movimentos são maravilhosos e em câmera lenta. Pena que vou morrer, senão poderia aproveitar isso de uma forma diferente.
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Tira o top e joga para longe. Vejo os seios quase saltando do sutiã. São maiores que imaginava. Mas não grandes o suficiente para tornarem-se exagerados. São simétricos ao corpo que os acompanha. Chega mais perto e continua a dançar. Olha-me fundo nos olhos. Se a situação não fosse tão atípica, diria que ela quer realmente me entreter.
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Abaixa pouco a pouco as calças. Está com uma calcinha preta fio dental. As nádegas saltam assim que o tecido desce. Perfeita. Com duas pintas do lado direito. Umas das bundas mais belas que já pude ver. Rebola no ritmo da música. De lado. De costas. Há belezas que vêm ao mundo apenas para nos atormentar. Apenas para brincar com a mente daqueles que as admiram. É realmente fenomenal.
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Arma sob as nádegas de uma mulher de calcinha
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Em passos lentos ela caminha em minha direção. Abaixa uma das alças do sutiã enquanto vai chegando mais perto. Sinto seu perfume. Doce. Delicado. Selvagem. “E ai? Como estamos?” Ela abaixo o tronco na direção do meu rosto e coloca os seios na minha cara. Macios. Mágicos. O tecido do sutiã roça o meu nariz. Em um gesto brusco, ela aperta o meu pau por cima das calças. “Nada ainda? Estou completamente decepcionada. Parece uma lesma morta!.” O medo me consome. Apesar do lindo show, não há nenhum clima para excitação.
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“Vou ter que ser mais efetiva!” Ela tira o sutiã e joga a peça longe. Toma mais um gole de vinho e me rouba um beijo molhado. Sinto o gosto da saliva e do álcool. Não posso mentir: é uma bela sensação. Espero que minha esposa possa me perdoar. Ela senta em meu colo. Desliza a vagina por cima de minha calça. Nada ainda. Nenhum resquício de tesão.
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Os mamilos estão cada vez mais próximos. Belos. Rosados. Incríveis. Ela aproxima o seio direito da minha face. “Lambe, desgraçado! Agora! Vamos! Quero ver se ao menos pra isso você serve!” Molho os lábios e dou um beijo em seu peito. Passo a língua delicadamente em volta. Abocanho com carinho. Com leves mordidas. Chupo com vontade. Ela dá um leve gemido. Perco-me nessa pequena amostra de inocência que um assassino jamais deveria exibir. Afasto meu rosto. A saliva estica entre minha boca e o delicado seio. Cena de filme. Mas não do filme que eu gostaria de atuar.
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“Uau!!! Parece que algo se moveu por aqui! Hunnnmmm!” Ela rebola mais um pouco em cima do meu colo e esboça um sorriso provocante. Levanta-se e novamente apalpa meu pênis e minhas bolas. “Ainda não é o ideal, mas pelo menos já me mostrou que você não é um frouxo pica murcha! Vamos ter que melhorar isso! Hahahahahaha!”
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Cristo! Entro em desespero. Não é possível. Por algumas vezes em minha vida brochei em situações normais e justo agora esse pau filho da puta quer mostrar o seu verdadeiro valor! Vou morrer! Começo a gemer e a balbuciar palavras sem sentido. “Cala a boca!” Assusto-me, silencio e fico completamente imóvel.
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Pernas no salto alto
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Ela continua a dançar. Passa os dedos nas alças da calcinha e vai abaixando-a vagarosamente. É impossível não olhar. Sorri. Faz gestos maliciosos e me olha no fundo dos olhos. Joga a calcinha para o ar. Vira-se de costas e abaixa completamente o tronco, fingindo tocar algo em seus sapatos e deixando as pernas e coxas carnudas completamente esticadas. Meu deus! O alongamento divino. É a vista do paraíso. Posso ver toda a vulva e os lábios rosados. O grelo e a magia de toda a cena. Magnífica. Uma das bocetas mais lindas de todos os tempos.
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Levanta-se novamente e se aproxima de mim. Abaixa-se na minha frente e começa a abrir meu cinto. Então, puxa minhas calças e rasga a cueca. “Não, não, não, não, não! Você é bicha, por acaso? Meia bomba não serve pra mim!” Por que, Deus , tenho de passar por isso? Ela se levanta bruscamente, vira-se e coloca bunda direto na minha cara. Esfrega com vontade a boceta nos meus lábios, nariz e queixo. Fabulosa. Molhada. Perfeita.
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“Chupa, seu merda! Com gosto. Com vontade!” Mesmo sabendo do incrível erro, atendo ao seu pedido. Coloco a língua para fora e começo a lamber tudo que alcanço. Ela posiciona o clitóris no modo certo para que possa agradá-la da melhor forma. Ela geme. Sinto a vagina encharcar. Adoro o gosto que a excita. Deliciosa. Sinto meu pau pulsar. A morte se aproxima. “Agora sim! Finalmente! Olha só que beleza! Vivo! Grosso! Duro como pedra!”
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Ela se levanta saltitante. Pega a arma em cima da mesa. Olha-me sorridente. Uma criança prestes a entrar na brincadeira. Posiciona-se ao meu lado. Coloca a arma sobre minha têmpora. Com a outra mão, segura meu pau com firmeza. Começa a mover. Para cima. Para baixo. Deliro. Amo. Para cima. Para baixo…. BUM!
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Enquanto você dormia

Não saberia explicar o que ele fazia ali parado durante tanto tempo, imóvel e olhando para o mesmo lugar há horas. Também não poderia explicar o que fazia eu, aqui, imóvel, olhando para ele há um bom tempo. Alguma razão para estes atos deveria existir, para ele ou para mim, só que ainda não havíamos descoberto qual era.
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Um mendigo sujo, fétido e, ao que parecia, extremamente louco e atento ao que estava acontecendo dentro de sua mente. Com um cobertor imundo nas mãos e apenas uma bermuda cobrindo o corpo, se divertia sozinho e ria do que somente ele poderia explicar. Já eu, um jovem “rico”, limpo, bem vestido e, ao que me lembrava, aparentemente sóbrio o bastante para não me entreter com tudo aquilo, perguntava-me o que estávamos realmente fazendo. Seria melhor parar um segundo para refletir se o louco era ele ou eu, afinal.
.Image by Craig Sunter.
Quando levantei, atravessei o portão em passos lentos e me dirigi à rua. O chão estava coberto de lama e meus sapatos brancos, completamente sujos. No momento que voltei os olhos a um ponto fixo a minha frente, senti um vulto se aproximar em um movimento extremamente rápido. Sem esforço algum já havia me jogado ao chão. Levantei-me como um raio, mas fui nocauteado na mesma intensidade. Estava tudo muito claro e, por mais que abrisse os olhos, nada podia ver. Quando finalmente minha visão retornou, trouxe consigo uma dor incrivelmente forte em meu maxilar. Percebi que o sangue escorria por lábios, enquanto me arrastava pela lama tentando entender o que estava acontecendo. Não fazia a mínima idéia sobre o que havia me atingindo, mas somente um tolo não perceberia que as coisas já não andavam bem.
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Enquanto meu estado de consciência voltava ao normal, pude ver que o mendigo, já não mais imóvel, era o meu algoz. Mais um impacto estrondoso em minhas costelas e deitei-me ao solo para gemer e cuspir o resto de sangue que, agora, me inundava a boca. Meu companheiro sorria como um inocente menino e possuía uma pequena faca nas mãos. Seus dentes eram de ouro e, apesar do ato hostil, não senti raiva ou maldade em suas intenções, mas isso não fazia minha dor diminuir. Esforcei-me para tentar fugir, porém um olhar inóspito do inimigo me paralisou. Não havia nada nem ninguém, apenas uma força invisível que me impedia de mover até mesmo os dedos dos pés.
.Image by matt hannah.
Com as costas no chão, senti os pingos da chuva começarem a cair. Ele se aproximou e se ajoelhou próximo ao meu tronco. Proferiu palavras que não podia entender e apunhalou meu estomago com a arma. A dor não veio, mas um pavor intenso dominou meus pensamentos. Seria esse o fim? Enquanto abria meu corpo e arrancava, um a um, meus órgãos, pensava nos amores que havia deixado para trás, nos amigos e familiares que jamais voltaria a ver e no tempo perdido em vão.
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Meu coração já estava em suas mãos e minha vida já não me pertencia mais. Pingava e batia mesmo estando fora do corpo. Ele se levantou com o órgão em sua mão direita e, simplesmente, deixou os restos ali ao meu lado. Por que? Talvez para que antes da morte tivesse o prazer de entender que, apesar de tudo, por dentro, somos todos iguais. Apenas sangue e carne. Antes de ir embora, jogou seu cobertor sobre meu corpo e se despediu. Dobrou a esquina enquanto o temporal caía. “Adeus” foi a única palavra que realmente pude compreender.
.Image by Jim Bauer.
Fazendo minhas últimas reflexões, minha visão ficava cada vez mais turva e escura. O sangue e as gotas da chuva davam-me uma leve sensação de bem estar. Não pensava mais em arrependimentos e, muito menos, no que poderia, um dia, ter feito. O último desejo era que pudesse ver seu rosto uma última vez. Tudo escureceu e me despedi do mundo pensando nela.

Uma forma triste para dizer adeus

É verdade que fiquei um pouco ausente nos últimos dias, meses e anos. Não porque era essa a minha intenção, mas, porque, apesar de nunca fazer nada, acabo sempre fazendo tudo ao mesmo tempo.
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Deitado na cama, conseguia avistar um pássaro negro, com algumas penas reluzentes e pardas, isolado no parapeito de minha janela. Sozinho, contemplava sua imensa solidão, imóvel, talvez refletindo sobre o que havia feito de realmente importante em sua vida, enquanto recordava os sentimentos que não mais o aqueciam e que agora apenas lhe deixavam um vazio obscuro em seu coração. Talvez. Mas nunca saberemos o que um animal livre e solitário como esse poderia realmente sentir.

Image by benjgibbs

Mesmo perdendo alguns minutos a observar, cheguei a conclusão que me senti um pouco mais alegre e com inveja de sua imponência. A sensibilidade em meus ouvidos estava cada vez maior e já podia ouvir os risos das crianças que brincavam na esquina. Os risos se aproximavam e o pequeno pássaro, atento, observava o mundo enquanto, em pequenos lampejos, enfiava graciosamente o bico entre as asas para quebrar o tédio. Os risos continuavam e estavam cada vez mais perto. Cessaram exatamente embaixo de minha janela. Peguei o violão e dedilhei algumas notas. O pássaro de penas negras finalmente quebrou sua postura e virou-se em minha direção. Olhou-me e grunhiu de uma forma tão sincera que pude sentir que estava dizia adeus. Mas por que comigo? Por que naquele momento e daquela forma?

Ouvi apenas um tiro. O violão caiu de minhas mãos e o pássaro havia sido perfurado por uma minúscula bala de chumbo em seu pescoço. Sua cabeça titubeou com o impacto e ficou dependurada. Os olhos ainda abertos, mas já imóveis, não demonstravam mais nenhum sinal de vida. O pequeno animal não era mais completamente negro e suas penas pardas, agora, estavam manchadas pelo seu próprio sangue e pela crueldade de uma criança que apenas queria se divertir. Ele girou e caiu para o chão como uma estrela cadente em seus últimos segundos de brilho e aterrissou no solo no mesmo instante em que o violão se debateu contra o assoalho. Já não estava mais entre nós.

Image by Andrew Dobos

Corri para a janela com uma raiva que jamais havia sentido. Tinha perdido algo dentro de mim, mas ainda não sabia o que era e que ainda, apesar dos anos, não descobri o que foi. Um grupo de cinco garotos que riam e se exaltavam com o feito. No meio deles, um garoto loiro, bem vestido e com uma arma na mão. Era o líder e o autor do crime. Olhei diretamente em seus olhos azuis e consegui sentir a maldade em suas intenções. Possuía um sorriso malicioso e perverso. Senti um calafrio me percorrer a espinha. Estava com vergonha da espécie humana e por pertencer a mesma raça daquele franzino menino. Há quem diga que possamos ver Deus no resto de uma inocente criança, mas não estava preparado para encarar um pequeno demônio de frente. Ele se virou e andou lentamente até dobrar a esquina. Seus capachos se apressaram e o seguiram sem pestanejar.

Foi a última vez que os vi na rua, mas ainda posso ouvir claramente os risos ecoando.