Por entre as grades da janela

O mundo vira um lugar muito melhor após o anoitecer. Principalmente depois que aprendemos a viver no constante exagero da boemia diária, que nos mata pouco a pouco enquanto negamos ao corpo uma chance de nos mostrar o quão errado está o caminho que sentimos prazer em seguir. Pessoas importantes sucumbiram diante disso e uma infinidade muito maior, que nunca sequer saberemos quem foram, também. Para dizer a verdade, sinto bastante falta da minha infância.
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Em alguma dessas noites, poderia muito bem lhes contar que o mundo girava ao meu redor. Era livre, engraçado, chamava a atenção e sabia que o sorriso não fugiria nunca de meu rosto. Amigos, amores ­­ – correspondidos ou não ­–, brincadeiras, brigas, verdades, mentiras, músicas, sorrisos, carinhos e abraços. Tenho muita sorte em afirmar que a felicidade sempre caminhou comigo lado a lado.

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Agora, sentado e tentado escrever, não poderia deixar de ser tão sincero. Vejo os raios do sol de uma maneira diferente, mais vivos, belos e radiantes. O céu, limpo e ciano, nunca esteve tão azul. Uma brisa refrescante passa por minha silhueta e sussurra ao meu ouvido: “Não importa o que deseje, você não poderia estar em melhores condições.”

Não sinto frio nem calor, apenas o vento suave e sereno me pedindo para que flutue com ele por alguns instantes. Uma linda garota de cabelos loiros, presos, passa pelo outro lado da calçada, falando ao celular, desfilando sua admirável beleza. Um sorriso inesquecível e seu vagaroso andar. Passos lentos e aconchegantes. A noiva indo de encontro ao altar. Realizando um sonho de menina. Se tivesse a oportunidade de vê-la de frente, poderia jurar que uma lágrima está prestes a escorrer por seu maravilhoso rosto. Apaixonei-me em uma fração de segundos, mas já estarei livre assim que ela dobrar a esquina.

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As arvores não estão com tantas folhas assim e só posso ouvir pequenos pássaros a cantar. Um amigo disse-me que o outono havia chegado e só me dei conta da verdade neste exato momento. Nunca havia percebido que sinto prazer ao ouvir o som dos carros deslizando pelo asfalto.

Tudo isso ouvindo One Day It Will Please Us To Remember Even This (New York Dolls). A um primeiro momento, pode lhe parecer estranho e que não seria uma trilha sonora selecionada com cautela, mas se tiver a chance de fazer o que está me entretendo, verá o quão verdadeiro estou sendo em minhas palavras. Acho que nunca estive tão certo em toda a minha vida e a satisfação em meu (ou seu) rosto lhe dará provas de que por menor e menos significantes que sejam alguns momentos, a vida pode ser muito melhor do que tudo que esperamos dela.

Vou me esforçar para voltar ao mundo real. Ainda é cedo e o feriado mal começou. Acho que sou uma pessoa fácil de entreter. Não espero muito do universo. Deve ser por isso que estou sempre feliz. Tentarei passar isso adiante, mas o ser humano não é um animal simples de convencer. Gostaria de continuar agora, mas não quero me cansar, nem a mim nem a todos vocês. Voltarei um dia e estarei os aguardando com um imenso prazer. Até.

Algumas voltas a mais pelo quarteirão

Conversando com um amigo, pensava nas possibilidades que teria para o próximo ano. Não eram muitas, mas as imaginava infinitas. Garrafas de cerveja ao meu lado esquerdo e o copo sempre cheio à direita. A cada gole, trocava-o de lugar. Faço isso sempre. Não sei o porquê, mas é um ritual que pratico com afinco.

Um foco de luz vinha da rua. Era o único poste da avenida com iluminação. Parado, olhando em sua direção, comecei a lembrar das pessoas importantes que passaram pela minha vida. Algumas bastante especiais e que, sem alguma razão concreta, acabei perdendo contato. O dia a dia e os “compromissos” que julgava serem essenciais me fizeram deixar verdadeiros amigos para depois. Por que o ser humano é assim? Algumas vezes tento, mas mudar o mundo parece ser uma tarefa impossível.

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A luz do poste iluminava meus pensamentos e voltei para casa decidido a rever ótimas companhias. As ruas vazias da madrugada nunca foram tão boas para dirigir. A música tocava no último volume. Black Crowes nunca havia soado tão bem. Uma viagem de cinco minutos se transformou em cinquenta. Passei diversas vezes na frente de minha casa, mas continuei a dar voltas e voltas no quarteirão apenas para continuar ouvindo. Quando o último acorde tocou, abri o portão e desliguei o rádio.

Meu cachorro me esperava. Estava feliz e retribui sua alegria com carinhos. O volume alto havia afetado minha audição por um breve momento. Não ouvia mais nada. Sentei-me. Eu e o cão em uma casinha de cachorro. Fiquei lá por mais alguns minutos apreciando a beleza das noites de verão.

O sono me pegou de surpresa, então resolvi entrar. Despedi-me de meu escudeiro e subi, com cuidado, as escadas. Sozinho, dava-me conta que era prazeroso viver.

Conselhos noturnos

Não são muitas às vezes em que consigo sentir que o dever foi cumprido após uma grande noite regada a álcool e diversão. Inúmeras foram elas na quais cheguei em casa de mãos abanando. Os tempos hoje mudaram.

Quando era garoto, o ócio não me preocupava tanto assim. Nem mesmo um pouco. Mas hoje sei que deixei de correr atrás de muita coisa. E no momento que fiquei encurralado, sem ter por onde correr, o sucesso me apertou as mãos com força e sussurrou ao meu ouvido:

“Acredite! Nunca deixe de acreditar!”

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Levanto-me sem utilizar as mãos. Tenho forças novamente. O que raramente acontecia, passa a estar cada vez mais presente em minha vida boêmia.
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Agrada-me voltar ao lar com um belo sorriso no rosto. Mas não é sempre que acordo e continuo a andar pelo caminho no qual parei na noite anterior. Geralmente sigo na direção oposta e paro em frente ao ponto de partida mais uma vez.
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Algumas companhias são boas somente por algumas horas. Em muitos casos, nem isso. É engraçado que podemos ser íntimos sem que nunca tivéssemos trocado uma frase sequer e que podemos nos deixar levar por um desejo carnal que, como homens, não conseguimos controlar.
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Essa nova postura tem me rendido bons frutos, alguns podres é claro, mas é só ter atenção na hora de selecioná-los.