Um dia de sol

Estava sentado com os pés a beira da piscina. Lia um bom livro enquanto os raios do sol refletiam intensamente pela água e davam um toque suave ao meu olhar quando encontravam as lentes de meus óculos escuros. Era um belo dia e sentia-me realmente feliz. Não sei ao certo, mas uma aura especial rondava a minha volta.
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Welcome to the Goodtimes” tocava ao fundo e, então, como um suspiro dos céus, lembrei-me de você. Do seu sorriso e de sua beleza, da sua voz e de seu jeito meigo e único, que, infelizmente, eu pouco conhecia. Do tempo que eu perdia ouvindo minhas músicas favoritas enquanto observava atentamente suas fotos. Talvez fosse a beleza ao meu redor que me fazia recordar tudo, mas a verdade é que, naquele exato momento, você dominava completamente meus pensamentos.
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Image by José David Leiva
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Havia acabado de ler três páginas, mas não tinha conseguido prestar atenção em nada. Tudo bem, afinal faria minha releitura calmamente um pouco mais tarde. Parando um pouco para pensar, dava-me conta de algumas coisas. Por que eu havia deixado tudo isso de lado? No começo, parecia correr tão bem.
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Por outro lado, me encorajava, pois eu tinha tanto para conhecer, descobrir e me envolver. Perceber os gestos, vontades.  Entender e procurar.  E, dependendo de como tudo ocorresse, não me importaria nem um pouco em me apaixonar. Era ótimo ter essa consciência, pois sabia que, como tudo na vida, esse talvez se tornasse um desejo irrealizável que mais tarde seria esquecido. Não tinha medo, apenas entendia que, tristemente, a vida era, de vez em quando, assim.
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Image by Robert Rice
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Levantei-me tranquilamente. Com os pensamentos em ordem, coloquei os óculos sobre o livro e os deixei ao chão. Dei dois passos a frente, olhei o céu e, então, mergulhei.

Mais um dia

O ano mudou, os tempos mudaram e muitas coisas começaram a acontecer. Antigos planos voltaram à tona e objetivos deixados para trás, mais uma vez, mostraram-se assombrosos e inovadores. Havia colocado em sua cabeça que 2010 seria o ano em que sua pacata vida finalmente entraria nos eixos e algo realmente grande aconteceria. Sabia que era necessário estar com a cabeça no lugar e continuar a seguir em frente.
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Todos os dias o celular despertava exatamente às 06h54da manhã. Por que às 06h54? Guardava certo receio de marcar seus horários em números exatos desde que perdera o encontro mais importante de sua vida há alguns anos atrás. Depois se levantava lentamente, cumprimentava seu pequeno pinscher preto. Em todas as manhãs o animal ficava tão eufórico com seu despertar, que as sete horas de sono pareciam ter durado uma incrível eternidade para o pequeno animal.
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Derrick Tyson
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Assim que tomava o café, subia, cambaleando, as escadas e parava em frente ao espelho. Ficava sempre alguns segundos admirando seu reflexo e percebendo como, pouco a pouco, envelhecia. Ele, seu velho samba-canção listrado e seus cabelos claros extremamente desarrumados. Então, escovava seus dentes com muita atenção, depois escolhia um disco com cuidado e colocava a vitrola para tocar enquanto tomava seu banho matinal. Nos últimos dias Eric Clapton, Jeff Beck e Humble Pie haviam soado muito bem.  Quando terminado, vestia sua calça jeans, colocava um velho tênis surrado e perdia alguns minutos escolhendo uma de suas velhas camisetas, que, de tão velhas, era quase impossível identificar a estampa. Já pronto, dirigia-se até o metrô.
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No caminho, perdia um bom tempo apreciando as pessoas e os tipos mais estranhos e curiosos de trabalhadores. Outro ritual, que praticava com afinco, era observar as belas mulheres que se deparava pelo caminho. Poderíamos dizer que eram amores platônicos instantâneos que mexiam por alguns instantes com suas emoções e que, provavelmente, após algumas estações, nunca mais voltaria a vê-las. Quando não havia ninguém, entretinha-se com um bom livro. Há alguns dias, Bukowski mostrava-se excelente leitura.
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Image by Chovee
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Frequentemente quando chegava ao seu destino, dava-se conta de como certas coisas haviam mudado. A garota pela qual, um dia, havia se apaixonado, simplesmente esquecera de sua existência ou fingia que não mais o conhecia. Algumas vezes perguntava-se como tudo havia acabado assim. E pessoas quais nutria uma grande simpatia, não mais o cumprimentavam e, como resposta, ele nunca perdia a simpatia, mas aos poucos perdia cada vez mais o contato.
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Após a manhã cheia de tarefas, alegria e aprendizado, partia para o trabalho. Mais uma vez no metrô e mais uma vez com os velhos hábitos, seguia a sua estrada. Logo que chegava, exercia suas tarefas com perfeição e, assim, acabava o entusiasmo, pois seus compromissos, agora, não continham nenhuma novidade. Gastava bom tempo pensando em como poderia ganhar dinheiro de forma honesta e que realmente o fizesse feliz, porém, dava-se conta do quanto a vida era dura algumas vezes. Seu expediente acabava e retornava calma e tranquilamente ao lar.
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Image by Dave Evans
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Quando entrava em casa, perdia um bom tempo brincando com seus animais de estimação e depois subia as velhas escadas de volta para o seu querido quarto. Lá gastava as últimas horas do seu dia escrevendo sobre tudo que lhe interessasse ou viesse à cabeça. Depois, retirava sua Fender Stratocaster do suporte e dedilhava algumas notas na guitarra. Quando muito inspirado, escrevia belas canções e sentia-se realmente feliz. Então, descia para o jantar, tomava um banho e voltava à cama para ler ou assistir algum de seus filmes favoritos. O aconchego do edredom e a luz inconstante da TV sempre o faziam dormir. Algumas vezes sonhava, outras não. E assim era o final de mais um dia de uma pessoa qualquer em algum lugar desconhecido desta imensa cidade.
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O primeiro e último encontro

O sol escaldante me fazia desistir de todos os meus planos. Era um belo, mas, ao mesmo tempo, ocioso dia. Alguns inimigos haviam dado as caras e me recordado que, dependendo da situação, o dia seguinte pode não mais existir. Comecei a prestar mais atenção ao movimento nas ruas e percebi que não vale nem um pouco a pena perder tempo se preocupando.
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Quando desci do ônibus, me dei conta que o ar estava diferente. Pesado e rarefeito. Talvez um reflexo de minha alma. Perdi alguns minutos olhando o céu e depois mais alguns outros observando as garotas que se exercitavam na academia em frente ao ponto. Não importa qual seja a situação, o instinto masculino sempre prevalece.

Image by Topher i

Parei em um daqueles decadentes bares e perdi um bom tempo jogando conversa fora, mas a cerveja já não descia mais com o mesmo gosto. Tentava descobrir o que estava errado. Em um esforço sem igual, concentrei-me ao máximo para encontrar o problema. Foi uma tentativa inútil. Dei o último gole. Uma navalha parecia cortar minha garganta. Sábia que era tudo obra de minha mente, mas o sabor do sangue me despertou.

Corri e corri pela rua atrás de algo que nem sabia o que era. Feliz e atordoado, pensando em como faria para sentir aquela sensação novamente. De repente visualizei um grande lampejo de luz e pude ver aquele rosto nitidamente. Era incrível. O mundo parecia melhor por um breve momento. O tempo parou por um segundo. Ouvi uma grande freada e vários gritos de desespero. Quando me virei, só pude ver o capô do carro se aproximando. O barulho do impacto foi muito maior que a dor que deveria ter sentido. Voei como um pássaro em queda livre. Rolei pelo chão por uma quinzena de metros e parei encostado na sarjeta como um bêbado em busca de um sono tranquilo.

Image by Axel Naud

Agora podia sentir o verdadeiro gosto do sangue. Dessa vez não era tão saboroso assim. A garota desceu do carro em um desespero sem igual. Chorava e, apesar do choro, conseguia manter a sua incompreensível beleza. Não podia acreditar no que meus olhos viam. Era única. Nunca havia visto nada assim tão lindo. Ela me abraçou olhando para o sangue que escorria em meu rosto. A adversidade da situação fez com aquele fosse o abraço mais sincero que já pude receber.

Sentia frio, mas estava feliz por poder estar junto dela ao menos uma vez. A dor, curiosamente, nunca chegou. Suas lágrimas pingavam em meu rosto. Agradeci pelo gesto. Sacrifiquei-me para pensar em algo bom a dizer, mas aquele não era mesmo um bom momento para tentar uma cantada. Os seus olhos brilharam mais uma vez. Aos poucos fui perdendo um a um os meus sentidos. Ouvir? A audição era apenas uma leve lembrança. Parei um minuto para pensar e desejei que tudo tivesse sido diferente. Queria tê-la conhecido em outra situação. Foi um enorme desperdício. Era extremamente difícil me mexer, mas consegui segurar suas pequenas mãos de fada. Aos poucos, fui fechando os olhos para nunca mais abri-los.