Manhã de Outono

Acordei com uma dificuldade incrível para respirar. O ar dificilmente aliviava minha agonia e, a cada tentativa desesperada, um chiado perturbador mostrava que algo não andava bem. Levantei-me realmente incomodado. Calcei o tênis. Peguei a chave do carro. No caminho, perdi alguns minutos saudando os dálmatas que dormiam no quintal. Cheguei exausto até o automóvel. Podia ainda sentir o sereno da madrugada. Fazia um lindo dia, mas eram apenas oito horas da manhã. Muito cedo para quem tinha ido dormir às 5h. Dei a partida e me dirigi até a farmácia mais próxima.
.
Acabei chegando mais rápido que esperava. É difícil ficar preso no trânsito tão cedo assim em um domingo, ainda mais em uma cidade do interior. Estacionei a meio fio e desci do carro. Em frente a porta, um cachorro preto, peludo e sem raça identificável observava a movimentação. Parecia extremamente manso. Pensei em compartilhar algum momento com ele, mas estava mais preocupado com o meu pulmão àquela altura do campeonato. Porém, não conseguia parar de pensar no quão feio era aquele animal. Um dos cães mais horrendos que já pude ver. Ainda bem que havia nascido cão, pois, se fosse humano, teria ínfimas possibilidades para ser amado, casar e constituir uma família.
.
Image by Joe McGowan
.
Entrei cauteloso e tentei aparentar uma doença normal. Sentia tanta falda de ar que precisava falar pausadamente para não acabar com o fôlego. Pedi por um Berotec xarope e aguardei. A atendente estava mais feliz que o habitual. Ou gostava mesmo de trabalhar e não se importava nem um pouco em fazer o “ótimo” turno na manhã de domingo ou algo realmente bom andava acontecendo em sua vida? Seu sorriso deixou-me um pouco mais feliz. Paguei, agradeci e voltei ao carro.
.
Liguei o som, tomei uma boa golada do xarope e fui até a praça mais próxima esperar o remédio fazer efeito. Estacionei na rua principal. Ficava em frente a um enorme lago. O sol refletia na água e as folhas rosas e laranjas flutuavam a cada rajada de vento fazendo desenhos invisíveis pelo céu. Era um lindo lugar para aguardar e parar um segundo pra pensar na vida. Apenas eu e meus brônquios suplicando por um pouco mais de ar.
.
Image by Carola Ferrero
.
Parei para refletir enquanto Mayonaise tocava a um volume considerável. Algumas oportunidades haviam surgido, mas o amor resolveu me deixar esperando um pouco mais. Desde quando ficou tão difícil se apaixonar? Mais um ano se passava e, pela primeira vez, senti que não havia feito nada de importante nos últimos doze meses. Era apenas impressão, mas perceber que o tempo passa cada vez mais rápido começava realmente a incomodar. Daqui a seis anos vou estar com trinta. Um pouco infantil, mas, ao mesmo tempo, bastante assustador.
.
Depois de uma hora ou uma hora e meia, os efeitos do remédio começaram a surgir. E o do Berotec é um dos melhores. Você sente um relaxamento fora do comum e uma sensação de bem estar impressionante. Gosto de comparar com a sensação que temos logo depois que atingimos o orgasmo. Aquela preguiça única e incomparável, para nós homens, é exatamente a mesma. Dormir sobre o efeito deste remédio nos garante uma noite, ou dia, incrível de sono.
Image by Federico Capoano
Já com o pulmão em ordem, dei a partida e retornei para casa. Apesar da doença, sentia-me muito bem, pois havia aproveitado um pouco da manhã de uma forma, no mínimo, relevante. Estacionei em frente à garagem, cumprimentei os cães mais uma vez e fui para o quarto. Tirei o tênis, puxei o edredom e, novamente, adormeci.

Valores

É engraçado como conseguimos desenvolver características que são excelentes em decepcionar as pessoas que dormem sozinhas no quarto ao lado. Palavras, gestos e atitudes impensadas que fazem nossos parceiros esquecerem quem realmente somos e pararem para analisar em que momento de suas vidas penetraram as fortalezas do erro.

Foi triste quando fiz aqueles que amava chorarem, mas foi ainda pior quando minhas lágrimas caíram por culpa de outra pessoa.

Tento olhar o mundo de uma outra forma e cada vez fico mais convencido que não temos mais esperanças.  Nossos desejos já não valem nada, exatamente como aquela ferida sangrando na pata dianteira esquerda do frágil cão abandonado.  Quando foi que o ser humano passou a ser tão insensível?

Pais, mães, irmãos, irmãs, avós e tios. Esse tipo de vida já não importa mais.

A pequena bola de pelos

O engraçado foi que quando ele chegou tinha apenas 10cm e possuía uma dificuldade incrível para conseguir mover qualquer músculo em sua cama altamente preparada e especializada para animais de pequeno-micro porte. Simplesmente uma pequena bola de pelos que se alimentava com no máximo cinco gramas de carne por dia.

Mas os pelos cresceram, a cama aumentou, a conta no açougue dobrou e perguntas e expressões como essa começaram a vir à tona:

-Mãe, cadê a porcaria do meu sapato?
-Meu deus! Olha o tamanho desse cocô.
-Filho da p**a! Esse era o meu DVD novo do demolidor!

A fama de bonzinho no inicio de carreira e rei da música pop já não era a mesma depois que Michael segurou seu filho na varanda a 40 metros de altura e cogitou ter relações amorosas com sujeitos da primeira metade do ensino fundamental. E assim também foi com a pequena bola de pelos que já não possuía as mesmas características elegantes de seus dois primeiros meses.

Sacrifício, abandono e doação passaram por nossas cabeças muitas e muitas vezes, mas é fantástica a forma como certos animais conseguem nos cativar e tomar um lugar em nossos corações, não importa o quão idiota e inúteis eles sejam (existem pessoas que amam os peixes!). Com a pequena bola de pelos não ia ser diferente. O seu carinho, estardalhaço e nervosismo de alguma forma nos fizeram mantê-lo conosco e nos lembraram que sentiríamos muito a sua falta e que no fundo seria um erro terrível.

Nem sempre o que nasce belo continua belo. Nem sempre o que nasce inofensivo continua calmo e tranquilo. E nem sempre o que no começo é agradável termina feliz e contagiante. Mas quando pesamos as diferenças eles continuam sempre sendo queridos e amados, só que algumas vezes acabamos nos esquecendo disso.