Feriado prolongado

O cigarro passava de mão em mão enquanto percorríamos a estrada. A cerveja no porta copos a minha direita era uma ótima saída para acompanhar a conversa. Como sempre, estava no banco do passageiro fazendo a seleção musical e organizando alguns pensamentos. Plastic Zoo, mais uma vez, assim como eu, continuava em seu lugar habitual: no rádio a um volume considerável e empolgante. Havíamos comprado mantimentos, planejado os eventos posteriores e ansiávamos por um feriado promissor.
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Já estávamos quase a uma hora na estrada quando problemas não esperados passaram a acontecer. O carro apresentou falhas e ameaçava desligar a qualquer momento. Olhamos o painel e percebendo o quanto tínhamos sido estúpidos, pois não paramos para abastecer. Não colocar combustível foi apenas uma das inúmeras idiotices as quais nos sujeitamos. Também nos demos conta de que o ar condicionado estava acionando durante todo o trajeto, consequentemente, gastando o combustível, que não tínhamos, ainda mais rápido.
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Image by Kuster & Wildhaber Photography
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Não preciso me aprofundar na forma como ficamos apreensivos. Love Don’t Love Nobody fazia a trilha sonora do desespero ao mesmo tempo em que pedíamos aos céus para que um posto de gasolina surgisse a qualquer momento. Obviamente, em um certo ponto, o automóvel falharia para não mais funcionar e, claro, isso aconteceu.
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Estávamos na segunda faixa da esquerda e atravessamos até o acostamento, passando por duas faixas relativamente movimentadas e com o motor completamente desligado. Uma boa manobra de nosso motorista. Tivemos um pouco de sorte e conseguimos estacionar exatamente no ponto no qual havia um telefone de socorro. Ligamos o pisca-alerta e fui incumbido de  pedir ajuda. Quando me postei em frente ao telefone, enxerguei apenas uma grade amarela. Não havia números, gancho e nada que fosse semelhante a um aparelho de telefone normal. Simplesmente não sabia o que fazer e acabei desistindo. Pensando melhor, era possível perceber que minha sanidade não andava 100% aquela altura. Mais uma burrice para completar a noite. Olhei as estrelas e conclui que, realmente, o amor não amava ninguém.
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image by Andrew Hill
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Coloquei os pensamentos em ordem e decidi usar o cérebro para algo útil. Telefonei para o 102 e consegui o número da administradora da estrada daquela região. Expliquei-lhes a situação e consegui que mandassem uma rota para averiguar o que havia acontecido. Quando fui avisar que algo bom tinha, finalmente, ocorrido, vi meu companheiro conversando com a grade amarela. Ele, ao contrário de mim, conseguiu usar o telefone de alguma forma que eu não podia entender. Assim que terminou, supliquei para que me mostrasse como utilizá-lo e ele me indicou um gigante botão vermelho que ficava logo abaixo da grade. Ainda não sei como não consegui vê-lo. Já tinha ouvido dizer que o álcool podia nos deixar cego, mas pensava que era a longo prazo. Enfim, existia, agora, dois pedidos de socorro para o mesmo local.
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Aguardamos cerca de dez minutos até que a ajuda chegasse.  Um socorro bastante eficiente, pois pensava que ficaríamos esperando por algumas horas. A rota levou meu amigo até o posto mais próximo para que nosso pequeno problema fosse solucionado. Tive que aguardar ao lado do veículo até que retornassem.  Depois de mais alguns minutos um caminhão guincho se aproximou e parou em frente ao carro. “Meu Deus! E agora?” Não podíamos levar o carro, porque logo, logo retornariam com o combustível e estaríamos prontos para partir. Expliquei isso ao funcionário, mas ele já sabia do problema. Disse apenas que não poderia me deixar esperando sozinho já que estávamos em uma área de risco. Pelo rádio, avisou a rota que nos encontraríamos todos no próximo posto. Colocar o carro no caminhão foi mais um dos doze trabalhos de Hércules. Eram muitos botões e mecanismos para uma pessoa no estado que me encontrava, porém, com um pouco de concentração, tudo correu razoavelmente bem.
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Image by Giorgio Galeotti
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O posto de gasolina mais próximo encontrava-se, para nossa sorte, ou azar, a apenas três ou quatro curvas adiante. A rota estava lá e o caminhão guincho se aproximou. Descemos o automóvel e colocamos a sagrada gasolina. O carro voltou a funcionar e decidimos partir. Não tivemos que desembolsar um centavo sequer. O pedágio custara apenas R$ 2,40. Um serviço de qualidade! Agradecemos e recomeçamos a viagem pensado que tudo seria diferente dali para a frente.
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A neblina estava um pouco acentuada durante a serra, mas tudo parecia andar bem. Parecia. De repente, freadas bruscas, carros fugindo pela contra mão e um risco eminente de engavetamento. O exímio motorista jogou o carro para esquerda e desviou-nos do perigo. Foi um susto inesperado, que voltou a nos atormentar mais duas vezes, e da mesma forma, durante o caminho. Ainda tenho minhas duvidas sobre o que realmente aconteceu, mas quero acreditar que o condutor não foi negligente em nenhuma delas. De qualquer forma, não estava nas condições ideais para analisar a situação com a profundidade necessária.
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Imagem de Andreia
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Após alguns contratempos, conseguimos chegar, inteiros, até o litoral. Estávamos agradecidos por ter superado todos os obstáculos. O sacrifício havia valido a pena e agora tínhamos quatro dias livres pela frente. Sossego, festas e diversão.  Mais um cigarro foi aceso antes de fugirmos para o descanso final.
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No dia seguinte, assim que levantei, lembrei-me da noite anterior e fui até a varanda para analisar o clima. Estava otimista, mas obtive uma imensa decepção. O céu estava nublado, o tempo chuvoso e a temperatura abaixo dos dezessete graus. Não era nada do que estávamos esperando. Não mesmo. E assim continuou até o fim do feriado.

Algumas voltas a mais pelo quarteirão

Conversando com um amigo, pensava nas possibilidades que teria para o próximo ano. Não eram muitas, mas as imaginava infinitas. Garrafas de cerveja ao meu lado esquerdo e o copo sempre cheio à direita. A cada gole, trocava-o de lugar. Faço isso sempre. Não sei o porquê, mas é um ritual que pratico com afinco.

Um foco de luz vinha da rua. Era o único poste da avenida com iluminação. Parado, olhando em sua direção, comecei a lembrar das pessoas importantes que passaram pela minha vida. Algumas bastante especiais e que, sem alguma razão concreta, acabei perdendo contato. O dia a dia e os “compromissos” que julgava serem essenciais me fizeram deixar verdadeiros amigos para depois. Por que o ser humano é assim? Algumas vezes tento, mas mudar o mundo parece ser uma tarefa impossível.

Image by DammitKarissa

A luz do poste iluminava meus pensamentos e voltei para casa decidido a rever ótimas companhias. As ruas vazias da madrugada nunca foram tão boas para dirigir. A música tocava no último volume. Black Crowes nunca havia soado tão bem. Uma viagem de cinco minutos se transformou em cinquenta. Passei diversas vezes na frente de minha casa, mas continuei a dar voltas e voltas no quarteirão apenas para continuar ouvindo. Quando o último acorde tocou, abri o portão e desliguei o rádio.

Meu cachorro me esperava. Estava feliz e retribui sua alegria com carinhos. O volume alto havia afetado minha audição por um breve momento. Não ouvia mais nada. Sentei-me. Eu e o cão em uma casinha de cachorro. Fiquei lá por mais alguns minutos apreciando a beleza das noites de verão.

O sono me pegou de surpresa, então resolvi entrar. Despedi-me de meu escudeiro e subi, com cuidado, as escadas. Sozinho, dava-me conta que era prazeroso viver.