Garça

Eu olho para o céu e vejo um azul tão lindo quanto você! Sua pele, seu rosto, suas mãos. O contorno perfeito do shorts sobre suas pernas. Perderia horas e mais horas a te observar.

O riso inocente, o som do vento e uma brisa serena felicitam a nossa estadia. Uma garça solitária passeia pelo jardim. Observa com receio os estranhos que se aproximam. Esbelta. Firme. Bela. Voa solenemente assim que um casal cruza a passarela. Pousa no galho mais alto enquanto espera os intrusos se afastarem. Sua vida seria diferente se não estivéssemos aqui. Minha vida também seria. Talvez uma ínfima mudança apenas por ter passado algumas horas nesse lugar.

Os contornos orientais fazem-me imaginar como seria a vida dos primeiros descendentes que pisaram sobre essa terra. Também divago porque ninguém nessa cidade abriu uma escola de kung-fu estilo garça. Poderiam prosear que o nome da cidade era uma homenagem às habilidades do inesquecível sensei Fung Ja Mal Kin. Ele podia quebrar os galhos com apenas um sopro. E cortar as nuvens com um único petardo. É, às vezes, nossa imaginação nos leva longe demais.

Lago espelhado com pedalinhos em forma de cisnes na margem

Dou um gole na água e refresco meus pensamentos. Vejo o reflexo das árvores cintilarem no lago a minha frente. Impressiono-me por não encontrar uma nuvem no céu. Que beleza memorável. Uma pena a asma não querer me abandonar. Inspiro com dificuldade. Esforço-me para sentir os ar puro a minha volta. Infelizmente, as drogas não fazem o efeito necessário. Tudo bem! Nada disso poderá me atrapalhar. É apenas um lembrete pulmonar sussurrando que certas coisas em nossa vida nunca mudarão.

Crianças riem no pedalinho. Almas gêmeas se amam abaixo das cerejeiras. Um rastafári puxa fumo enquanto se funde à calmaria do ambiente. Afinal, todos podem ser felizes.

Vejo-te ao longe e lembro da sorte que  tenho por tê-la ao meu lado. Está agitada. Suplica por um sorvete. Faz de tudo para espantar os insetos que insistem em importuná-la. A cena me diverte, pois nunca vi ninguém ter medo de borboletas antes. Sorrio. Você vive em um mundo que não tenho capacidade de entrar. Ainda tenho muito a aprender.

Tiro a camisa, levanto e volto lentamente para o veiculo. Abro a porta. Respiro três vezes até me sentir satisfeito.  Com o dedo indicador, você desenha um coração sobre minha perna direita. O carro parte.

Foi um dia lindo. Tão lindo quanto você!

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Imagem: Black Throated Green Warbler

Manhã de Outono

Acordei com uma dificuldade incrível para respirar. O ar dificilmente aliviava minha agonia e, a cada tentativa desesperada, um chiado perturbador mostrava que algo não andava bem. Levantei-me realmente incomodado. Calcei o tênis. Peguei a chave do carro. No caminho, perdi alguns minutos saudando os dálmatas que dormiam no quintal. Cheguei exausto até o automóvel. Podia ainda sentir o sereno da madrugada. Fazia um lindo dia, mas eram apenas oito horas da manhã. Muito cedo para quem tinha ido dormir às 5h. Dei a partida e me dirigi até a farmácia mais próxima.
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Acabei chegando mais rápido que esperava. É difícil ficar preso no trânsito tão cedo assim em um domingo, ainda mais em uma cidade do interior. Estacionei a meio fio e desci do carro. Em frente a porta, um cachorro preto, peludo e sem raça identificável observava a movimentação. Parecia extremamente manso. Pensei em compartilhar algum momento com ele, mas estava mais preocupado com o meu pulmão àquela altura do campeonato. Porém, não conseguia parar de pensar no quão feio era aquele animal. Um dos cães mais horrendos que já pude ver. Ainda bem que havia nascido cão, pois, se fosse humano, teria ínfimas possibilidades para ser amado, casar e constituir uma família.
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Image by Joe McGowan
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Entrei cauteloso e tentei aparentar uma doença normal. Sentia tanta falda de ar que precisava falar pausadamente para não acabar com o fôlego. Pedi por um Berotec xarope e aguardei. A atendente estava mais feliz que o habitual. Ou gostava mesmo de trabalhar e não se importava nem um pouco em fazer o “ótimo” turno na manhã de domingo ou algo realmente bom andava acontecendo em sua vida? Seu sorriso deixou-me um pouco mais feliz. Paguei, agradeci e voltei ao carro.
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Liguei o som, tomei uma boa golada do xarope e fui até a praça mais próxima esperar o remédio fazer efeito. Estacionei na rua principal. Ficava em frente a um enorme lago. O sol refletia na água e as folhas rosas e laranjas flutuavam a cada rajada de vento fazendo desenhos invisíveis pelo céu. Era um lindo lugar para aguardar e parar um segundo pra pensar na vida. Apenas eu e meus brônquios suplicando por um pouco mais de ar.
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Image by Carola Ferrero
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Parei para refletir enquanto Mayonaise tocava a um volume considerável. Algumas oportunidades haviam surgido, mas o amor resolveu me deixar esperando um pouco mais. Desde quando ficou tão difícil se apaixonar? Mais um ano se passava e, pela primeira vez, senti que não havia feito nada de importante nos últimos doze meses. Era apenas impressão, mas perceber que o tempo passa cada vez mais rápido começava realmente a incomodar. Daqui a seis anos vou estar com trinta. Um pouco infantil, mas, ao mesmo tempo, bastante assustador.
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Depois de uma hora ou uma hora e meia, os efeitos do remédio começaram a surgir. E o do Berotec é um dos melhores. Você sente um relaxamento fora do comum e uma sensação de bem estar impressionante. Gosto de comparar com a sensação que temos logo depois que atingimos o orgasmo. Aquela preguiça única e incomparável, para nós homens, é exatamente a mesma. Dormir sobre o efeito deste remédio nos garante uma noite, ou dia, incrível de sono.
Image by Federico Capoano
Já com o pulmão em ordem, dei a partida e retornei para casa. Apesar da doença, sentia-me muito bem, pois havia aproveitado um pouco da manhã de uma forma, no mínimo, relevante. Estacionei em frente à garagem, cumprimentei os cães mais uma vez e fui para o quarto. Tirei o tênis, puxei o edredom e, novamente, adormeci.

O despertar de um sonho

Esperar por respostas nunca fora sua verdadeira intenção. Sozinho em seu quarto, compondo e se esforçando ao máximo para analisar os erros que o impediram de mostrar seu verdadeiro potencial, se afogava em mágoas que nunca mais o abandonariam.
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Poderia escrever uma canção para cada sentimento que o invadia. A essa altura já eram muitos e formavam um redemoinho intenso de melancolia que atingia seu peito como uma chuva de ardor e farpas.
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Image by Spencer Starnes.
Ao observar as luzes dos carros que refletiam pelo teto, começou a imaginar um mundo mágico no qual todos eram felizes. Onde os raios do sol cintilavam belos a cada manhã e o fracasso não atingia nem mesmo o mais insignificante dos seres. Podia correr entre as arvores e sentir a brisa deliciosa do verão. Ser amado e poder retribuir de forma verdadeira tal sentimento. Um mundo no qual conseguisse voltar ao lar e mostrar um sorriso sincero sempre que se olhasse no espelho.
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Sentado a beira de um magnífico lago, ele podia ver uma linda mulher que nadava tranquilamente pelo caminho do horizonte. O por do sol deixava sua silhueta ainda mais intrigante e sabia, mesmo sem nunca tê-la visto, que o momento de conhecê-la era aquele. A garota emanava uma energia incrível e por alguma razão, podia sentir que ela o chamava. Começava a perceber que todos os pensamentos eram guiados em sua direção. Resolveu, aos poucos, tirar suas roupas e deixá-las de lado. Quando a última peça atingiu o solo, aproximou seus pés da areia e deixou que o instinto lhe guiasse.
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Image by Corie Bidgood
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Nadando pelas águas mornas, lentamente foi se aproximando da garota e, finalmente, conseguiu visualizar nitidamente seu rosto. Era lindo e misterioso. Não reconhecia, mas tinha certeza que era familiar. Os olhos negros e a pele clara como a neve o impressionavam, pois ao longe não conseguia perceber que, na realidade, a garota era ainda mais linda que imaginava. Os cabelos escuros refletiam a luz do sol, e o sorriso sincero o emocionava de tal forma que sua juventude não lhe permitia entender.
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Enquanto se aproximava, deu-se conta que a garota, agora, também nadava em sua direção. Os olhos dela iam de encontro aos seus. A água rebatia levemente em seu rosto e sua visão era preenchida pela chegada da desconhecida companheira. Quando se aproximaram, já era possível sentir a respiração ofegante de cada um. Cessaram o nado e passaram a se olhar sem nunca deixar de estampar um sorriso no rosto.
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Image by you me
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Alguns minutos se passaram e ele tinha a impressão que nunca havia sido tão feliz em toda sua vida. Aquele simples momento, um olhar e um pequeno sorriso, havia mudado sua breve existência para todo o sempre. Com um gesto suave, ela estendeu sua mão direita para fora da água e proferiu seu nome. Ele entendeu o gesto e fez o mesmo. Suas mãos se aproximaram e, em um toque suave, se uniram. A felicidade invadiu seu corpo e um amor esquecido e solitário voltou a preencher seu coração.
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As luzes no teto de seu quarto continuavam a brilhar, mas agora podia sentir com clareza a respiração suave da mulher que dormia abraçada ao seu lado, com a cabeça apoiada docemente em seu ombro e a mão direita que, agora, jazia solenemente sobre a sua. Havia por um momento se esquecido do que era realmente importante em sua vida. Sentia-se muito bem. Sorriu, fechou os olhos e, finalmente, adormeceu.