Dia de fúria

Você está acordado? Hein? BAM, BAM, BAM! Levante-se! Você precisa ir ao banco. Depois ao supermercado. Aproveite que você está de pé e faça um telefonema para mim, por favor. Desça e dê remédio para o cachorro. Leve sua irmã para a recuperação. Pague as contas. Faça um resgate. Resolva os problemas com os inquilinos. Ligue para a Sabesp. Fale com o seguro. Contrate uma cuidadora de idosos confiável. Vá buscar os exames da sua avó. Vá para a faculdade. Vá consertar o carro. Vá trabalhar. Vá tomar no cú! Viver, algumas vezes, é uma puta encheção de saco.

Mal acordo e já me impõem quarenta e oito tarefas imprescindíveis como se eu não soubesse mais quais são minhas verdadeiras obrigações. Essa chuva de lamentações e ordens antes mesmo que eu tenha tempo de ir ao banheiro, urinar, lavar o rosto e refletir um pouco sobre outro dia que começa. Claro, você fica bem puto! “Você acordou de mau humor hoje, hein?” Para não ter que ofender e hostilizar as pessoas que estão a minha volta, acabo guardando todos os insultos comigo.

Image by Martin Fisch

Tomo um copo de leite e coloco Be Here Now para tocar. Vou para o banho. O ralo está entupido. A água demora a descer e uma grande poça cheia de água e sabão molha toda a superfície do box e mais um pouco do banheiro. Seco-me, visto as roupas, pego a chave do carro e vou para a garagem. Olho o automóvel e lembro-me que ele está batido. Um prejuízo de R$ 3.000,00. Abro a porta amassada, entro e dou a partida. O dever me chama. Continuo puto!

Chegando a clínica, um gordo simpático me atende muito bem. Faz o seu trabalho e me pede para aguardar. Tento ser paciente e educadamente vou me sentar ao lado do bebedouro. Dez minutos, vinte minutos, vinte e cinco. O gordo retorna.

– Senhor, estamos com um pequeno problema, mas já estou resolvendo seu caso. Logo, logo terei uma resposta. Parece que um dos exames extraviou.
– Extraviou? – A veia do pescoço pulsa bastante visível a olho nu. – E quanto tempo deve demorar?
– Não tenho certeza, senhor.
– Tudo bem! – O pulso ainda pulsa! – Irei resolver algumas coisas e mais tarde passo aqui para pegar.

Imagem de Gabriel Rosa

Não digo adeus nem bom dia, apenas vou-me embora. Parto para o banco. Não há nenhum lugar para estacionar. Deixo o carro em local proibido com o pisca alerta ligado. A fila é grande. Havia me esquecido que era dia de pagamento. Os caixas lotados fazem-me esperar mais uma vez. Aguardo e então uso um caixa eletrônico para pagar as contas e fazer um saque. Água, luz, TV a cabo, plano de saúde, escola, faculdade, clube, internet, gás etc… Meu Deus! Não me lembro de alguma vez terem me enviado algum dinheiro pelo Correios, mas contas, essas sim, não cessam nunca de chegar.

Saio do banco e agradeço aos céus por não ter tomado nenhuma multa. Mais uma hora se foi. Dirijo-me ao supermercado. Está cheio. Paro o carro em frente a cancela. O segurança me olha intrigado e pensa que “mais um babaca bateu o carro e terá de descer do veículo para pegar seu tíquete.” Ele apenas sorri. E eu, como mais um idiota com o carro batido, puxo o freio de mão, abro a porta, saio, pego o tíquete e a cancela se abre. Volto para o carro e estaciono. Procuro por algum carrinho, mas não vejo absolutamente nenhum. Será que havia esquecido que era o dia mundial de fazer compras? Após aguardar alguns minutos, vejo uma funcionária empurrando um carrinho vazio. Tento chamá-la.

Image by Rick Harris

– Senhora! – Ela não ouve.
– Senhora, por favor! – Falo um pouco mais alto, mas ela continua a empurrar.
– Minha senhora, por favor, eu preciso desse carrinho! – Mesmo gritando, ela não escuta.
Ela larga o carrinho no compartimento reservado e volta para terminar suas obrigações. Esbravejo:
– PUTA QUE O PARIU!!! – A pequena senhora olha para trás com o rosto assustado. Dessa vez você ouviu, hein? Não diz nada, pensa um pouco e se vai.

Tentei ser educado várias vezes e não adiantou. Tudo bem, admito, eu estava errado. Eram apenas 9h53 da manhã e a idosa trabalhadora já havia ouvido um belo xingamento logo no início do dia. Talvez ela também fosse passar por uma jornada difícil.

Image by David Robert Bliwas

Subindo a pequena passarela, avisto um casal. A garota é linda. Eles se beijam, se abraçam e riem. Posso ver em seus olhos. Ela o ama. Sinto uma ponta de inveja e percebo o quanto sou egoísta. Não amava profundamente ninguém há mais de dois anos. Havia dispensado duas lindas mulheres que realmente queriam estar ao meu lado e agora esperava um amor irreconhecível? Nunca estar satisfeito é um dos maiores problemas da consciência humana. Continuo andando e parto para as compras. Namorar por conformismo nunca será uma opção.

Frutas, carnes, congelados, produtos de limpeza, álcool, besteiras. Mais uma hora se foi. Espero na fila para pagar. Está bastante grande. Mais uma quinzena de minutos perdida. Passo o cartão, vou para o carro, guardo as compras e dou a partida. Chego na cancela e mais uma vez o idiota precisa descer do automóvel para liberar a passagem.O segurança novamente sorri. Fico ainda mais puto.

Sigo direto para a clínica. Paro o carro em frente a entrada principal e vou verificar se o exame restante, finalmente, ficou pronto. O gordo imbecil continua lá. Ele e seu sorriso contagiante estampado na face. Olha para os lados, me vê e suspira. Lá vem merda!

Image by Greater Louisville Medical Society

– Senhor, conversei com os responsáveis, mas o exame continua em análise. A previsão é que fique pronto por volta das três da tarde. – Olho para o céu. Vejo apenas um teto imundo e respiro. Acho que minha artéria vai explodir.
– Está certo, volto depois. – Não havia cordialidade alguma em minha voz. Eu não tinha esse tempo disponível.

Outra vez vou-me embora. Não digo até logo nem mesmo boa tarde. Entro novamente no veículo e ligo para minha irmã.  Uma voz nunca ouvida antes me dá as boas vindas.

– Alô! Alô – Analiso. É uma versão homossexual do Patolino.
– Chame a minha irmã, por favor! – Estava sério.
– Beleza, peraê! – Concluo que o personagem infantil gay é mais uma grande sátira da vida.
– Alô! – Ela para e ri um pouco, enquanto faço uma boa piada sobre seu amigo.
– Vá para frente da escola, que daqui a pouco estou por ai para te pegar! Tchau.

Image by Fe Ilya

Dirijo-me até o colégio. Minha irmã vê o carro passando e se despede de todos. Ela está linda como sempre. Tem apenas quatorze. Mais alguns anos e terei problemas. As mulheres mais bonitas fazem questão de estarem sempre com os homens mais idiotas. É uma regra social que dificilmente é quebrada. Cedo ou tarde ela aprenderia. Lágrimas e revoltas. A porcaria inconfundível da adolescência. Ela entra e voltamos ao lar.

Almoço, pego minhas coisas e vou para o trabalho. Dessa vez o trajeto será percorrido de ônibus. O calor infernal derrete minha alma. Dou o sinal e entro. Está lotado. Nenhum lugar para sentar. Esbarro em muitos e peço desculpa a cada nova curva. Notas do subterrâneo continua guardado na mochila. Ler em pé é um dos novos desafios metropolitanos. Ainda puto!

Chego ao destino. Cumprimento todos e dou um rápido telefona. Preciso ser rápido e partir. Devo entrevistar um homem no vigésimo sétimo andar de um prédio a algumas quadras de distância. Não estou com saco nenhum para descobrir, conhecer e desvendar gente nova. Ossos do ofício e eu preciso cumpri-los.

Image by Jalal Hameed Bhatti

Estou suando. Continuo a correr. Apolo ri da minha cara. Entro e pego o elevador. Subo, penso, reflito, viajo. O elevador continua a subir. Saio, agradeço a ascensorista e apresento-me ao entrevistado. Conversamos. Faço anotações. Pergunto. Tiro fotos. Ele continua a falar. O tempo passa. Ele tagarela, eu escrevo. A entrevista termina. Despeço-me e vou embora. Quando chego até a rua, recebo uma linda surpresa. Está chovendo. São Paulo, A Cidade da Garoa, pegue seu guarda chuva e sorria. É apenas um chuvisco. Decido continuar. Decisão errada. No meio do caminho, o chuvisco torna-se um temporal gigantesco.Praticamente um dilúvio. Chuva vinda de cima, de lado, de frente, de baixo. Maldito verão! Estou ensopado. A água corre, os sapatos parecem duas pranchas de surfe. Espero embaixo de um toldo de um boteco nojento recheado de alcoólatras e prostitutas. A chuva dá trégua e volto para o trabalho.

Encharcado, paro no oitavo andar, no qual fica a enfermaria, para pedir qualquer remédio contra gripe ou resfriado. Quer ouvir a novidade? Eles não têm esse tipo de medicamento. Enfermaria? Afinal, que grande merda era aquela? O ar condicionado iria acabar com todas as minhas defesas. Resumindo, eu estava completamente fodido. Iria adoecer. Pela primeira vez compreendi o verdadeiro ódio de Michael Douglas. Estava muito, mas muito puto. Era um dia de fúria!

Continuo com meu serviço. Não houve mais novidades. Termino minhas obrigações. A cidade está inundada. José Luiz Datena delira! É um ótimo dia para o sensacionalismo. Vou até a copa. O chá acabou. Não quero café. Volto de mãos abanando. Pego minhas coisas. Está anoitecendo.  Despeço-me de todos e vou para o ponto.

Image by stooart

A chuva continua. O ônibus demora a chegar como nunca demorara antes. O trânsito é memorável. Sento-me. Impaciente, esqueço-me de viver. Não consigo mais contar as horas. Finalmente consigo chegar em casa. Minha bunda parece um cubo! Converso com os cães. Pelo menos meus fieis amigos de quatro patas não possuem nenhuma crítica a fazer. Subo as escadas. Tiro as roupas molhadas e jogo tudo pelos ares. A meia gruda na parede. Recordo que me esqueci de passar na farmácia. Fico, outra vez, puto. Deito-me exausto na cama. Ligo a TV. Desisto. A vida venceu.

Rock and roll suicide

Fazia tempo que não chovia tanto. Há 45 dias a água caía sem trégua e vários pontos da cidade estavam alagados, infestados pelo caos e sem nenhum sinal de energia elétrica. O relógio batia 4:15 da madrugada quando os gritos de choro foram ouvidos. Em uma noite conturbada de uma grande metrópole, nascia uma das maiores estrelas que o país teve a chance de ver.
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Era loiro, saudável, com olhos castanhos claros e muito, mas muito, esperto para uma criança que acabara de nascer. O tempo provaria que algo notável para o mundo havia acontecido aquele dia.
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Image by J N
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Cresceu como uma criança feliz e travessa, rodeado de amigos e com idéias fascinantes que o tornavam líder em todas as atividades e brincadeiras que fazia questão de exercer. Não que tivesse real intenção em sê-lo, mas o posto lhe agradava o suficiente para permanecer sempre a seu cargo e continuou a comandá-lo por todos os círculos de amizade que frequentava, também nas escolas e em qualquer lugar no qual estivesse presente.
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Seus primeiros dotes musicais foram postos a prova quando ganhou o violão que pertencia a um falecido tio. Com alguns dias de prática, descobriu, sem nunca ter encostado em um instrumento antes, que a música fazia parte, agora, de sua vida e nunca mais o deixaria sozinho. Passou a escutar tudo o que lhe agradava e o fascinante mundo do rock and roll penetrou em seus interesses como um caminho seguro, misterioso, descontrolado e obsessivo pelo qual não podia mais se esquivar.
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Image by Natasia Causse
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Com os anos passou a estudar com afinco guitarra e piano e logo, logo já estava compondo suas primeiras canções. Era um aficionado por música, mas as bandas nacionais nunca conseguiram lhe tocar muito. Cazuza e Secos e Molhados eram grandes exceções que realmente o inspiravam, mas possuía um ódio mortal por Renato Russo e sua Legião Urbana. Simplesmente não suportava ícones que atravessavam a fronteira das notas e tentavam de alguma forma mudar o mundo com letras “cabeças” e discursos inflamados. Seus fãs, algumas vezes, também eram insuportáveis. O que realmente lhe interessava era aproveitar a diversão, felicidade e sucesso que tudo aquilo poderia, ou acabava, por trazer.
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Nunca fora o mais belo e esbelto nas classes onde estudou ou nas bandas que começou a tocar, mas tinha uma aura mágica que atraía, sempre, a libido feminina. Nunca se interessou em procurar o verdadeiro amor, mas isso nunca o impediu de estar frequentemente acompanhado. Era um romântico nato e suas músicas faziam qualquer mulher se apaixonar, mesmo que por alguns pequenos instantes. Foi também no final da adolescência que passou a experimentar diferentes tipos de drogas, legais e ilegais, e mergulhou de cabeça no velho jargão “sexo, drogas e rock ‘n’roll” que seus ídolos faziam questão em seguir. Essa nova descoberta passou a acompanhá-lo sempre a partir de então. As sensações diferentes e distorcidas da realidade lhe agradaram desde o começo e a obsessão por novas experiências o motivaram a viajar por este caminho cada vez mais.
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disco
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Suas músicas começavam a se destacar e seu nome passou ser conhecido, não porque se esforçava para que isso acontecesse, mas pela sinceridade com que retrava aquilo que pensava, sentia ou procurava. Seu talento musical foi essencial para criar um leque de canções que ficariam guardados na história. Depois do primeiro contrato, uma bomba destruiu o cenário musical brasileiro e apenas um nome passou a guiar o público. A massa gritava, clamava, comprava e usufruía tudo a seu respeito. O resto das bandas e artistas aproveitaram a cratera criada e o novo cenário que surgia para seguirem o seu encalço. Isso fez com que grandes nomes surgissem e selassem de vez o novo movimento.
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No segundo álbum, as festas e orgias eram cada vez maiores e o uso frequente de entorpecentes começou a dominar sua vida. Nessa época, se envolveu com os tipos mais estranhos e incomuns de pessoas que rodeavam o mainstream.  Ficava cada vez mais cansado e incontrolável, mas isso não atrapalhava nem um pouco sua criatividade artística. Assim, nesse mundo impensável para as pessoas normais como nós, conheceu a estilista mais famosa do país. Era tão nova quanto ele e bela como jamais havia visto. Tão linda que mesmo se juntasse os melhores atributos de todas as mulheres que já havia dormido, e não eram poucas, não reatraria de forma fiel tamanha beleza. Ela também tinha uma queda fantástica por festas e diversão incontrolável.  As drogas eram grande companheira em comum, porém ela podia entregar-se ocasionalmente e voltar toda vez que quisesse, ou precisasse, à realidade. Passaram a viver um romance conturbando e perturbador. Os dois se amaram como nenhum outro casal e pela primeira vez nosso protagonista podia sentir a indescritível felicidade de um amor sincero e verdadeiro. Suas obras posteriores ganharam um novo brilho e, claro, mais sucesso, dinheiro, drogas e diversão acompanharam a avalanche.
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Image by Luca Serazzi
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Mas sua vida não fora sempre felicidade e satisfação. O imenso sucesso, o gigantesco orgulho e o incontestável instinto de liderança começaram a afetar suas relações pessoais e, mesmo que tentasse, não conseguia mais mudar sua nova essência, pois, agora, o mundo estava em suas mãos. Brigou com tudo e com todos. A depressão se tornou uma visita constante e as drogas, que nunca o deixaram, mostraram-se seu único amigo. Sua vida de diversão e loucura continuou, mesmo que estivesse sozinho. A autodestruição era uma estrada que não se importava nem um pouco em seguir e que esteve presente em todos os momentos de sua vida, mas que somente agora se mostrava visível.
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Sua amada não podia aguentar todo esse ódio em um mundo caótico e suicida.  Viver lado a lado com tamanho sofrimento tornou-se insuportável. Ela fez tudo o que estava ao seu alcance para tentar impedi-lo, mas o seu ego monstruoso e, principalmente, o gigantesco amor próprio eram muito maiores do que qualquer amor que já tivesse sentido. O seu orgulho e egoísmo o fizeram deixar para trás a única mulher que realmente amou. Era a única pessoa que realmente se importava com tudo o que acontecia ao seu redor e seus conselhos sempre foram sinceros e verdadeiros. Ele tinha clara consciência disso e que, apesar dos grandes empecilhos, ela o amava desesperadamente. Ele sabia, mas simplesmente não podia mais conviver assim e abandonar o que pensava ser sua verdadeira “felicidade”.
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Image by Kazi Agaz
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Em meio a uma chuva de lágrimas e sofrimento, compôs mais um disco que, novamente, foi aclamado por público e crítica. Porém a essa altura nada mais importava. Nem o sucesso e o glamour de um grande astro. Não tinha mais amigos. Não tinha condições de viver ao lado de seu grande amor. Não tinha absolutamente mais nada nem ninguém. E mesmo que tivesse mais dinheiro que pudesse gastar, nada mais o fazia feliz. Mergulhou, então, em um mundo privado cheio de solidão e infelicidade que apenas ele poderia explicar. Suas aparições em público se tornaram raras e, pela primeira vez em toda a sua vida, deixou de escrever e tocar. Algo estava muito errado e finalmente ele percebia isso, mas talvez fosse tarde demais ou simplesmente não se importava se a essa altura chegaria a voltar ao mundo real. Ficou extremamente recluso. A cada nova overdose ou crise psicótica que era relatada pela mídia e declarada pelos diversos hospitais pelo qual passou a frequentar, ficava claro que logo, logo uma tragédia aconteceria.
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Quando o mundo noticiou sua terrível morte, enclausurado, sozinho e abandonado em sua banheira a mais de três dias, o país chorou em uníssono. Ninguém, nem mesmo ele, poderia imaginar o quanto era idolatrado e amado pelas pessoas. Muitas nem mesmo acompanhavam o seu trabalho, mas o seu carisma e todas as histórias que o perseguiam, o tornavam um ser mítico e intocável. O enterro foi televisionado e diversos artistas e pessoas que o conheceram verdadeiramente prestaram suas homenagens. O Brasil havia perdido um eterno ícone e uma mente brilhante, mas ninguém podia e queria carregar toda essa culpa. Apenas o seu imenso ego e o sucesso incontrolável justificavam que a sua mente suicida e a simpatia pela autodestruição o levassem a tal, porém os motivos não importavam mais.
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Hoje, e sempre, fica claro que ele jamais será esquecido. A partir de agora só nos resta olhar para o céu e perceber que uma nova estrela passou a brilhar.

Enquanto você dormia

Não saberia explicar o que ele fazia ali parado durante tanto tempo, imóvel e olhando para o mesmo lugar há horas. Também não poderia explicar o que fazia eu, aqui, imóvel, olhando para ele há um bom tempo. Alguma razão para estes atos deveria existir, para ele ou para mim, só que ainda não havíamos descoberto qual era.
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Um mendigo sujo, fétido e, ao que parecia, extremamente louco e atento ao que estava acontecendo dentro de sua mente. Com um cobertor imundo nas mãos e apenas uma bermuda cobrindo o corpo, se divertia sozinho e ria do que somente ele poderia explicar. Já eu, um jovem “rico”, limpo, bem vestido e, ao que me lembrava, aparentemente sóbrio o bastante para não me entreter com tudo aquilo, perguntava-me o que estávamos realmente fazendo. Seria melhor parar um segundo para refletir se o louco era ele ou eu, afinal.
.Image by Craig Sunter.
Quando levantei, atravessei o portão em passos lentos e me dirigi à rua. O chão estava coberto de lama e meus sapatos brancos, completamente sujos. No momento que voltei os olhos a um ponto fixo a minha frente, senti um vulto se aproximar em um movimento extremamente rápido. Sem esforço algum já havia me jogado ao chão. Levantei-me como um raio, mas fui nocauteado na mesma intensidade. Estava tudo muito claro e, por mais que abrisse os olhos, nada podia ver. Quando finalmente minha visão retornou, trouxe consigo uma dor incrivelmente forte em meu maxilar. Percebi que o sangue escorria por lábios, enquanto me arrastava pela lama tentando entender o que estava acontecendo. Não fazia a mínima idéia sobre o que havia me atingindo, mas somente um tolo não perceberia que as coisas já não andavam bem.
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Enquanto meu estado de consciência voltava ao normal, pude ver que o mendigo, já não mais imóvel, era o meu algoz. Mais um impacto estrondoso em minhas costelas e deitei-me ao solo para gemer e cuspir o resto de sangue que, agora, me inundava a boca. Meu companheiro sorria como um inocente menino e possuía uma pequena faca nas mãos. Seus dentes eram de ouro e, apesar do ato hostil, não senti raiva ou maldade em suas intenções, mas isso não fazia minha dor diminuir. Esforcei-me para tentar fugir, porém um olhar inóspito do inimigo me paralisou. Não havia nada nem ninguém, apenas uma força invisível que me impedia de mover até mesmo os dedos dos pés.
.Image by matt hannah.
Com as costas no chão, senti os pingos da chuva começarem a cair. Ele se aproximou e se ajoelhou próximo ao meu tronco. Proferiu palavras que não podia entender e apunhalou meu estomago com a arma. A dor não veio, mas um pavor intenso dominou meus pensamentos. Seria esse o fim? Enquanto abria meu corpo e arrancava, um a um, meus órgãos, pensava nos amores que havia deixado para trás, nos amigos e familiares que jamais voltaria a ver e no tempo perdido em vão.
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Meu coração já estava em suas mãos e minha vida já não me pertencia mais. Pingava e batia mesmo estando fora do corpo. Ele se levantou com o órgão em sua mão direita e, simplesmente, deixou os restos ali ao meu lado. Por que? Talvez para que antes da morte tivesse o prazer de entender que, apesar de tudo, por dentro, somos todos iguais. Apenas sangue e carne. Antes de ir embora, jogou seu cobertor sobre meu corpo e se despediu. Dobrou a esquina enquanto o temporal caía. “Adeus” foi a única palavra que realmente pude compreender.
.Image by Jim Bauer.
Fazendo minhas últimas reflexões, minha visão ficava cada vez mais turva e escura. O sangue e as gotas da chuva davam-me uma leve sensação de bem estar. Não pensava mais em arrependimentos e, muito menos, no que poderia, um dia, ter feito. O último desejo era que pudesse ver seu rosto uma última vez. Tudo escureceu e me despedi do mundo pensando nela.