Ressaca de emoções

Acordou com o sol queimando sua retina. Estava desnorteado, sem lembranças e em um lugar muito longe de casa. Ouvia o barulho das ondas e sentia o calor infernal. Estava jogado na praia, sem documentos e com apenas as roupas do corpo. Somente algumas peças. Uma camisa branca cheia de marcas de batom e sua inseparável calça jeans. Os tênis? Se não lembrava os acontecimentos recentes da noite anterior, jamais poderia recordar o verdadeiro destino que seu surrado calçado poderia ter tido.
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Levantou-se com dificuldade, olhou o mar, apanhou as duas garrafas vazias do chão e se dirigiu até a estrada. Pelo caminho, batia nas roupas para tirar a areia e lutava para combater o cansaço. Estava com uma sede incrível e algumas pontadas inconvenientes ao lado esquerdo da testa. Era uma dor que realmente incomodava. A ressaca, desta vez, era das grandes. Ao mesmo tempo em que implorava ao mundo por um óculos escuro, perguntava-se onde havia encontrado tanto dinheiro para comprar uma garrafa de Jack Daniel’s e um extravagante Rosso di Montalcino.
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lua
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Os fios castanhos e desajeitados de seu cabelo brilhavam cada vez mais e os olhos suplicavam por um lampejo de memória. Sua camisa estava carregada com um perfume único, mas irreconhecível. Uma fragrância suave e muito natural. Lembrava-se apenas de uma linda garota de cabelos negros e olhos azuis que dançava ao seu lado. Por um momento se entregaram a uma troca de olhares mútua e sorriram discretamente. Aproximaram-se lentamente, tocaram levemente as mãos e beijaram-se no terraço. A lua os observava com atenção. No meio do baile, todos paravam por um momento para apreciar o romance com um pouco de carinho e admiração. Mas eram apenas essas suas ultimas lembranças. Não recordava nomes, muito menos o que havia acontecido desde então.
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Chegou na calçada e jogou as garrafas no primeiro cesto de lixo que encontrou. Não tinha noção das horas, mas era um belo dia e muitas pessoas passeavam pelas ruas. Os mais diversos tipos apenas aproveitando um pouco mais a vida. Todas as pessoas que cruzavam o seu caminho acenavam com dedicação e lhe dirigiam grandes sorrisos. Lindas garotas trocavam olhares insinuantes pela estrada, o que fazia o longo caminho tornar-se menos tedioso. O porque de tudo isso era um mistério bastante prazeroso.
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Image by Janx
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Talvez tenha demorado uma hora e meia para chegar até em casa. Ainda estava perplexo com a reação de todos. Virou as chaves vagarosamente e atirou-se ao sofá para descansar e refletir. Uma velha canção voltou a ecoar em sua mente e ele se sentiu obrigado a ir até o piano para tocá-la mais uma vez. Era uma bela música, afinal ele a tinha feito para uma linda garota que, por sinal, nunca se importara muito com a composição. Ele obteve apenas um simples obrigado como resposta. Isso, realmente, o deixava perturbado. Não porque esperasse que ela se atirasse a seus pés ou lhe admirasse com um grande amor, mas porque necessitava que dessem um pouco de valor ao seu gesto. Será que ela não percebia que, mesmo daqui a cinquenta anos, possivelmente, ninguém mais faria algo semelhante? Ele deixou claro que não correria mais atrás, já que, por seus princípios, tinha certeza que não valia a pena insistir quando não compreendiam suas verdadeiras intenções. Isso feriu o orgulho da menina de uma forma tão grande que nunca mais ela quis lhe olhar nos olhos. Ela, provavelmente, desconhecia o real motivo de sua raiva.
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Seu orgulho era maior que o rancor dela, o que fazia com que ninguém tentasse uma nova reaproximação. Não que fosse necessário, mas era trabalhoso fingir que o outro não existia quando eram obrigados a dividir o mesmo ambiente. Era um desconforto desnecessário, mas que ambos disfarçavam não sentir. Porém, ainda havia algo que ninguém poderia negar: mesmo com a indiferença, ela continuava linda.
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Image by umberlla
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O último acorde foi tocado e ele se levantou satisfeito de suas próprias habilidades. Tinha orgulho de sua criatividade e, principalmente, de tudo o que escrevia. Foi até o bar e preparou uma pequena dose, afinal já estava escurecendo e mais uma grande noite chegaria. Foi até a vitrola, escolheu um ótimo disco e o colocou para tocar em um volume razoável. Sentou-se novamente e chacoalhou levemente o copo. Tomou um grande gole e voltou a apreciar a vida.

O último adeus

Sentado com o pequeno pinscher em seu colo, tentava se recuperar da incrível maratona de exageros e boemia que sua vida se tornava. Algumas vezes se perguntava em que momento tudo havia mudado tanto e em que parte de sua rotina havia deixado sua inocência para trás. Tinha certeza que era tudo um ciclo que não podia mais ser evitado e que precisava ser extremamente controlado para que todos os seus objetivos não se tornassem um fracasso eminente dali para frente. A cada dia se dava conta que tinha menos tempo a perder.
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Quando se levantou, ajeitou seu rebelde cabelo de fios loiros e vestiu a camiseta de sua banda favorita. Os jeans já estavam a postos e a chave do carro apenas aguardando ao lado do abajur. Deu a partida e seguiu sem rumo. Os olhos claros refletiam sua sensível instabilidade diante do retrovisor. Não havia um veículo na estrada e nenhuma alma viva pelos arredores.
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Image by NASA Goddard Space Flight Center
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Após vários quilômetros percorridos através do breu, percebeu um brilho intenso a sua frente e que se posicionava bem no meio da pista. Foi diminuindo a velocidade ao mesmo tempo que abaixava o volume do rádio. Aproximou- se da luz e estacionou. Não era possível perceber o que estava acontecendo. O brilho exagerado formava uma esfera gigantesca de luz que, por dentro, guardava a silhueta de uma pessoa. Estava incerto se deveria descer e se aproximar. Sentia um calafrio intenso. O pressentimento que algo terrível aconteceria era enorme, mas a curiosidade tomava conta de seus pensamentos. Depois de muito analisar, uma voz suave e muito convidativa ecoou em seus pensamentos:
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“Aproxime-se. Não seja covarde! O presente mais importante de toda a sua vida está à sua espera. É necessário que dê apenas um passo em direção à luz. Vamos, algo extremamente especial está prestes a acontecer. Os prazeres mais intensos finalmente chegarão até você. Entre… Não tenha medo… Seja muito bem vindo…”
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Image by Nana B Agyei
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O medo lhe dominava por completo, mas mesmo assim decidiu avançar. Desceu do carro e lentamente chegou cada vez mais perto. A luz era fortíssima e, caso demorasse um pouco mais, percebeu que logo ficaria cego. Deu um longo suspiro e finalmente entrou. O primeiro passo dentro da incrível luz mudou todos os seus conceitos sobre o mundo que, até aquele momento, conhecia.
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Estava em um quarto imenso que possuía apenas dois móveis: uma cama de casal gigantesca igual a de reis e rainhas dos séculos passados e um piano de calda preto à sua direita. A gravidade parecia ser diferente, seus passos muito mais leves e as luzes incrivelmente vivas e fortes. Uma varanda se posicionava em frente à cama e deixava a mostra um incrível mar rosado com a praia mais bela que já pudera ver. O som das ondas parecia uma canção e pelo céu completamente azul, choviam estrelas cadentes.
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Image by Pink Sherbet Photography
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Quando parou de apreciar o ambiente, percebeu que uma linda mulher o esperava deitada sobre a cama. Era linda. Possivelmente a mulher mais linda que já havia visto. Olhos azuis, cabelos pretos e lisos até as costas. Pele morena e leve como a seda, lábios suaves e uma voz melodiosa que poderia acalmar o mais raivoso animal. Ela o media de cima abaixo enquanto ele se perdia na hipnose que sua anfitriã o havia colocado. Havia se apaixonado intensamente em uma fração de segundos e pela primeira vez conseguiu acreditar que existia amor a primeira vista. Ela estava nua e o chamou para que se deitasse na cama. O medo não existia mais e ele apenas se aproximou e deitou-se ao seu lado. Ela o abraçou intensamente e sussurrou ao seu ouvido.
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– Saiba que a partir de agora não existe mais volta. Mas não se preocupe, pois todos os seus esforços serão recompensados essa noite. Não tenha medo, porque eu realmente te amo!
Image by Kristaps Bergfelds Seguir
Ele não podia responder. Apenas ouvia e amava intensamente. Ela começou a despi-lo e lhe deu o beijo mais gracioso que já havia recebido. Fizeram amor como em um conto de fadas. A cada beijo, gesto, carinho e abraço sentia- se cada vez mais completo. Jamais havia sido contemplado com algo tão intenso e pela primeira vez o verdadeiro amor inundava seu coração de felicidade. Estava em êxtase e, por pelo menos uma única vez, apreciou um verdadeiro prazer pela vida. Finalmente tudo valia a pena.
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Ao amanhecer, abriu os olhos e se viu imóvel com os braços e pernas amarrados em cima de uma cruz. Sua linda amada estava sentada ao piano e percebeu que ele havia acordado. Deu-lhe o sorriso mais lindo que uma garota poderia ter e começou a tocar enquanto lagrimas escorriam por seus olhos. Três garotas invadiram o quarto pela varanda. Caíram do céu e se aproximaram da cama. Eram belíssimas, mas, agora, todas eram ruivas e de olhos verdes. Pareciam gêmeas. Nuas e com estacas e martelos nas mãos foram em direção as pontas da cruz. O pavor tomou conta de seu interior e percebeu que por mais que se esforçasse, era impossível mover-se ou gritar. Estava paralisado. As estacas foram colocadas em suas mãos e pés. Ouviu um som ensurdecedor e a dor dominou todos os seus sentidos. A única coisa que podia fazer além de sofrer, era chorar. Após cinco marteladas, foi içado ao ar por uma força invisível. Crucificado, o colocaram na imensa parede em frente à cama. O sangue escorria por seus membros. As garotas saíram pela mesma varanda pela qual haviam chegado. O piano cessou e sua inesquecível anfitriã se aproximou. Deu-lhe um último beijo e desapareceu, deixando-o solitário em um mundo incrível que não conhecia.
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O sangue e a dor continuaram por mais alguns dias em seu eterno sofrimento. A dor pelo abandono era ainda maior que os ferimentos mortais ao qual estava exposto. Pôde refletir por muito tempo e chorar por mais um amor perdido. No quinto dia, seu coração, finalmente, parou de bater. Ele não teve chance de nem mesmo dizer-lhe um último adeus.