Segunda-feira

Maldita segunda-feira
Acordo e quero me suicidar
Sou escravo de um sistema que não funciona

Bebo água
Olho-me no espelho
Desâmimo
Olheiras profundas
Barba rala
Sorriso amarelo
Finjo que está tudo bem

Penso em todas as horas que vou perder essa semana
Nas quais poderia fazer algo útil
Para minha vida
Aos outros
Ao mundo
Que desperdício

Imagino quantos sintam-se assim como eu
Desesperados
Inúteis
Peças de um quebra-cabeça que nunca se encaixam

As ruas são cinzas
Vejo no rosto das pessoas a falta de sentimento que as rodeia
Não percebem a grande piada que o mundo se tornou
Vivem dia após dia aguardando os finais de semana
As férias remuneradas
O seguro desemprego
Em busca de um pouco de alegria
Para disfarçar a falta de sentido que suas vidas têm

Não questionam
Não se rebelam
Não entendem
Sequer se interessam por qualquer tipo de informação
Assim não têm com o quê se preocupar
Invejo-as

Não querem verdades
Querem apenas o dinheiro
Que as liberta por poucas horas de uma rotina infeliz
E que voltará a atormentá-las assim que colocarem a cabeça no travesseiro no final do domingo

Conto as horas para voltar ao lar
Conto os dias para o próximo feriado
Risco o calendário
A espera das férias que nunca chegam

É sempre assim
Ano após ano

Mas ainda faltam décadas para me libertar
E quando isso finalmente acontecer
Estarei velho
Indisposto
Com a inocência e vontade de viver perdidas

Ficarei em casa
De chinelos
Gordo
Assistindo programas inúteis pela TV
Cuidando da vida dos outros
Indignado com os jovens que fazem tudo aquilo que não tenho mais coragem ou disposição pra fazer

Lembrarei da juventude como algo muito distante
Uma passagem linda que tenho saudades
Tempos remotos em que achava que realmente era feliz

Fui enganado por tanto tempo
Que não me importo mais
Imagino que a vida deve ser assim mesmo
E não há nada que possamos fazer para mudar isso
Choro sem saber porquê

Maldita segunda-feira

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Imagem: Kate Ter Haar

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Melancolia

O copo de chá está quase vazio
O telefone não para de tocar
Ouço problemas o tempo todo
Mentes solitárias a procura de paz
E só consigo pensar em você

Os minutos não passam
Horas parecem anos que sufocam minha alma
Caminho há dias cabisbaixo
Por quarteirões vazios e tristes
E só consigo pensar em você

As recentes preocupações me dão náuseas
Minha herpes estoura
É difícil sorrir
Nada que ouço ou leio me interessa
Pois só consigo pensar em você

Começo a segunda
Mas anseio pela sexta
Acordo em manhãs frias
Enquanto desejo noites quentes
Saio de casa e só quero voltar logo

Temo
Duvido
Rejeito
Espero do mundo
Algo que ele nunca será

Mas no fim, sei que
Seu abraço
Sua voz
E seu sorriso
Farão tudo valer a pena

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Imagem: Marcin Bruniecki