Mais um dia

O ano mudou, os tempos mudaram e muitas coisas começaram a acontecer. Antigos planos voltaram à tona e objetivos deixados para trás, mais uma vez, mostraram-se assombrosos e inovadores. Havia colocado em sua cabeça que 2010 seria o ano em que sua pacata vida finalmente entraria nos eixos e algo realmente grande aconteceria. Sabia que era necessário estar com a cabeça no lugar e continuar a seguir em frente.
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Todos os dias o celular despertava exatamente às 06h54da manhã. Por que às 06h54? Guardava certo receio de marcar seus horários em números exatos desde que perdera o encontro mais importante de sua vida há alguns anos atrás. Depois se levantava lentamente, cumprimentava seu pequeno pinscher preto. Em todas as manhãs o animal ficava tão eufórico com seu despertar, que as sete horas de sono pareciam ter durado uma incrível eternidade para o pequeno animal.
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Derrick Tyson
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Assim que tomava o café, subia, cambaleando, as escadas e parava em frente ao espelho. Ficava sempre alguns segundos admirando seu reflexo e percebendo como, pouco a pouco, envelhecia. Ele, seu velho samba-canção listrado e seus cabelos claros extremamente desarrumados. Então, escovava seus dentes com muita atenção, depois escolhia um disco com cuidado e colocava a vitrola para tocar enquanto tomava seu banho matinal. Nos últimos dias Eric Clapton, Jeff Beck e Humble Pie haviam soado muito bem.  Quando terminado, vestia sua calça jeans, colocava um velho tênis surrado e perdia alguns minutos escolhendo uma de suas velhas camisetas, que, de tão velhas, era quase impossível identificar a estampa. Já pronto, dirigia-se até o metrô.
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No caminho, perdia um bom tempo apreciando as pessoas e os tipos mais estranhos e curiosos de trabalhadores. Outro ritual, que praticava com afinco, era observar as belas mulheres que se deparava pelo caminho. Poderíamos dizer que eram amores platônicos instantâneos que mexiam por alguns instantes com suas emoções e que, provavelmente, após algumas estações, nunca mais voltaria a vê-las. Quando não havia ninguém, entretinha-se com um bom livro. Há alguns dias, Bukowski mostrava-se excelente leitura.
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Image by Chovee
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Frequentemente quando chegava ao seu destino, dava-se conta de como certas coisas haviam mudado. A garota pela qual, um dia, havia se apaixonado, simplesmente esquecera de sua existência ou fingia que não mais o conhecia. Algumas vezes perguntava-se como tudo havia acabado assim. E pessoas quais nutria uma grande simpatia, não mais o cumprimentavam e, como resposta, ele nunca perdia a simpatia, mas aos poucos perdia cada vez mais o contato.
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Após a manhã cheia de tarefas, alegria e aprendizado, partia para o trabalho. Mais uma vez no metrô e mais uma vez com os velhos hábitos, seguia a sua estrada. Logo que chegava, exercia suas tarefas com perfeição e, assim, acabava o entusiasmo, pois seus compromissos, agora, não continham nenhuma novidade. Gastava bom tempo pensando em como poderia ganhar dinheiro de forma honesta e que realmente o fizesse feliz, porém, dava-se conta do quanto a vida era dura algumas vezes. Seu expediente acabava e retornava calma e tranquilamente ao lar.
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Image by Dave Evans
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Quando entrava em casa, perdia um bom tempo brincando com seus animais de estimação e depois subia as velhas escadas de volta para o seu querido quarto. Lá gastava as últimas horas do seu dia escrevendo sobre tudo que lhe interessasse ou viesse à cabeça. Depois, retirava sua Fender Stratocaster do suporte e dedilhava algumas notas na guitarra. Quando muito inspirado, escrevia belas canções e sentia-se realmente feliz. Então, descia para o jantar, tomava um banho e voltava à cama para ler ou assistir algum de seus filmes favoritos. O aconchego do edredom e a luz inconstante da TV sempre o faziam dormir. Algumas vezes sonhava, outras não. E assim era o final de mais um dia de uma pessoa qualquer em algum lugar desconhecido desta imensa cidade.
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Ao menos um final feliz

Fazia tempo que não chovia tanto assim. Podia ver seu rosto em cada gota que caía. Uma linda foto para se entreter. Ali, parado, tentava imaginar como a encontraria em um lago deserto embaixo de um belo arco-íris. Algumas vezes tinha um pouco de trabalho para conseguir sonhar.

Resolvi levantar. Fui até a cozinha e olhei em volta.  Nada que me agradasse. Abri a porta e me deitei no quintal. Não tinha medo de nada e ninguém naquele momento poderia me derrotar. O chão molhado me aconselhava a voltar e a chuva, aos poucos, foi cessando. Podia ver seus olhos piscarem para mim em cada estrela que surgia.

Image by Amy

Dei três espirros para me dar conta de que ficaria doente. Sabia que a salvação já não estava mais em meus planos. Só me bastava esperar e essa era a parte difícil do trabalho. Apenas sua presença poderia me curar, mas era tarde demais.

Levantei-me, limpei os pés no tapete e me sentei na ponta do sofá. Com uma expressão triste, arrumei os cabelos e pronunciei minhas últimas palavras:

“Adeus”

Image by Mark Goebel

Uma grande explosão de luz e me deparei em uma gigantesca estrada. A neblina púrpura cobria todo o terreno. Centenas de garotas dançavam no meio da avenida. Todas com vestidos brancos, descalças e de mãos dadas. Celebravam a minha chegada. Ruivas, loiras e morenas. Cabelos lisos e compridos até o ombro. Um festival de olhos azuis. Faziam um lindo coro.

A mais linda delas se virou e correu em minha direção. Foi chegando cada vez mais perto e parou a um palmo de distância. Podia sentir a perfeição de frente. O aroma era magnífico. Olhou-me no fundo dos olhos e sorriu. Piscou e aproximou os seus lábios dos meus. Fechei meus olhos. Apenas um toque. O alívio invadiu meu peito e o peso nos ombros havia sido deixado para trás. Foi o momento mais feliz de toda a minha vida.