Por entre as grades da janela

O mundo vira um lugar muito melhor após o anoitecer. Principalmente depois que aprendemos a viver no constante exagero da boemia diária, que nos mata pouco a pouco enquanto negamos ao corpo uma chance de nos mostrar o quão errado está o caminho que sentimos prazer em seguir. Pessoas importantes sucumbiram diante disso e uma infinidade muito maior, que nunca sequer saberemos quem foram, também. Para dizer a verdade, sinto bastante falta da minha infância.
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Em alguma dessas noites, poderia muito bem lhes contar que o mundo girava ao meu redor. Era livre, engraçado, chamava a atenção e sabia que o sorriso não fugiria nunca de meu rosto. Amigos, amores ­­ – correspondidos ou não ­–, brincadeiras, brigas, verdades, mentiras, músicas, sorrisos, carinhos e abraços. Tenho muita sorte em afirmar que a felicidade sempre caminhou comigo lado a lado.

Image by A National Acrobat

Agora, sentado e tentado escrever, não poderia deixar de ser tão sincero. Vejo os raios do sol de uma maneira diferente, mais vivos, belos e radiantes. O céu, limpo e ciano, nunca esteve tão azul. Uma brisa refrescante passa por minha silhueta e sussurra ao meu ouvido: “Não importa o que deseje, você não poderia estar em melhores condições.”

Não sinto frio nem calor, apenas o vento suave e sereno me pedindo para que flutue com ele por alguns instantes. Uma linda garota de cabelos loiros, presos, passa pelo outro lado da calçada, falando ao celular, desfilando sua admirável beleza. Um sorriso inesquecível e seu vagaroso andar. Passos lentos e aconchegantes. A noiva indo de encontro ao altar. Realizando um sonho de menina. Se tivesse a oportunidade de vê-la de frente, poderia jurar que uma lágrima está prestes a escorrer por seu maravilhoso rosto. Apaixonei-me em uma fração de segundos, mas já estarei livre assim que ela dobrar a esquina.

Image by Nick Kenrick

As arvores não estão com tantas folhas assim e só posso ouvir pequenos pássaros a cantar. Um amigo disse-me que o outono havia chegado e só me dei conta da verdade neste exato momento. Nunca havia percebido que sinto prazer ao ouvir o som dos carros deslizando pelo asfalto.

Tudo isso ouvindo One Day It Will Please Us To Remember Even This (New York Dolls). A um primeiro momento, pode lhe parecer estranho e que não seria uma trilha sonora selecionada com cautela, mas se tiver a chance de fazer o que está me entretendo, verá o quão verdadeiro estou sendo em minhas palavras. Acho que nunca estive tão certo em toda a minha vida e a satisfação em meu (ou seu) rosto lhe dará provas de que por menor e menos significantes que sejam alguns momentos, a vida pode ser muito melhor do que tudo que esperamos dela.

Vou me esforçar para voltar ao mundo real. Ainda é cedo e o feriado mal começou. Acho que sou uma pessoa fácil de entreter. Não espero muito do universo. Deve ser por isso que estou sempre feliz. Tentarei passar isso adiante, mas o ser humano não é um animal simples de convencer. Gostaria de continuar agora, mas não quero me cansar, nem a mim nem a todos vocês. Voltarei um dia e estarei os aguardando com um imenso prazer. Até.

Passagem

Talvez tenha exagerado um pouco nos últimos dias. Fazia tempo que não passava por isso e algumas lembranças não me vêm mais à memória. Tudo bem. Já está chegando a hora de voltar ao mundo real. Sinceramente, não gostaria.

O beija-flor que sobrevoa minha janela em algumas manhãs sabe muito bem do que estou falando. Algumas experiências mudaram minha percepção sobre alguns conceitos que eu havia formado e, dependendo de nosso estado mental, percebi que certas atitudes do mundo começam a fazer sentido.

Essa passagem de ano foi um pouco diferente. Quanto mais o tempo passa, tudo parece ficar mais difícil. Gostaria de ter manipulado minhas peças de forma diferente. O jogo ainda está no começo, mas é agora que as grandes jogadas irão se definir e mostrar qual caminho me sobrou a seguir. A verdade é que preciso dar mais uma chance ao tempo.

A verdade por trás da máscara

Bebemos o álcool, bebemos as pessoas, bebemos a vida. Maquiamos e desenvolvemos o que acontece ao nosso redor. E por mais casual e repetitivo que tudo pareça, a ressaca nunca é a mesma.

Ressaca de álcool, ressaca de pessoas, ressaca da vida. O incrível mal causado pelo contínuo exagero. A verdade por trás da máscara nunca é revelada.

Dores de cabeça, dores no coração, dores da vida. A horrível agonia que cerca a sociedade. E mesmo que atravessem o limbo e o caos infinito, nunca deixam de lutar. Através dos olhos que não nos permitem ver, percebemos o quanto tudo isso é ótimo.

É ótimo beber, é ótimo conviver, é ótimo viver.