Eu só fazia chorar

É engraçado como algumas pessoas te conquistam
E você nem percebe
Trejeitos
Assuntos em comum
Ideias que você não compartilha com mais ninguém
Mas naquele instante do universo
Aquela pessoa está ali
Para falar tudo que você já sabia
E não tinha encontrado ninguém pra compartilhar

O sotaque era maravilhoso
Lindo
Falava, falava
E era impressionante ouvir sua voz
De repente
“Eu só fazia chorar”
“Eu só fazia chorar”
Foi uma das frases mais tocantes que já ouvi na vida

Simples
Mas dizia tudo

Era a segunda vez que te via
E foi tão espontâneo como da primeira
Algumas almas são compatíveis
As nossas eram assim
No meio de milhões
Conseguimos nos conectar

Então
Realiza o que está a te acontecer
E não deixa essa chance escapar

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Imagem: Axel Naud

O primeiro e último encontro

O sol escaldante me fazia desistir de todos os meus planos. Era um belo, mas, ao mesmo tempo, ocioso dia. Alguns inimigos haviam dado as caras e me recordado que, dependendo da situação, o dia seguinte pode não mais existir. Comecei a prestar mais atenção ao movimento nas ruas e percebi que não vale nem um pouco a pena perder tempo se preocupando.
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Quando desci do ônibus, me dei conta que o ar estava diferente. Pesado e rarefeito. Talvez um reflexo de minha alma. Perdi alguns minutos olhando o céu e depois mais alguns outros observando as garotas que se exercitavam na academia em frente ao ponto. Não importa qual seja a situação, o instinto masculino sempre prevalece.

Image by Topher i

Parei em um daqueles decadentes bares e perdi um bom tempo jogando conversa fora, mas a cerveja já não descia mais com o mesmo gosto. Tentava descobrir o que estava errado. Em um esforço sem igual, concentrei-me ao máximo para encontrar o problema. Foi uma tentativa inútil. Dei o último gole. Uma navalha parecia cortar minha garganta. Sábia que era tudo obra de minha mente, mas o sabor do sangue me despertou.

Corri e corri pela rua atrás de algo que nem sabia o que era. Feliz e atordoado, pensando em como faria para sentir aquela sensação novamente. De repente visualizei um grande lampejo de luz e pude ver aquele rosto nitidamente. Era incrível. O mundo parecia melhor por um breve momento. O tempo parou por um segundo. Ouvi uma grande freada e vários gritos de desespero. Quando me virei, só pude ver o capô do carro se aproximando. O barulho do impacto foi muito maior que a dor que deveria ter sentido. Voei como um pássaro em queda livre. Rolei pelo chão por uma quinzena de metros e parei encostado na sarjeta como um bêbado em busca de um sono tranquilo.

Image by Axel Naud

Agora podia sentir o verdadeiro gosto do sangue. Dessa vez não era tão saboroso assim. A garota desceu do carro em um desespero sem igual. Chorava e, apesar do choro, conseguia manter a sua incompreensível beleza. Não podia acreditar no que meus olhos viam. Era única. Nunca havia visto nada assim tão lindo. Ela me abraçou olhando para o sangue que escorria em meu rosto. A adversidade da situação fez com aquele fosse o abraço mais sincero que já pude receber.

Sentia frio, mas estava feliz por poder estar junto dela ao menos uma vez. A dor, curiosamente, nunca chegou. Suas lágrimas pingavam em meu rosto. Agradeci pelo gesto. Sacrifiquei-me para pensar em algo bom a dizer, mas aquele não era mesmo um bom momento para tentar uma cantada. Os seus olhos brilharam mais uma vez. Aos poucos fui perdendo um a um os meus sentidos. Ouvir? A audição era apenas uma leve lembrança. Parei um minuto para pensar e desejei que tudo tivesse sido diferente. Queria tê-la conhecido em outra situação. Foi um enorme desperdício. Era extremamente difícil me mexer, mas consegui segurar suas pequenas mãos de fada. Aos poucos, fui fechando os olhos para nunca mais abri-los.

Valores

É engraçado como conseguimos desenvolver características que são excelentes em decepcionar as pessoas que dormem sozinhas no quarto ao lado. Palavras, gestos e atitudes impensadas que fazem nossos parceiros esquecerem quem realmente somos e pararem para analisar em que momento de suas vidas penetraram as fortalezas do erro.

Foi triste quando fiz aqueles que amava chorarem, mas foi ainda pior quando minhas lágrimas caíram por culpa de outra pessoa.

Tento olhar o mundo de uma outra forma e cada vez fico mais convencido que não temos mais esperanças.  Nossos desejos já não valem nada, exatamente como aquela ferida sangrando na pata dianteira esquerda do frágil cão abandonado.  Quando foi que o ser humano passou a ser tão insensível?

Pais, mães, irmãos, irmãs, avós e tios. Esse tipo de vida já não importa mais.