Insana consciência

Sua cabeça estava inundada de idéias sem nenhum propósito e o corpo extremamente exausto com o excesso de autoflagelações. O cabelo comprido e imundo jogado sobre as costas, os olhos verdes sem nenhum sentimento e a barba por fazer há dias lhe deixavam com um aspecto sombrio e, ao mesmo tempo, comovente. Submerso em um mundo imaginário, não tinha mais tempo a perder com as futilidades de uma vida normal.

Já não se lembrava mais do próprio nome, afinal fazia alguns anos que ninguém o chamava. Emoções? Talvez não houvesse sobrado nenhuma além do vício e desespero. O amor não fala tão alto quando o peso das pedras de crack em seu bolso chega a ser mais importante que sua própria vida.

Image by Neil Kremer
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Sentado, apoiando as costas sobre a porta de entrada de seu apartamento, não lhe passou um momento sequer pela cabeça como um ser humano é capaz de viver com apenas um colchão e um par de velas e fósforos ao lado das seringas e colheres espalhadas pelo assoalho. Talvez se ainda fosse uma pessoa normal tivesse tais pensamentos, mas a realidade era algo distante em sua vida há um bom tempo.

Vestia apenas uma bermuda. Banho era um luxo que geralmente surgia quando o temporal inundava as ruas enquanto travava uma busca contínua para se entorpecer um pouco mais. Seu estado mental não era dos melhores e, analisando um pouco seu dia a dia, podíamos observá-lo conversando e proferindo palavras sem sentindo:

– Um pouco mais, por favor! Seja cuidadoso para não me interromper enquanto aprecio esta obra… Crowe, Hendrix, Gallaghers, Robinsons, Bukowski, Kurbic, Warhol, London, Zemeckis… Kerouac, Jackson, Humble Pie, Di Giorgio, Fender, Brown… 2001, Almost Famous, Amorica… Só um segundo Glória, já está quase no fim!

Image by Alden Chadwick
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Este ritual atípico continuava por horas ou até dias. Como tudo chegou a esse ponto? Nem mesmo eu saberia dizer, mas não é preciso pensar muito para descobrir como tudo iria terminar. A agulha estava fincada em seu braço direito, porém a dose ainda não havia sido injetada. Essa parecia um pouco maior e muito mais forte que todas as anteriores. Após diversas overdoses e inúmeras oportunidades para enfrentar e debochar da morte, era fácil deduzir que, depois de quatro anos jogado no limbo, esta seria a viagem final.

Apesar de saber exatamente o que fazer e qual resultado tudo teria, ficou imóvel algumas horas até criar coragem para aplicar a dose que lhe libertaria. As lágrimas escorriam por seus olhos e molhavam seu rosto acabado e envelhecido enquanto pressionava a agulha e injetava seu “passaporte para a felicidade”. Uma bomba de adrenalina inundou seu peito, sua cabeça foi tomada por uma dor assombrosa e a luz da vida se apagou em um último flash. Sua mão caiu sobre o chão e ele dormiu para nunca mais acordar.

A polícia local o encontrou somente três semanas depois. Só se deram conta do que havia acontecido, porque o cheiro da morte empesteava todo o prédio. A seringa ainda estava em seu braço. Procuraram por sua família e pesquisaram sobre seu passado, porém nada foi encontrado. Sem nome e sem vida, foi enterrado como mais um indigente destruído pelo caos de uma grande metrópole. Ninguém, além de nós, o “conhecia tão bem”, e nenhuma falta ao mundo ele realmente faria, mas era possível perceber que, agora, finalmente, havia se tornado um homem livre.

The Masterplan

Havia decidido, antes mesmo de parar um minuto para pensar, que não faria mais nada para apressar meu dia ou fazer dele apenas mais um outro no meio dessa longínqua semana. Tentei ser sincero comigo mesmo e percebi que nem com a minha própria pessoa tenho facilidade em mostrar quem realmente sou. O telefone tocou e decidi voltar ao mundo real. Troquei emails durante algum tempo, conheci novas pessoas e reparei que o sol tem um brilho diferente a cada novo dia. Quando me dei conta, já me encontrava em uma situação que não acontecia há um bom tempo.

O carro parado em frente ao prédio e um último suspiro de coragem para que a noite pudesse correr sem nenhum problema. Desci do automóvel e a vi saindo pela porta da frente. Ela estava linda e se vestia muito bem. Mulheres bem vestidas ganham muitos pontos ao olhar de um homem maduro, principalmente em um mundo no qual, hoje em dia, a vulgaridade se tornou algo comum.  Com um leve cumprimento, a elogiei pela sua grande beleza e a acompanhei até a porta do passageiro. Abri e a convidei a entrar.

Image by Charlotte Marillet

A noite parecia perfeita. A conversa fluía melhor e mais agradável do que poderia imaginar. Fomos a um PUB esperar um pouco antes que o evento começasse. Os irmãos Gallaghers estavam na cidade e isso significava egocentrismo, baladas e rock and roll. Oasis é uma de minhas bandas favoritas e, independentemente do que fosse acontecer durante aquela noite, algo de muito bom ainda teria de ser aproveitado.

Descobrindo um pouco mais sobre cada um de nós, não vimos o tempo passar e quando nos demos conta já estávamos atrasados para o show. Apressamos-nos e saímos pela porta do bar. Um grande temporal tomava conta da cidade. Chuva é algo comum quando o Oasis está por aqui. Toda vez que os odiosos ingleses tocam, o céu resolve desabar e espalhar suas mágoas por toda a metrópole.

Image by Paola Caruso

Preparei-me para correr e ela, em um gesto singelo, não me deixou que buscasse o carro e a encontrasse na entrada do local para que não se molhasse. Abraçamos-nos e, com o seu casaco perfumado estendido sobre nossas cabeças, andamos passo a passo  em direção ao estacionamento . É engraçado como podemos nos lembrar de algumas sensações sem que seja preciso nos esforçar para isso.

No caminho até o show, nos encontrávamos lado a lado e me impressionava muito o modo sincero e carinhoso como ela sorria. Quando percebi que a aglomeração de pessoas passava a ser cada vez maior, aproximei minhas mãos das dela e as segurei com muito cuidado. Um gesto recíproco vindo de sua parte deu-me coragem para prosseguir. Pouco a pouco, fomos nos aproximando. Podia sentir a harmonia que se espalhava pelo local e a música já se infiltrava com todo o poder em meu coração. Quando chegamos a pista, o show de luzes nos abraçava e nos convidava a ficar cada vez mais próximos. Os primeiros acordes de ‘The Masterplan’ começaram a soar. Virei-me em sua direção e a puxei delicadamente pelas mãos. Vagarosamente me aproximei de seu rosto. Podia sentir o calor de seu corpo e, quando me dei conta, um caloroso beijo nos foi agraciado. Um momento simples e, ao mesmo tempo, mágico. A partir dali, não precisaríamos de mais nada para que tudo continuasse bem.