Suicídio

“O suicídio demonstra que na vida existem males maiores do que a morte.” (Francesco Orestano)

Ela se jogou da sacada do apartamento. Oito andares em queda livre. As faixas da polícia interditaram a calçada e deram o veredicto do resultado. Fatal. Não tinha mais que 35 anos.

Essa mesma pessoa já havia tentando o ato meses atrás. Engoliu o conteúdo completo de um frasco de shampoo, mas naquele momento houve tempo e pessoas próximas ao lado que conseguiram evitar a tragédia.

Após a desintoxicação, foi dado início a um tratamento psicológico e psiquiátrico, a base de terapias e medicação. Por um breve período, a melhora do quadro parecia plausível. Um olhar breve de fora, demonstrava uma nova disposição e feições aparentemente mais felizes e contagiantes.

O que tranquilizou um pouco as pessoas a sua volta, foi que as conversas e atitudes não mais passavam aos outros qualquer tipo de problema ou busca de ajuda pela situação. Porém, essa falsa sensação de segurança foi um equívoco. Pesquisas mostravam que “de três meses a um ano depois de uma tentativa de suicídio é que se concentrava a maior chance de uma segunda tentativa. Além disso, a segunda tentativa é mais perigosa do que a primeira”. Os dados revelavam que “um em cada quatro casos de pessoas que tentavam se suicidar tentaram novamente no ano seguinte. E uma em cada dez que tentou de novo acabou conseguindo se matar.”

No enterro, caixão fechado. Obviamente, ninguém gostaria de expor ao público um corpo desfigurado devidos as circunstâncias da morte. Em meio a lágrimas, rezas e condolências, os presentes procuravam buscar respostas que justificassem aquela situação. Problemas mentais, depressão ou estresse,  foram alguns dos temas colocados à mesa. A verdade é que não importava mais.

Passaro morto ao chão

Eu acredito que foi uma escolha. Imensamente triste, claro. Mas uma vontade a ser respeitada. Viver, às vezes, é uma puta encheção de saco. A forma que o mundo funciona hoje não dá alternativa para nos tornarmos seres realizados. As pessoas estão desistindo. Somos obrigados a trabalhar em empregos que não trazem nada de útil à sociedade e só destrói o planeta que vivemos. Já temos tecnologia e conhecimentos de produção para acabar com a fome no mundo e voltar a estabelecer uma conexão decente com a natureza. Cada vez mais o povo está percebendo que o estilo de vida que a humanidade segue não faz mais sentido. Ninguém nasceu para ficar ficar 40 ou 50 anos dentro de um escritório olhando para a tela de um computador. O ser humano está insatisfeito. As taxas de depressão e suicídio são cada vez maiores. “No Brasil, entre 2011 e 2015, houve 55.645 mortes do tipo no país. São 30 suicídios registrados por dia.” Se 50 mil pessoas conseguiram se matar, não quero nem imaginar quantas foram as tentativas que não deram certo.

Enfim, se você quer se matar? Ok! Você pode resolver facilmente o seu problema. A merda é pra quem fica. Não consigo parar de imaginar a dor que o pai daquela garota está sentindo. Já havia perdido a esposa para um câncer anos atrás e agora também teve que enterrar a filha. É tristíssimo. Provavelmente, nunca vai deixar de se culpar. Nunca vai deixar de remoer as lembranças e se martirizar sobre o que poderia ter feito para evitar essa tragédia. Uma tremenda pena, pois tornou-se refém de uma escolha que não foi dele. O ato de tirar a própria vida responsabiliza indiretamente todos que têm algum tipo de relação com o suicida.

É por isso que é necessário entender que o suicídio também é um problema social! Assim, como os sem tetos, saneamento básico, animais de rua etc. O Estado que se esquiva dessa culpa, apenas permite que as mortes prossigam a aumentar. “A cada 45 minutos uma pessoa se mata no Brasil.” Tudo bem! A vida continua. Eu estou aqui, agora, escrevendo um texto sobre isso. As pessoas têm contas pra pagar. A roda precisa estar sempre girando. Todo mundo tem que voltar à sua rotina como se nada tivesse acontecido. E essa morte vai virar apenas mais um número no meio do caos de uma grande metrópole. Mais um dado estatístico para preencher pesquisas de saúde pública sem que qualquer inciativa política seja adotada para tentar mudar as coisas. Mais uma vida esquecida. Assim como muitas outras. Dia a dia. Ano a ano.

Precisamos rever nosso estilo de vida. Temos que ser mais caridosos, empáticos e lutar para que possamos viver pelo que realmente importa. Já é evidente que também caminhamos para um colapso no ecossistema. Se não mudarmos agora, a humanidade vai se extinguir e a terra vai continuar sem nós para se recuperar de todas as cagadas que nós fizemos. Os recursos estão todos ai. O ser humano só precisa perceber.

Fontes:

Imagem: Jon Bunting

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Karoshi

Essas sim são melodias de respeito
Seguem um caminho desconhecido
Encontram lugares do íntimo que você jamais imaginaria chegar
Ilustram pequenas verdades

Resquícios de que ainda temos consciência para enxergar a realidade dos sentimentos mais profundos

São poucos os gatilhos que temos para alcançá-los
Amores perdidos
Revoltas pessoais
Mortes inesperadas

Pelo amor de Deus
O tempo todo eu vejo gente dizendo algo que nunca quis entender
Palavras que se esqueceram de ouvir
Frases que não lhe despertaram qualquer interesse

Fazem isso o tempo todo e quase ninguém percebeu
Desde a infância
Nas caixas dos brinquedos
Nos meios de comunicação
Nas escolas

E os pais
Só repetem a incrível baboseira que absorveram há varias gerações
Não aprenderam a viver
A curtir
A se desligar

Infelizmente

Hoje
Ter um tempo para você mesmo é considerado um pecado obsceno
Ficar sem nada pra fazer te causa peso na consciência
Puta merda
Até inventaram uma palavra pra quem morre de tanto trabalhar
Karoshi

O harakiri (Seppuku) do Século XXI
Mas sem qualquer tipo de honra

Garça

Eu olho para o céu e vejo um azul tão lindo quanto você! Sua pele, seu rosto, suas mãos. O contorno perfeito do shorts sobre suas pernas. Perderia horas e mais horas a te observar.

O riso inocente, o som do vento e uma brisa serena felicitam a nossa estadia. Uma garça solitária passeia pelo jardim. Observa com receio os estranhos que se aproximam. Esbelta. Firme. Bela. Voa solenemente assim que um casal cruza a passarela. Pousa no galho mais alto enquanto espera os intrusos se afastarem. Sua vida seria diferente se não estivéssemos aqui. Minha vida também seria. Talvez uma ínfima mudança apenas por ter passado algumas horas nesse lugar.

Os contornos orientais fazem-me imaginar como seria a vida dos primeiros descendentes que pisaram sobre essa terra. Também divago porque ninguém nessa cidade abriu uma escola de kung-fu estilo garça. Poderiam prosear que o nome da cidade era uma homenagem às habilidades do inesquecível sensei Fung Ja Mal Kin. Ele podia quebrar os galhos com apenas um sopro. E cortar as nuvens com um único petardo. É, às vezes, nossa imaginação nos leva longe demais.

Lago espelhado com pedalinhos em forma de cisnes na margem

Dou um gole na água e refresco meus pensamentos. Vejo o reflexo das árvores cintilarem no lago a minha frente. Impressiono-me por não encontrar uma nuvem no céu. Que beleza memorável. Uma pena a asma não querer me abandonar. Inspiro com dificuldade. Esforço-me para sentir os ar puro a minha volta. Infelizmente, as drogas não fazem o efeito necessário. Tudo bem! Nada disso poderá me atrapalhar. É apenas um lembrete pulmonar sussurrando que certas coisas em nossa vida nunca mudarão.

Crianças riem no pedalinho. Almas gêmeas se amam abaixo das cerejeiras. Um rastafári puxa fumo enquanto se funde à calmaria do ambiente. Afinal, todos podem ser felizes.

Vejo-te ao longe e lembro da sorte que  tenho por tê-la ao meu lado. Está agitada. Suplica por um sorvete. Faz de tudo para espantar os insetos que insistem em importuná-la. A cena me diverte, pois nunca vi ninguém ter medo de borboletas antes. Sorrio. Você vive em um mundo que não tenho capacidade de entrar. Ainda tenho muito a aprender.

Tiro a camisa, levanto e volto lentamente para o veiculo. Abro a porta. Respiro três vezes até me sentir satisfeito.  Com o dedo indicador, você desenha um coração sobre minha perna direita. O carro parte.

Foi um dia lindo. Tão lindo quanto você!

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Imagem: Black Throated Green Warbler