Bem-vinda

Uma preguiça infernal. Dinheiro escasso e amores perdidos. Uma noite mal resolvida e tudo veio por água abaixo. Viver não é tão simples assim! Saúde, progresso, inveja. Na selva de pedra, o labirinto emocional te consome pouco a pouco. Expectativas, sonhos, realidade. Seria melhor desejar o que temos capacidade de conseguir. Do que estou falando, afinal? Nem eu sei mais dizer.
.
Eu não vou esquecê-los. Ainda vamos nos ver na próxima sexta-feira. Desculpe-me por não ter aparecido ontem. Amanhã, infelizmente, teremos um novo show. O furacão de idéias irrealizáveis e cheia de remorsos insiste em continuar. Mas não se preocupe, eu não vou esquecê-los. O que tento dizer? Ainda não sei.
.
Imagem de Hartwig HKD
.
Drogas, fé, paixão. Qual o verdadeiro motivo de tudo isso? O quão mágico seria acabar com essa dor de cabeça horrível. Acorde-me quando o sol raiar, por favor. Mostre-me como o nascer do sol pode ser belo. Algumas vezes é difícil fazer a sua cabeça. Suspire ao meu ouvido tudo que eu nunca poderei ser. Coloque uma linda música para tocar. Essa banda novamente? O que posso dizer? Eles fazem parte da trilha sonora de minha vida. E o que significa tudo isso? Fica cada vez mais difícil entender.
.
Eles lhe fizeram parar com tudo e raciocinar apenas para testá-la, pois você realmente não sabe o quão longe é capaz de ir. Gostaria de deixar de viver somente por um dia. Orgulho, compreensão, lágrimas. A timidez acaba tornando tudo pior. Vamos fracassar? Então, que seja com nós dois ainda juntos. Seja, sempre, muito bem vinda.
.

Um dia de sol

Estava sentado com os pés a beira da piscina. Lia um bom livro enquanto os raios do sol refletiam intensamente pela água e davam um toque suave ao meu olhar quando encontravam as lentes de meus óculos escuros. Era um belo dia e sentia-me realmente feliz. Não sei ao certo, mas uma aura especial rondava a minha volta.
.
Welcome to the Goodtimes” tocava ao fundo e, então, como um suspiro dos céus, lembrei-me de você. Do seu sorriso e de sua beleza, da sua voz e de seu jeito meigo e único, que, infelizmente, eu pouco conhecia. Do tempo que eu perdia ouvindo minhas músicas favoritas enquanto observava atentamente suas fotos. Talvez fosse a beleza ao meu redor que me fazia recordar tudo, mas a verdade é que, naquele exato momento, você dominava completamente meus pensamentos.
.
Image by José David Leiva
.
Havia acabado de ler três páginas, mas não tinha conseguido prestar atenção em nada. Tudo bem, afinal faria minha releitura calmamente um pouco mais tarde. Parando um pouco para pensar, dava-me conta de algumas coisas. Por que eu havia deixado tudo isso de lado? No começo, parecia correr tão bem.
.
Por outro lado, me encorajava, pois eu tinha tanto para conhecer, descobrir e me envolver. Perceber os gestos, vontades.  Entender e procurar.  E, dependendo de como tudo ocorresse, não me importaria nem um pouco em me apaixonar. Era ótimo ter essa consciência, pois sabia que, como tudo na vida, esse talvez se tornasse um desejo irrealizável que mais tarde seria esquecido. Não tinha medo, apenas entendia que, tristemente, a vida era, de vez em quando, assim.
.
Image by Robert Rice
.
Levantei-me tranquilamente. Com os pensamentos em ordem, coloquei os óculos sobre o livro e os deixei ao chão. Dei dois passos a frente, olhei o céu e, então, mergulhei.

Insana consciência

Sua cabeça estava inundada de idéias sem nenhum propósito e o corpo extremamente exausto com o excesso de autoflagelações. O cabelo comprido e imundo jogado sobre as costas, os olhos verdes sem nenhum sentimento e a barba por fazer há dias lhe deixavam com um aspecto sombrio e, ao mesmo tempo, comovente. Submerso em um mundo imaginário, não tinha mais tempo a perder com as futilidades de uma vida normal.

Já não se lembrava mais do próprio nome, afinal fazia alguns anos que ninguém o chamava. Emoções? Talvez não houvesse sobrado nenhuma além do vício e desespero. O amor não fala tão alto quando o peso das pedras de crack em seu bolso chega a ser mais importante que sua própria vida.

Image by Neil Kremer
.
Sentado, apoiando as costas sobre a porta de entrada de seu apartamento, não lhe passou um momento sequer pela cabeça como um ser humano é capaz de viver com apenas um colchão e um par de velas e fósforos ao lado das seringas e colheres espalhadas pelo assoalho. Talvez se ainda fosse uma pessoa normal tivesse tais pensamentos, mas a realidade era algo distante em sua vida há um bom tempo.

Vestia apenas uma bermuda. Banho era um luxo que geralmente surgia quando o temporal inundava as ruas enquanto travava uma busca contínua para se entorpecer um pouco mais. Seu estado mental não era dos melhores e, analisando um pouco seu dia a dia, podíamos observá-lo conversando e proferindo palavras sem sentindo:

– Um pouco mais, por favor! Seja cuidadoso para não me interromper enquanto aprecio esta obra… Crowe, Hendrix, Gallaghers, Robinsons, Bukowski, Kurbic, Warhol, London, Zemeckis… Kerouac, Jackson, Humble Pie, Di Giorgio, Fender, Brown… 2001, Almost Famous, Amorica… Só um segundo Glória, já está quase no fim!

Image by Alden Chadwick
.
Este ritual atípico continuava por horas ou até dias. Como tudo chegou a esse ponto? Nem mesmo eu saberia dizer, mas não é preciso pensar muito para descobrir como tudo iria terminar. A agulha estava fincada em seu braço direito, porém a dose ainda não havia sido injetada. Essa parecia um pouco maior e muito mais forte que todas as anteriores. Após diversas overdoses e inúmeras oportunidades para enfrentar e debochar da morte, era fácil deduzir que, depois de quatro anos jogado no limbo, esta seria a viagem final.

Apesar de saber exatamente o que fazer e qual resultado tudo teria, ficou imóvel algumas horas até criar coragem para aplicar a dose que lhe libertaria. As lágrimas escorriam por seus olhos e molhavam seu rosto acabado e envelhecido enquanto pressionava a agulha e injetava seu “passaporte para a felicidade”. Uma bomba de adrenalina inundou seu peito, sua cabeça foi tomada por uma dor assombrosa e a luz da vida se apagou em um último flash. Sua mão caiu sobre o chão e ele dormiu para nunca mais acordar.

A polícia local o encontrou somente três semanas depois. Só se deram conta do que havia acontecido, porque o cheiro da morte empesteava todo o prédio. A seringa ainda estava em seu braço. Procuraram por sua família e pesquisaram sobre seu passado, porém nada foi encontrado. Sem nome e sem vida, foi enterrado como mais um indigente destruído pelo caos de uma grande metrópole. Ninguém, além de nós, o “conhecia tão bem”, e nenhuma falta ao mundo ele realmente faria, mas era possível perceber que, agora, finalmente, havia se tornado um homem livre.