Beautiful girl

É incrível o poder que a música tem de transformar situações banais do dia a dia em memórias inesquecíveis. Anteontem, fui fisgado por esta maravilhosa experiência mais uma vez. Estava no quarto, deitado na cama, ao lado da minha mulher. Ela de pijama e eu com peças velhas de roupa, que, acredito, sejam o melhor tecido para cair no sono. Quanto mais esgarçadas melhor. Lado a lado, conversando, fuçando o celular, esperando a tristeza dos finais de domingo finalmente chegar ao fim.

Não lembro exatamente o porquê, mas resolvi dar uma segunda chance ao INXS e ouvir suas principais canções novamente. Havia feito isso com Alanis Morissette e foi esplendoroso saber que às vezes existe um pouco de brilhantismo no pop das massas. Afinal, ninguém vende milhões de discos por acaso.

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Busquei os principais clássicos e toquei um a um durante o cair da noite. New SensationSuicide BlondeNever Tear Us Apart, até que finalmente a explosão mental aconteceu. O prazer indescritível que somente a música é capaz de alcançar. De alma pra alma. De coração pra coração.

As primeiras notas de Beautiful Girl soaram e me lembrei que conhecia a melodia. Mais uma daquelas canções que já ouvimos diversas vezes, mas não sabemos de quem são. Prestei atenção. Entretive-me. Percebi a simplicidade que a fazia incrível. Perguntei-me como pude ignorá-los por tanto tempo.

Image by Global Panorama
Por alguma razão inexplicável, aqueles poucos minutos levaram-me a uma viagem emocional sem precedentes e recordaram-me como os dias passados ao lado da mulher que amo eram especiais. Como os pequenos detalhes da vida a dois eram perfeitos para entender os motivos de minha paixão. Os abraços calorosos quando vestia um moletom macio. A forma como dançava despreocupada enquanto escolhia a roupa para sair. Cada lágrima que molhava o rosto quando assistíamos a um filme triste.  Os jantares comuns em frente à TV. Sua companhia nas idas à feira nas frias manhãs de sábado. O modo frágil como segurava o meu braço nos passeios pela rua. O sono inocente no banco do passageiro durante as viagens casuais. O jeito delicado que se maquiava antes de sairmos para jantar. A silhueta de seu corpo envolto na toalha quando deixava o banho. O andar delicado e a preguiça aparente após o sono tranquilo das tardes livres aos finais de semana.

Recordaram-me também suas qualidades e o quanto ela era especial. Humilde e batalhadora. Forte. Delicada. Independente. Com personalidade própria, ideais justos e opiniões sinceras, que me orgulhavam, faziam-me refletir e me tornavam aos poucos uma pessoa melhor. Minha companheira, amiga e amante. Sensível. Linda. Única.

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Ao ouvirmos juntos aquelas notas, dei-me conta que criávamos ali um vínculo insubstituível. Que somente eu e ela teríamos em todo o universo. Fiquei completamente emocionado. Tive vontade de chorar, porém, segurei as lágrimas. Gostaria de dizer o quanto a amava, mas se tentasse fazê-lo cairia em prantos.

Assim que o últimos acordes foram tocados, soube que nunca mais a esqueceria. Seria a música que me lembraria dela pelo resto de minha vida. Que faria eu me recordar com carinho daquela noite para sempre. Que faria eu me dar conta da sorte que tinha por tê-la ao meu lado.

Havia marcado o meu coração. E nada nem ninguém poderia mudar isso.

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Visita inesperada

Faz tanto tempo que não venho aqui, que me sinto um pouco encabulado. Como se houvesse encontrado uma ex-namorada, mas não houvesse tempo de atravessar a rua para evitar o contato. Palavras cordiais, pressa incontrolável, sentimentos remoídos. A rotina me domesticou. Trabalho, namoro, família. Deixei a incrível inutilidade do sistema financeiro subjugar os meus prazeres. Podíamos ter tudo que quiséssemos, mas somos escravos de um estilo de vida que destrói o mundo que vivemos. A espécie humana é a pior praga que o planeta terra já enfrentou.

Chega de refletir. Enxergo meus pés. A TV está ligada. Djokovic saca a caminho de mais um título. Ouço passos no corredor. O portão ao fundo bate com violência. Os passos se aproximam. Abaixo o volume da televisão.  Quem quer que seja, posta-se em frente à minha porta. Sussurra. A campainha toca. Não costumo receber visitas sem aviso. A porta não possui olho mágico. O interfone está quebrado. Nenhuma mensagem ou ligação perdida.

Imagem de Carlos Ignacio
– Quem é?
– Entrega para o senhor! – É uma mulher. Jovem.
– As entregas são feitas diretamente na portaria.
– Sim, eu sei, mas essa é uma entrega especial e não pode ser deixada nas mãos de desconhecidos. Seu conteúdo é totalmente valioso. Você pode me atender, por favor? Prometo que será rápido. É um comunicado extremamente importante.
– Ok. Só um minuto.

Sinto que será um erro. Porém, sua voz inocente engana meus pressentimentos. Giro a chave uma vez. Engulo seco. Na segunda volta, um calafrio percorre minha espinha. Abro lentamente. Uma força inesperada me empurra. A quina da porta quebra meu nariz. Dou três passos cambaleantes para trás. A garota entra sem minha permissão. Veste um short jeans curtíssimo. Uma bota preta, com salto e cano longo. Um top preto e uma jaqueta de couro marrom. Cabelos negros, compridos até o meio das costas. Não posso ver seu rosto. Usa a máscara de um gato ao estilo japonês. O corpo é escultural. O rosto provavelmente deve combinar com ele.

Image by Ken

Sinto o calor do sangue escorrendo pelas minhas narinas. Avanço sobre ela. Antes que me aproxime, aponta-me uma arma. Não faço ideia qual seja. Mas sei que não é Taurus, pois sinto a bala alvejar meu estômago. O impacto é forte e dolorido, mas impressiona-me muito mais a sensação de ardor. Minha barriga está em chamas. Perco a força nas pernas e desabo. Tento gritar, mas não consigo. Pergunto-me porque o tiro não fez tanto barulho. Nem sabia que existiam silenciadores no Brasil. Arrasto-me em direção ao criado mudo. Busco o telefone. O maldito celular está sempre ao meu lado o dia inteiro, mas, quando mais preciso, não o encontro. Minha algoz corre em minha direção antes que minhas mãos encostem no aparelho e me chuta a cara. O bico da bota impacta o centro do meu rosto. Meu queixo fica mole. Alguns dentes se espalham pelo chão. Urro de dor. Tudo fica branco. Apago.

Completamente desnorteado, pisco três vezes. A barriga queima, a face dói. Estou amarrado de uma forma que fico completamente imóvel.  No chão, o sangue escorre pelo meu estômago e por minha face. O assoalho costumava ser cinza, mas agora está completamente escarlate. Vai dar um puta trabalho para limpar. A garota mexe no computador enquanto desespero-me.  Ela olha para mim. Sua máscara emana um sorriso irônico. Estou fodido.

fox_mask_by_mishutka

Uma música começa a tocar. Presto atenção e percebo que é Velvet Undergroud. Apesar de maníaca e louca, pelo menos seu gosto musical mostra-se decente. Um doce vazio toma conta de mim. Oh…Sweet Nuthin’… He ain’t got nothing at all. Ela se aproxima a passos lentos. Não consigo falar. Há um pano imundo amarrado em volta da minha boca. Solto um grunhido de desespero. Desliga a TV. Passa as pernas por cima de minha cabeça. Que belas coxas. O short minúsculo é proposital. Fica de pé em frente a mim. Balança os ombros. Sou dominado pelo medo. Abaixa-se e começa a tirar meu cinto. Lentamente abaixa minhas calças.  Em seguida a cueca. Deixa-me praticamente nu da cintura para baixo. Meu Deus! Minha morte será muito pior que imaginava. Debato-me, sofro e finalmente choro.

– Ouça-me! – Fala em tom opressor. – Vou tirar minha máscara. Portanto, feche os olhos. AGORA!
Não obedeço. Apenas observo com uma expressão de desespero.
– Ok. Vou pedir só mais uma vez. E se não fizer o que mando, garanto que farei você se arrepender amargamente.

Image by Sean MacEntee

Acho que a perda de sangue afetou meu raciocínio. Burramente, continuo a encará-la. O gato sorri. A assassina vai o balcão e encontra uma caneta. Corre em minha direção. Tento me esquivar, mas é impossível. Estou preso de uma forma que impede qualquer reação defensiva. Pavor e desespero incontroláveis. Ela fecha o punho com força e enfia a caneta diretamente em meu olho esquerdo. Fecho-o de imediato. Mesmo assim o objeto perfura a carne da pálpebra e dilacera os tecidos do meu globo ocular.

UHHHHRRRRRRRRRHHHHHOOOOOHHHHRRRR!

É a primeira vez que sinto tamanha dor. O sangue escorre. Grito e me debato para tentar confundir meu sistema nervoso. Sinto choques contínuos no lado esquerdo da minha cabeça. Lembra uma furadeira rodando por dentro do meu crânio. A caneta ainda está lá. Não tenho como tirá-la. Engulo sangue, suor e lágrimas.

HUUUNNNNMMMMMM! UHHHRRROOOMNMMMMMNN!

Rezo para que tudo acabe rápido. Aprendo uma lição: nunca mais vou abrir os olhos enquanto ela ainda estiver por aqui. Sinto frio. Estou fraco. A dor aos poucos diminui. Vou morrer.

Image by Paulo Figueiredo
Ouço seus passos novamente. Param. Seus pés encostam nos meus. Sinto suas mãos em minhas pernas. As unhas passam por minha virilha.  Dou-me conta que tudo ainda pode piorar. Serei mutilado. Nunca fui religioso, mas rezo a todos os deuses e peço ao universo que me tragam um pouco de luz. Minhas preces são atendidas.

Aos poucos, sinto suas mãos acariciarem meu pênis. Levemente. De um lado ao outro. De cima a baixo. Carinhosamente, na cabeça, no saco. Aos poucos ela me masturba. De alguma forma bizarra, isso me excita. Está completamente duro. Tudo fica quente e úmido. Sua boca está lentamente saboreando meu pau. Pequenos beijos ao redor. A língua passeia de baixo para cima. Então chupa. É doentio, mas é perfeito. Devagar. Às vezes rápido. As mãos ajudam. Acariciam e movimenta-se em meu pau no mesmo sentido que os lábios. É maravilhoso. A língua brinca. Estou em êxtase. Prazerosamente apavorado. Sinto que aos poucos estou perdendo minhas forças. Os movimentos ficam mais rápidos. Meu pênis pulsa. Ela geme com a boca cheia. Estou quase lá. Não sinto mais nenhuma dor. Ela se esforça cada vez mais. Deliro. Ela percebe e continua sem pausas. Estou tremendo. Enxergo um céu púrpura. Gozo loucamente. Ela não para até a última gota se esvair.  Um orgasmo incrível. Ela se levanta. Não sinto mais nada. Os passos estão cada vez mais longe. A porta bate. Meu coração para.

Magic!

Era uma sensação diferente tentar descobrir porque ela chamava tanto a minha atenção. Tinha a chance de encontrá-la ao menos uma ou duas vezes por semana durante o caminho de volta até o lar. Pegávamos o mesmo ônibus e sua presença deixava a viagem, no mínimo, muito mais interessante.
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Não fazia ideia sobre qual seria o seu nome, onde trabalhava nem qual era o seu emprego. Entretinha-me tentando imaginar o que ela gostava de fazer, quais eram seus pratos favoritos ou que tipo de música ela ouvia durante o trajeto. Era engraçado fazer tais indagações, pois tinha certeza que tudo seria muito diferente quando realmente a conhecesse. As únicas coisas que podia afirmar com exatidão eram que trabalhávamos relativamente perto, que ela morava próximo a minha casa (já que sempre descia um ponto antes do meu) e que era incrivelmente linda. Mas quanto a esse último fato não era preciso que ninguém me recordasse. O que eu podia dizer? Ela era mágica!
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Inúmeras vezes chegava ao ponto e ela já estava a espera de nosso “querido” transporte público. Sempre a observava ao longe. Não precisava muito para que chamasse minha atenção. Apenas um gesto ou um pequeno olhar eram mais que suficientes para que eu ficasse completamente hipnotizado. E isso, posso dizer com sinceridade, não era muito comum acontecer. Já havia apreciado a beleza das mais diversas mulheres – como todo homem costuma fazer –, mas pouquíssimas despertavam meu interesse de tal forma. Isso fazia-me pensar que talvez ela fosse única, e por algum motivo que ainda não conhecia.
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Image by Charly Meunier

Já havia tentado uma aproximação e lhe entregado um bilhete uma vez quando voltávamos “juntos”. Nunca houve uma resposta. A partir de então passamos a jogar, nos evitando e fazendo o possível para que a troca de olhares nunca ocorresse. Ela, provavelmente, sabia o quanto era bela e não perderia tempo com qualquer um apenas por um pequeno bilhete. Eu só queria mostrar que não me importava, fingindo demonstrar indiferença sempre que nos encontrássemos. Era tudo uma grande mentira, pelo menos da minha parte. Sempre que podia, parava minha leitura para admirá-la, fazendo o possível para que ela não percebesse. Claro que nem sempre conseguia ser tão discreto assim. É engraçado, pois a maioria das pessoas não entende que momentos simples como este podem ser inesquecíveis.

Nunca fui um excelente galanteador, mas a longo prazo geralmente tudo acabava bem. Mulheres gostam de homens de atitude e nem sempre isso é fácil no mundo masculino, porém acreditava estar bem perto disso.

Algumas vezes acabava me perguntando: e se ela namorasse? Se vivesse com alguém? Se fosse ocupada demais ou carregasse infindáveis empecilhos? A verdade é que nada disso importava. Acreditava no meu potencial. Nem sabia ao certo se iríamos mesmo nos conhecer, mas, caso isso acontecesse e ela se apresentasse de uma forma que realmente valesse a pena, lutaria para que ela fosse minha, mesmo que fosse apenas por uma noite.