Aquarela pelo céu

Mais um dia de trabalho chegava ao fim. Encontraria um amigo logo, logo, mas deveria esperar no mínimo uma hora e meia para podermos jantar em uma das melhores hamburguerias da cidade. Resolvi fazer todo trajeto a pé. Perderia muitos minutos e ainda enganaria meu corpo sedentário fingindo fazer algum exercício. Iria do Anhangabaú até o início da Av. Dr. Arnaldo. Era ridículo, pois esse seria o primeiro esforço físico real que praticava em muitos meses.

Era uma bela noite. Finalmente os inúmeros temporais de verão haviam dado trégua. A cidade estava completamente alagada, mas os céus pareciam festejar. O sol se despedia em meio uma gama de nuvens rosas, amarelas e laranjas , lembrando incríveis desenhos feitos em aquarela acima dos nebulosos prédios. Observava o movimente enquanto andava a passos lentos. Via os carros, o trânsito, o estresse de uma das maiores cidades do mundo. Tinha tempo para reparar nas lindas garotas que desfilavam pela rua, para conversar comigo mesmo, para apreciar a vida, refletir e, também, para rir do caos a minha volta.
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Image by Ludovic Bertron
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Nesse meio tempo, acabei chegando ao meu destino muito mais rápido que esperava. Levei apenas quarenta e cinco minutos. Não estava cansando e meu humor andava melhor que poderia esperar. Parei por um momento naquela gigantesca quitanda 24 horas, que vendia açaí e muitos outros produtos naturais, frutas etc. Passava por lá todos os dias, mas aquela era apenas a segunda vez que pisava por ali. A primeira havia sido com duas belas amigas, numa ótima tarde de domingo, três dias atrás. No caminho até a latrina pude ver mais algumas lindas garotas conversando. Preciso começar a me policiar. Flertar está deixando de ser um passatempo para tornar-se um vício. Isso poderá trazer alguns inconvenientes mais tarde. Brigas, fins de namoro e outras horríveis chateações.
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Como estava bastante adiantado, parei num boteco de esquina para esperar. Comprei uma garrafa d’água e sentei-me para ler. A autobiografia de Keith Richards estava me rendendo bons momentos. Intercalando entre os parágrafos, olhava ao meu redor para analisar o ambiente. A cada piscar de olhos, percebia cada vez mais a imundice que aquele lugar se encontrava. O famoso boteco sujo. A casa de todos os bêbados. O telefone celular resolveu tocar após alguns capítulos:
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Image by Paul Kline
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– E ai, Tiba! – Um apelido engraçado, mas ao mesmo tempo bastante homossexual, pelo qual ele me chamava – Onde você está, meu velho?
– E ai, meu chapa! Estou no boteco aqui da esquina. Já estou indo, espere um pouco. Abraços!
– Falou!
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Terminei a página com calma e paguei minha conta. Era um verdadeiro elogio dizer que aquele lugar possuía alguma conta. Lixo, sujeira e alcoólatras por todos os lados. Não vou estranhar nem um pouco se surgir alguma doença desconhecida no meu próximo exame de sangue. Encontrei meu novo velho amigo em frente ao Burdog. Ele me aguardava com suas feições turcas e suas ótimas piadas ao lado da entrada principal. Um sujeito engraçado. Cumprimentou-me e partimos para uma volta no quarteirão.
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Descemos a rua e o cigarro foi aceso. Algumas belas tragadas e viramos na primeira rua a direita. Era simples e sem movimento. Mais alguns tragos. Outra curva a direita. Os sentidos estavam cada vez mais apurados. Os cães latiam sem parar. Já nos encontrávamos em um estado benevolente. Entramos na última rua para que a volta estivesse completa. Ficaria um pouco mais burro pelas próximas duas horas. A última cinza foi jogada ao chão. Paramos novamente em frente à lanchonete e decidimos entrar.
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Image by Rodrigo Amorim
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Era uma terça-feira, mas o local estava lotado. Sentamo-nos próximos a janela. As piadas seguiam em ritmo frenético. Estava uma noite bastante engraçada. Perdemos alguns minutos até fazer o pedido. Escolhemos com cautela um delicioso Cheese Calabresa Zé Mineiro. Um molho fantástico! Enquanto aguardávamos, ficamos observando um flanelinha que cuidava dos carros na rua sem saída logo ao lado. Era um sujeito muito diferente. Possuía grandes trejeitos homossexuais, uma fala mansa e arrastada, um rabo de cavalo peculiar e um rebolar nem um pouco sensual. Este era o guardador de carros mais estranho que havia visto em toda minha vida.
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O precioso lanche chegou junto com uma Fanta Uva. Muitos dizem que este é o refrigerante mais odiado pela população. Outros, que apenas sujeitos goiabas e mequetrefes apreciam tal sabor. Danem-se todos os preconceitos! Esse é certamente o refresco mais injustiçado de todos os tempos. Dei a primeira mordida. Meu Deus! Estava divino. A conversa acabou a partir do momento que apreciamos o indescritível alimento. Passamos toda a jornada em silêncio até que a comida finalmente estivesse repousando dentro de nossos estômagos. Não existem palavras para descrever tamanho deleite.
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Image by Antonio Thomás Koenigkam Oliveira
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Assim que terminamos, resolvemos refletir sobre o que tinha acabado de acontecer. Nesse meio tempo, observava uma mesa oposta a minha. Um grupo de meninas que se divertiam com assuntos indecifráveis. Podia dizer que senti um pouco de raiva. Como podiam ser tão bonitas? Sorriam. Despachavam olhares inesquecíveis. O que podemos dizer? Talvez cada um nasça com aquilo que mereça.
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Já estava chegando o momento de partir. Pagamos a conta, recolhemos nossos pertences e saímos. Convenci meu companheiro a irmos a pé até o Metrô Sumaré. Não era longe, mas depois de uma ótima janta, o caminho ficaria um pouco árduo. Fomos, novamente, a passos lentos. Durante o trajeto, pude ver centenas de baratas pelo caminho. Não sei se era por causa do cemitério que cortava toda a avenida ou pelo calor incrível que fazia, mas elas estavam por todas as partes. Jamais havia visto tantas em um só dia. Por toda calçada, debaixo dos sacos de lixo, atrás dos portões. O que estava acontecendo? Uma incrível paródia sul americana sobre Joe e as baratas? Devo ter esmagado, no mínimo, dez delas durante o percurso. O fim dos tempos estava cada vez mais perto.
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Chegamos ao ponto. Observei os carros por cima da ponte. As infindáveis luzes da cidade e dos carros que circulam tornam os detalhes noturnos muito mais agradáveis. Fiz mais uma piada e meu ônibus chegou. Despedi-me e subi. Paguei a passagem e sentei no velho banco de apenas um lugar. Coloquei meus pés sobre a grade e relaxei. Devia pensar que estava em casa. Certamente o transporte público é o terceiro lugar que mais perco meu tempo enquanto a vida passa.

Uma linda garota oriental passou pela catraca. Havia muitos lugares vazios, mas ela acabou esperando em pé enquanto não chegávamos ao destino. E mais uma vez fiquei hipnotizado com tamanha beleza. Ela postou-se alguns metros a minha frente. Certamente ela percebeu que não conseguia de modo algum desviar meus olhos. Talvez tenha ficado sem graça ou inflado seu ego um pouco mais. Não era minha culpa. Ela era mágica. O que eu podia fazer? Claro que ela não me deu sinal algum. Nenhum sorriso nem mesmo um rápido olhar. Passei a observá-la pelo reflexo da janela.  Aquele que disser que nunca fez algo do tipo, no ônibus ou no metro, é o maior patife e mentiroso que já vi. Fiquei todo o caminho realmente encantado com suas feições. Um hábito dos novos tempos.

Devia descer. Esperei e esperei, mas ela não demonstrou nenhum sinal que sairia no mesmo ponto que eu. Droga! Provavelmente nunca mais voltaria a vê-la. Os bares estavam vazios. Esperei o sinal abrir e atravessei. Era uma grande ladeira e uma brisa refrescante soprava contra meu caminho. Ótima sensação. Pulei alguns degraus em grande êxtase. Minha casa ficava há alguns metros dali. É, meus caros, poderia francamente dizer que eu era um rapaz de sorte.

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Incógnitas e certezas

Minha memória não andava lá essas coisas! Estava abusando um pouco da hospitalidade alheia. Não valia a pena viver como um rock star se você ainda não fosse um. Ainda bem que eu tinha consciência suficiente para lembrar-me que as segundas-feiras eu precisava retornar ao mundo real.
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Estar fora de controle desde as 14h podia parecer um pouco preocupante, mas não era motivo para reclamações. Seria muita hipocrisia dizer que não me agradava. Cervejas, cigarros e as cinzas espalhadas pelo tapete. Estávamos tocando cada vez melhor. Era impossível não gargalhar ao menos uma vez. Tinha motivos de sobra para estar feliz. A depressão certamente nunca seria o estilo de vida certo para mim. O humor sempre foi uma arma eficiente para vencer obstáculos emocionais. Uma vez ouvi dizer que só começamos a amadurecer quando conseguimos rir daquilo que um dia nos fez chorar.
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Image by Sergio Fabara Muñoz
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Antigos desejos voltaram a bater na minha porta. Nem todos foram o que desejava, mas não seria certo recusar tais presentes. Muitas vezes as coisas acontecem de um modo totalmente diferente daquilo que planejamos e fico impressionado quando aparecem no momento que menos se espera. Graças aos céus ela era linda, senão me arrependeria muito por tê-la cortejado tanto. Porém tinha certeza que algo muito bom ainda estava por vir, portanto seria ótimo ter paciência e perceber as verdadeiras intenções. Não é nada agradável dar com a cara no muro, mas, o que podemos fazer, somos humanos e ocasionalmente falhamos.
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Apreciar um excelente almoço em uma bela tarde de domingo também pode ser reconfortante. A companhia faz toda a diferença e o estado de espírito contribui com o sabor da refeição. Espero que meu saquê nunca fique amargo, não seria um bom sinal. A única parte difícil do trajeto é ter de lidar com pessoas indesejadas em um ambiente inóspito, isso se você não está 100% sóbrio há um par de horas. Fica difícil passar boa impressão quando não temos intimidade para dizer a verdade ou escolher um ótimo jogo de palavras para fugir da situação. Nem sempre uma pessoa que lhe conhece há mais de cinco anos pode te deixar a vontade em encontros repentinos. Sendo novo ou velho, a sátira da vida sempre continua.
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Image by Jokerverges

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Preciso arrumar tempo para preencher minha lacuna de inspirações. Não têm sido fácil escrever ou compor, mas geralmente o que menos me agrada acaba sendo o que todos mais apreciam. Uma ironia que deixa-me dúvidas com relação ao meu real senso de qualidade. Quem sabe um novo amor fosse ideal para lançar-me em busca de novos horizontes? É uma pena não termos capacidade de controlar nossas paixões, mas podemos sempre estar abertos a novas experiências. Aquela pequena e linda garota talvez possa te levar a lugares aos quais você nunca sonhou visitar. Viver sempre será uma infinita incógnita, por isso tudo continua valendo a pena.

Feriado prolongado

O cigarro passava de mão em mão enquanto percorríamos a estrada. A cerveja no porta copos a minha direita era uma ótima saída para acompanhar a conversa. Como sempre, estava no banco do passageiro fazendo a seleção musical e organizando alguns pensamentos. Plastic Zoo, mais uma vez, assim como eu, continuava em seu lugar habitual: no rádio a um volume considerável e empolgante. Havíamos comprado mantimentos, planejado os eventos posteriores e ansiávamos por um feriado promissor.
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Já estávamos quase a uma hora na estrada quando problemas não esperados passaram a acontecer. O carro apresentou falhas e ameaçava desligar a qualquer momento. Olhamos o painel e percebendo o quanto tínhamos sido estúpidos, pois não paramos para abastecer. Não colocar combustível foi apenas uma das inúmeras idiotices as quais nos sujeitamos. Também nos demos conta de que o ar condicionado estava acionando durante todo o trajeto, consequentemente, gastando o combustível, que não tínhamos, ainda mais rápido.
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Image by Kuster & Wildhaber Photography
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Não preciso me aprofundar na forma como ficamos apreensivos. Love Don’t Love Nobody fazia a trilha sonora do desespero ao mesmo tempo em que pedíamos aos céus para que um posto de gasolina surgisse a qualquer momento. Obviamente, em um certo ponto, o automóvel falharia para não mais funcionar e, claro, isso aconteceu.
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Estávamos na segunda faixa da esquerda e atravessamos até o acostamento, passando por duas faixas relativamente movimentadas e com o motor completamente desligado. Uma boa manobra de nosso motorista. Tivemos um pouco de sorte e conseguimos estacionar exatamente no ponto no qual havia um telefone de socorro. Ligamos o pisca-alerta e fui incumbido de  pedir ajuda. Quando me postei em frente ao telefone, enxerguei apenas uma grade amarela. Não havia números, gancho e nada que fosse semelhante a um aparelho de telefone normal. Simplesmente não sabia o que fazer e acabei desistindo. Pensando melhor, era possível perceber que minha sanidade não andava 100% aquela altura. Mais uma burrice para completar a noite. Olhei as estrelas e conclui que, realmente, o amor não amava ninguém.
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image by Andrew Hill
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Coloquei os pensamentos em ordem e decidi usar o cérebro para algo útil. Telefonei para o 102 e consegui o número da administradora da estrada daquela região. Expliquei-lhes a situação e consegui que mandassem uma rota para averiguar o que havia acontecido. Quando fui avisar que algo bom tinha, finalmente, ocorrido, vi meu companheiro conversando com a grade amarela. Ele, ao contrário de mim, conseguiu usar o telefone de alguma forma que eu não podia entender. Assim que terminou, supliquei para que me mostrasse como utilizá-lo e ele me indicou um gigante botão vermelho que ficava logo abaixo da grade. Ainda não sei como não consegui vê-lo. Já tinha ouvido dizer que o álcool podia nos deixar cego, mas pensava que era a longo prazo. Enfim, existia, agora, dois pedidos de socorro para o mesmo local.
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Aguardamos cerca de dez minutos até que a ajuda chegasse.  Um socorro bastante eficiente, pois pensava que ficaríamos esperando por algumas horas. A rota levou meu amigo até o posto mais próximo para que nosso pequeno problema fosse solucionado. Tive que aguardar ao lado do veículo até que retornassem.  Depois de mais alguns minutos um caminhão guincho se aproximou e parou em frente ao carro. “Meu Deus! E agora?” Não podíamos levar o carro, porque logo, logo retornariam com o combustível e estaríamos prontos para partir. Expliquei isso ao funcionário, mas ele já sabia do problema. Disse apenas que não poderia me deixar esperando sozinho já que estávamos em uma área de risco. Pelo rádio, avisou a rota que nos encontraríamos todos no próximo posto. Colocar o carro no caminhão foi mais um dos doze trabalhos de Hércules. Eram muitos botões e mecanismos para uma pessoa no estado que me encontrava, porém, com um pouco de concentração, tudo correu razoavelmente bem.
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Image by Giorgio Galeotti
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O posto de gasolina mais próximo encontrava-se, para nossa sorte, ou azar, a apenas três ou quatro curvas adiante. A rota estava lá e o caminhão guincho se aproximou. Descemos o automóvel e colocamos a sagrada gasolina. O carro voltou a funcionar e decidimos partir. Não tivemos que desembolsar um centavo sequer. O pedágio custara apenas R$ 2,40. Um serviço de qualidade! Agradecemos e recomeçamos a viagem pensado que tudo seria diferente dali para a frente.
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A neblina estava um pouco acentuada durante a serra, mas tudo parecia andar bem. Parecia. De repente, freadas bruscas, carros fugindo pela contra mão e um risco eminente de engavetamento. O exímio motorista jogou o carro para esquerda e desviou-nos do perigo. Foi um susto inesperado, que voltou a nos atormentar mais duas vezes, e da mesma forma, durante o caminho. Ainda tenho minhas duvidas sobre o que realmente aconteceu, mas quero acreditar que o condutor não foi negligente em nenhuma delas. De qualquer forma, não estava nas condições ideais para analisar a situação com a profundidade necessária.
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Imagem de Andreia
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Após alguns contratempos, conseguimos chegar, inteiros, até o litoral. Estávamos agradecidos por ter superado todos os obstáculos. O sacrifício havia valido a pena e agora tínhamos quatro dias livres pela frente. Sossego, festas e diversão.  Mais um cigarro foi aceso antes de fugirmos para o descanso final.
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No dia seguinte, assim que levantei, lembrei-me da noite anterior e fui até a varanda para analisar o clima. Estava otimista, mas obtive uma imensa decepção. O céu estava nublado, o tempo chuvoso e a temperatura abaixo dos dezessete graus. Não era nada do que estávamos esperando. Não mesmo. E assim continuou até o fim do feriado.