A luz que incide sobre ele

“Qual o problema com você? O que afinal anda acontecendo? Jogar, amar, servir, receber, vencer e falhar já não é mais suficiente? Ouvir, explicar, lutar e tentar entender já não é tão importante assim? Fugir, se esconder, observar e correr por outro caminho anda te cansando, não é mesmo?”
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“Você sabe que tudo não passa de uma grande brincadeira? Que todos olham por si e querem, a todo custo, passar por cima de nós e deixar os restos espalhados pelo tapete? Que ninguém se lembraria de limpar os cacos que você quebrou? Sabe que, no fundo, tudo anda uma grande porcaria? Que só tende a piorar? Tem certeza que o mundo, hoje, é um grande barril de pólvora esperando que o primeiro lunático jogue brasas ao chão, não é?”
.Image by urbanfeel

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“Ainda querendo compor e cantar? Escrever e lembrar? Entreter e mostrar? Entorpecer e chorar? Por quê? Esqueceu-se que não existem mais novidades? As ruas, por mais cheias que estejam, continuam sempre vazias? Vazias como o seu coração ou como sua mente? Não sente mais seu coração bater, lembra-se? As veias pulsarem? O calor do sol? Não percebe que o último cliente já se foi e você continua sozinha sobre o balcão?”

“Os sentimentos já não valem nada, entende? O caráter e a dedicação perderam seu espaço? A saudade e a nostalgia só te confundem? Você não sente, não ouve e nem mesmo enxerga o poder da verdade, recorda? Onde escondeu sua montanha de mentiras? Em que lugar acha que vive, afinal? Eu não entendo, você não entende e ninguém mais nesse mundo se esforça para tentar entender?”

Image by LuAnn Snawder Photography

“E por que, meu Deus? Por que continua lutando? Por que ainda guarda esperanças? Por que ainda acredita e busca um amor verdadeiro? Por que continua a sorrir? E por que, apesar de tudo, ama tanto essa vida? Você é muito mais estranha do que eu imaginava, sabia?”

Colocou as mãos embaixo d’água que corria e lavou o rosto com muito cuidado. Manchou um pouco o pijama, mas não se importou. Escovou os dentes e depois guardou a escova no armário. Olhou seu reflexo mais uma vez e parou um segundo para refletir: “Talvez seja melhor tirar este espelho daqui.”

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Almas de cristal

Podia se recordar sempre que olhava as nuvens ao seu redor do quanto o mundo estava diferente. Talvez, antigamente, estivesse mais preparado ou simplesmente não conseguia mais se adequar as mudanças que aconteciam a sua volta.
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Nascera rico, sempre tivera grandes amigos e sua família nenhuma vez abdicara de amá-lo. Não lhe faltavam paixões e tinha a imensa habilidade de nunca falhar. Não porque se esforçasse para se eternizar como uma mente brilhante, mas, sem nenhum esforço e dedicação, conseguia mostrar ao mundo que nada era impossível não importasse o que pretendia ter, fazer ou conquistar.

Image by Ryan McGilchrist

O mundo que vivemos é diferente para cada um de nós. Todo o sucesso, fama e valor já não faziam mais sentido. Possivelmente nunca haviam feito. Rodeado de luxo não podia ser mais solitário. Por mais mulheres que conquistasse, seu coração não ardia mais. E independente do quão competente e conhecedor do mundo fosse, não lhe abandonava a ideia que fosse o mais pobre ser entre todos nesta terra.

Contentava-se apenas em conversar com o querido beija-flor que todos os dias lhe fazia uma pequena visita ao seu imenso jardim. Passava horas na frente do espelho e já não acreditava mais no que o reflexo lhe respondia. Passou a fazer brincadeiras sem sentido e a fingir que seu coração partido e sua alma sem convicção eram apenas um brinquedo quebrado largado ao longo da estrada.

Image by Stephen Z

Começou a colecionar armas e a enganar os que se preocupavam com sua nova reputação. Seu confidente o aconselhava a acabar logo com tudo, mas no fundo sabia que lhe faltava coragem. Em um desses longos monólogos, passou sete horas em frente ao espelho com um revolver calibre trinta e oito apontado para sua têmpora. Fazia piadas e se divertia com algo que somente ele seria capaz de explicar. Num certo momento se deu conta que já estava exausto de tudo aquilo e que chegava a hora de descansar. Simplesmente apertou o gatilho. O corpo caiu imóvel ao chão. Ainda sorria. O espelho refletia, agora no meio do caos, o sangue que escorria por todo o quarto e a silhueta sombria de uma alma vazia e inconsolável.