Magic!

Era uma sensação diferente tentar descobrir porque ela chamava tanto a minha atenção. Tinha a chance de encontrá-la ao menos uma ou duas vezes por semana durante o caminho de volta até o lar. Pegávamos o mesmo ônibus e sua presença deixava a viagem, no mínimo, muito mais interessante.
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Não fazia ideia sobre qual seria o seu nome, onde trabalhava nem qual era o seu emprego. Entretinha-me tentando imaginar o que ela gostava de fazer, quais eram seus pratos favoritos ou que tipo de música ela ouvia durante o trajeto. Era engraçado fazer tais indagações, pois tinha certeza que tudo seria muito diferente quando realmente a conhecesse. As únicas coisas que podia afirmar com exatidão eram que trabalhávamos relativamente perto, que ela morava próximo a minha casa (já que sempre descia um ponto antes do meu) e que era incrivelmente linda. Mas quanto a esse último fato não era preciso que ninguém me recordasse. O que eu podia dizer? Ela era mágica!
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Inúmeras vezes chegava ao ponto e ela já estava a espera de nosso “querido” transporte público. Sempre a observava ao longe. Não precisava muito para que chamasse minha atenção. Apenas um gesto ou um pequeno olhar eram mais que suficientes para que eu ficasse completamente hipnotizado. E isso, posso dizer com sinceridade, não era muito comum acontecer. Já havia apreciado a beleza das mais diversas mulheres – como todo homem costuma fazer –, mas pouquíssimas despertavam meu interesse de tal forma. Isso fazia-me pensar que talvez ela fosse única, e por algum motivo que ainda não conhecia.
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Image by Charly Meunier

Já havia tentado uma aproximação e lhe entregado um bilhete uma vez quando voltávamos “juntos”. Nunca houve uma resposta. A partir de então passamos a jogar, nos evitando e fazendo o possível para que a troca de olhares nunca ocorresse. Ela, provavelmente, sabia o quanto era bela e não perderia tempo com qualquer um apenas por um pequeno bilhete. Eu só queria mostrar que não me importava, fingindo demonstrar indiferença sempre que nos encontrássemos. Era tudo uma grande mentira, pelo menos da minha parte. Sempre que podia, parava minha leitura para admirá-la, fazendo o possível para que ela não percebesse. Claro que nem sempre conseguia ser tão discreto assim. É engraçado, pois a maioria das pessoas não entende que momentos simples como este podem ser inesquecíveis.

Nunca fui um excelente galanteador, mas a longo prazo geralmente tudo acabava bem. Mulheres gostam de homens de atitude e nem sempre isso é fácil no mundo masculino, porém acreditava estar bem perto disso.

Algumas vezes acabava me perguntando: e se ela namorasse? Se vivesse com alguém? Se fosse ocupada demais ou carregasse infindáveis empecilhos? A verdade é que nada disso importava. Acreditava no meu potencial. Nem sabia ao certo se iríamos mesmo nos conhecer, mas, caso isso acontecesse e ela se apresentasse de uma forma que realmente valesse a pena, lutaria para que ela fosse minha, mesmo que fosse apenas por uma noite.

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Encontros e desencontros

Já estava tudo monótono demais para perder tempo pensando. Ela estava ao meu lado, sentada e observava a paisagem. O sol refletia a luz nos seus olhos e a deixava ainda mais bela. Eu estava lá somente por sua causa e ela pela minha, mas não havíamos ainda chegado a um consenso. Talvez nem precisasse. A verdade é que ela esperava que eu me aproximasse lentamente, segurasse delicadamente seu queixo com o meu polegar e guiasse seu rosto levemente até meus lábios. Ela desejava isso. Eu podia sentir, mas o nervosismo que tomava conta de meu corpo era tão intenso quanto a felicidade que me inundava o coração. Por que na vida coisas tão simples como o amor tornam-se tão complicadas?
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A primeira vez que nos encontramos foi em uma padaria, no final da noite, quando voltava para casa. Fazia meu pedido no balcão quando deixei cair minhas chaves. Em um breve segundo, ela se aproximou e devolveu os meus pertences:
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chaves
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– Você deixou suas chaves caírem. Toma! – E segurou minha mão com delicadeza incomum e me devolveu o molho de chaves. Não poderia dizer o que havia acontecido comigo, mas fiquei completamente imóvel e desejei que nunca mais suas mãos se separassem das minhas.
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Acho que fiquei tanto tempo deslumbrado com sua beleza e principalmente com o inesquecível tom de sua voz, que não a agradeci. Ela me olhou fundo nos olhos, balançou a cabeça e me deu sorriso mais lindo que já recebi. Olhou para os lados e saiu em passos lentos pela saída. Estava sozinha e eu completamente fora de mim. Não a conhecia. Jamais a tinha visto, mas sabia que ela era a mulher de minha vida.
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Image by Lindsay
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Quando me dei conta do que havia acontecido, saí correndo como um idiota. Corri até a esquina e consegui alcançá-la. Ofereci-lhe uma carona e ela, desconfiada, aceitou. Fomos conversando durante todo o caminho e jamais havia me sentindo tão bem assim com um completo estranho. Nossas almas eram compatíveis e ficamos íntimos instantaneamente. Brincamos, rimos e, quando menos percebemos, já havíamos chegado até a sua casa. Ela se despediu e me deixou um bilhete. Lá estava um agradecimento pela carona e por eu ter sido tão gentil. O número de seu telefone também estava marcado e naquela noite voltei para casa sentindo-me o homem mais feliz do mundo.
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Três dias depois lhe telefonei. Apenas três dias para não me mostrar tão ansioso. Mas na verdade foram os três dias mais longos que passei. Começamos a sair, ficamos ótimos amigos e agora estávamos aqui, sentados, sozinhos, esperando o sol se pôr.
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Image by Nattu
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Perguntava-me como ela podia estar tão tranqüila. Será que não tinha noção alguma de minhas intenções?  Ela era linda e todos sabiam disso. O mundo podia parar para vê-la, ali, apreciando o sol na beira da montanha e ninguém teria coragem para reclamar. Nesse meio tempo, resolvi parar de me lamentar e agir. Com um esforço incomum, controlei meu nervosismo e coloquei delicadamente minha mão sobre as suas. Era a pele mais macia que já tocara e senti um raio me penetrar o peito. A energia foi tão forte que ela percebeu. Aos poucos ela se virou em minha direção e meu deu um pequeno sorriso. Quando menos percebi, ela me beijou. Foi o beijo mais intenso que já recebi. Ela havia facilitado tudo e estava apenas esperando o momento certo para isso. Os céus estavam, pela primeira vez, ao meu lado. Depois disso, tudo foi perfeito e nunca mais iria me esquecer cada momento passado ao seu lado.
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Hoje estamos casados há 23 anos. Não posso dizer que sempre vivemos mil maravilhas, mas nada teria sido igual em minha vida sem a sua companhia. Sou grato a cada dia por tê-la conhecido e espero que, daqui a 23 anos, possa escrever um texto ainda melhor. Eu te amo do fundo do meu coração. Muito obrigado!