Uma pequena lembrança

O sol continuava a brilhar intensamente, mas mesmo assim o frio ainda congelava suas mãos. Havia esquecido suas luvas em cima da penteadeira. Algo nada sábio a fazer em pleno inverno. Andava a pé desde que seu pequeno automóvel tinha sido roubado. Haviam tentado três vezes, na quarta conseguiram furtá-lo. Era uma boa média para um carro popular.
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Aproveitava o tempo vago para realizar suas tarefas casuais. Sua sorte era grande por habitar um bairro no qual era possível sobreviver sem utilizar o “querido” transporte público. Bancos, supermercados, padarias. Tudo a poucas quadras de distância.
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Image by Andrea Rose
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Assim que havia terminado suas obrigações, parou por um momento em frente ao prédio de uma das garotas mais belas que já havia conhecido. Ela possuía cabelos negros e lisos até o meio das costas. A pele clara como a neve. Olhos castanhos e inesquecíveis. O sorriso? Este era, com toda a certeza, um dos sorrisos mais lindos e cativantes que já tivera a oportunidade de ver. Para sua sorte, teve a chance de apreciá-lo diversas vezes. Não é nenhuma novidade dizer que muitos acabaram se apaixonando enquanto trocaram, por acaso, algumas palavras ou gentilezas.
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Carregava um bilhete para entregá-la. Não pessoalmente, pois sabia que àquela hora ela não estaria presente, e, no momento que estivesse, ele não teria tempo de fazê-lo. Tudo bem. O porteiro faria um excelente intermédio entre os dois. Só havia um único problema: não conseguia se lembrar qual era o edifício que ela morava. Havia lhe dado carona até ali em algumas oportunidades. Era uma ótima companhia e recordava com carinho que tinham passado bons momentos juntos. Dividiam alguns valores em comum e se davam realmente bem.  Haviam perdido contato em certo momento, provavelmente por algum motivo bobo ou inexistente, mas isso nunca significou que havia deixado de admirá-la.
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Image by Dennis Jarvis
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Estava em dúvida entre dois prédios. Claro que erraria na primeira tentativa. Escolheu o condomínio da esquerda e disse ao porteiro que precisava entregar uma encomenda para um morador. A porta se abriu. Graças aos céus não era nenhum assaltante. Obviamente ele não apresentava tais características, mas nos dias de hoje como podemos prever? Havia sido fácil demais. Mas conversando, deu-se conta que estava no lugar errado. “Que tremendo idiota”, deve ter pensado o porteiro. “Vem fazer uma entrega e sequer sabe o endereço”. Deu-lhe um sorriso sem graça e abriu o portão. Foi obrigado a sair. Ainda com o bilhete nas mãos, dirigiu-se até o prédio ao lado.
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Na segunda tentativa, nutria mais esperança. Afinal, se não fosse ali algo andava completamente errado com seu senso de direção ou sua memória fotográfica. No pior dos casos, com suas recordações vividas, pois passar por tudo aquilo sem que nada tivesse realmente existido lhe deixaria totalmente paranoico. Dessa vez uma cordialidade incomum chegou pela portaria. Ela realmente morava ali. Um senhor muito educado disse que lhe entregaria a pequena carta assim que possível. Segurou-a com delicadeza nas mãos, agradeceu-lhe e se despediu.
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Quando chegou até a rua, colocou novamente os fones no ouvido. Girl From A Pawnshop voltou a tocar em um volume considerável. Olhou atentamente para os lados e atravessou. Com o andar calmo e tranquilo, decidiu retornar para casa.
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Coma induzido

Faltava energia a mais de quatro horas. A chuva não desistia de cair. Um temporal imenso que não me possibilitava nem mesmo tentar a sorte pela rua afora.
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Sem muitas opções, cansei-me de ficar sozinho no escuro lutando contra o tédio interminável. Desci até a garagem. Eu, um pequeno pinscher e um ótimo vira-lata que me esperava ao lado de fora. Tenho bastante curiosidade para saber o que na verdade os cães pensam.
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Image by Tap Tapzz
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Abri a porta e sentei-me no banco do motorista. Liguei o som. Os animais estavam frenéticos, admirando um mundo novo e inacessível, intitulado automóvel, e eu apenas buscando uma chance para me entreter.
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Frases bem escritas tocavam meu coração ao mesmo tempo em que tentava, imaginava e buscava uma forma para dar vida aos meus sonhos.  Conseguia enxergá-la claramente, mas nunca ao meu lado. É impossível lutar quando não temos mais esperanças. Onde você estava enquanto tentávamos invadir o infinito?
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Image by Ricardo Ledesma
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Gostaria que adentrassem minha alma uma única vez para que pudessem sentir, viver e sonhar tudo aquilo que quero, mas não encontro um meio de fazer com que percebam minhas verdadeiras intenções. Podemos ser heróis por apenas um dia. Mais uma vez escuto a sua voz. Seria ótimo poder controlar minhas emoções. Quando isso acontecer sei que o seu sorriso me levará ao fracasso total.
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Desligo o som. Um remédio para mim, porfavor. Levanto-me e fecho lentamente a porta do carro. Meus companheiros me seguem incansavelmente. Olho para a lua somente uma única vez. Entro e me deito na cama. Acabo de me dar conta que já está na hora de acordar.

O primeiro e último encontro

O sol escaldante me fazia desistir de todos os meus planos. Era um belo, mas, ao mesmo tempo, ocioso dia. Alguns inimigos haviam dado as caras e me recordado que, dependendo da situação, o dia seguinte pode não mais existir. Comecei a prestar mais atenção ao movimento nas ruas e percebi que não vale nem um pouco a pena perder tempo se preocupando.
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Quando desci do ônibus, me dei conta que o ar estava diferente. Pesado e rarefeito. Talvez um reflexo de minha alma. Perdi alguns minutos olhando o céu e depois mais alguns outros observando as garotas que se exercitavam na academia em frente ao ponto. Não importa qual seja a situação, o instinto masculino sempre prevalece.

Image by Topher i

Parei em um daqueles decadentes bares e perdi um bom tempo jogando conversa fora, mas a cerveja já não descia mais com o mesmo gosto. Tentava descobrir o que estava errado. Em um esforço sem igual, concentrei-me ao máximo para encontrar o problema. Foi uma tentativa inútil. Dei o último gole. Uma navalha parecia cortar minha garganta. Sábia que era tudo obra de minha mente, mas o sabor do sangue me despertou.

Corri e corri pela rua atrás de algo que nem sabia o que era. Feliz e atordoado, pensando em como faria para sentir aquela sensação novamente. De repente visualizei um grande lampejo de luz e pude ver aquele rosto nitidamente. Era incrível. O mundo parecia melhor por um breve momento. O tempo parou por um segundo. Ouvi uma grande freada e vários gritos de desespero. Quando me virei, só pude ver o capô do carro se aproximando. O barulho do impacto foi muito maior que a dor que deveria ter sentido. Voei como um pássaro em queda livre. Rolei pelo chão por uma quinzena de metros e parei encostado na sarjeta como um bêbado em busca de um sono tranquilo.

Image by Axel Naud

Agora podia sentir o verdadeiro gosto do sangue. Dessa vez não era tão saboroso assim. A garota desceu do carro em um desespero sem igual. Chorava e, apesar do choro, conseguia manter a sua incompreensível beleza. Não podia acreditar no que meus olhos viam. Era única. Nunca havia visto nada assim tão lindo. Ela me abraçou olhando para o sangue que escorria em meu rosto. A adversidade da situação fez com aquele fosse o abraço mais sincero que já pude receber.

Sentia frio, mas estava feliz por poder estar junto dela ao menos uma vez. A dor, curiosamente, nunca chegou. Suas lágrimas pingavam em meu rosto. Agradeci pelo gesto. Sacrifiquei-me para pensar em algo bom a dizer, mas aquele não era mesmo um bom momento para tentar uma cantada. Os seus olhos brilharam mais uma vez. Aos poucos fui perdendo um a um os meus sentidos. Ouvir? A audição era apenas uma leve lembrança. Parei um minuto para pensar e desejei que tudo tivesse sido diferente. Queria tê-la conhecido em outra situação. Foi um enorme desperdício. Era extremamente difícil me mexer, mas consegui segurar suas pequenas mãos de fada. Aos poucos, fui fechando os olhos para nunca mais abri-los.