Rancor

Eu queria mesmo poder dizer que nossa relação foi única e inesquecível. Realmente gostaria de lembrar que todos os momentos passados ao seu lado foram maravilhosos e inigualáveis. Adoraria gritar ao mundo que você me fez feliz como ninguém antes havia feito. Mas, infelizmente, eu não posso. Mesmo que parte destas palavras algum dia tenham sido verdade, sou rancoroso demais para esquecer as feridas que sua rejeição me causou. Ainda não tenho maturidade suficiente para esfregar as cicatrizes e recordar de tudo como algo lindo que já não existe mais. Talvez nunca consiga ter. Os anos passaram e não fui capaz de apagar essas emoções. A culpa não é completamente sua, eu sei, porém, essa é a forma que eu encontrei para lidar com tais sentimentos.

Eu verdadeiramente te amei como nunca havia amado ninguém até então e faria de tudo para estar sempre ao seu lado. No entanto, você não acolheu esse amor e preferiu seguir seu próprio caminho. Você teve seus motivos. Eu entendo, mas não posso aceitá-los. Não posso, porque consigo imaginar vividamente tudo que teríamos alcançado juntos e porque tenho certeza que ninguém a faria feliz da forma que eu poderia. Sei que ninguém se dedicaria tanto. Eu me abri e me entreguei da forma mais sincera possível. Jamais havia feito isso com ninguém. E por causa dessa vulnerabilidade eu tentaria alcançar o impossível para ver o sorriso em seu rosto. Dividiria meus sonhos e certezas para andar contigo lado a lado. Como dois. Iguais. Unidos. Sempre. Construiríamos uma vida linda juntos. Eu sabia. Eu tinha essa certeza. Mas você não. Talvez você teve medo que eu não pudesse cumprir minhas promessas ou que não seria um companheiro digno para buscar nos mais íntimos detalhes o que havia de melhor em você. Eu acreditava em mim. E lamento do fundo do meu coração que você não tenha acreditado.

Hoje, depois de todos esses anos, consigo desejar o melhor pra você, mas não posso manter nenhum tipo de contato nem fingir que tudo está bem, porque provavelmente nunca estará. Não entre nós, pois nunca vou esquecer o quanto nossa história me fez sofrer e essa dor ficará guardada para sempre em meu coração.

Não quero mais ouvir a sua voz. Não preciso de sua amizade. Não desejo a sua aprovação. Ver-te por ai não me trará nenhum sentimento bom. Mas apesar de tudo, espero que você esteja bem. Porém, bem longe de mim.

Ainda não encontrei um modo para amansar este rancor e espero que algum dia ele me abandone. Quando esse dia chegar, serei maduro o suficiente para lembrar do seu rosto com certo carinho e entender que tudo o que passamos juntos foi uma fase fabulosa de aprendizados e descobertas que me fez entender muitas coisas boas e ruins que a vida tem a nos oferecer.

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Imagem: Jenavieve

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Proletário

Horas seguidas olhando pra tela do computador. As costas doem. Um sedentarismo obrigatório. Por um trabalho sem fim. O escritório pulsa à escravidão. Dia após dia. E continuaremos assim por anos a fio. Insatisfeitos. Deprimidos. Até que todos envelheçam ou sejam substituídos por alguém que faça o mesmo trabalho, porém com maior rapidez ou afinco.
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Os jovens têm mais vontade. Mais atitude. Mais disposição para se sacrificarem em prol de uma mentira. A maioria deles ainda não percebeu que foi enganada desde que abriram os olhos na maternidade. Quando assistiram os filmes e programas na TV. Quando fizeram as provas e tarefas escolares. Quando foram obrigados a trabalhar para sustentar a vida que possuem. Infelizmente, não se deram conta que poderiam ter tudo o que quisessem. Uma pena que não vão lhes deixar viver. Não querem que os outros também tenham. Para manter a engrenagem girando, muitos ainda terão que sofrer.
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Declaro que nunca me farão acreditar na economia. Bolsa de valores? FMI? Índice Dow Jones? No cu! São todos uma farsa. Dinheiro é papel. Não é matéria prima para nada. Não constrói. Não mata fome. Não sacia a sede. Talvez esquente, se o queimarmos em uma bela fogueira. Aliás, nem papel é mais. Agora, é apenas um dígito na tela de um celular. É óbvio que já temos tecnologia para prover energia a todo o planeta da melhor forma possível. Sem explorar a natureza. Sem acabar com o mundo. Desperdiçamos comida suficiente para extinguir a fome da terra. Mas continuamos aqui batendo o ponto. Suicidando-nos pela ganância de outrem. Para colocar o pão na mesa. Para ver o riso na face de nossos filhos.
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Pessoa estressada, com a mão na cabeça em frente ao laptop
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Pense. Dez horas por dia. Durante 5 ou 6 dias por semana. Por 11 meses do ano. Por, no mínimo, 30 ou 40 anos da sua existência. Meu chapa, roubaram sua vida. Subjugaram sua felicidade. Aniquilaram seu precioso tempo. Privaram-te de inúmeras experiências. Imagine o que você poderia fazer durante esse período. Os lugares que poderia conhecer. As culturas que poderia apreciar. As novidades com as quais poderia se surpreender. O tanto de informação útil e inútil que poderia absorver. As pessoas com as quais poderia se relacionar. Você poderia fazer o que quisesse. A hora que quisesse. Quando quisesse. Para você. Para quem você gosta. Para os outros. Vislumbre o tempo que teríamos para ajudar a construir algo melhor. Seria infinito. Faríamos por amor. Por entusiasmo. Por tédio.
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E não venha me falar que “sempre foi assim”. Que “nunca vai mudar”. Que “é de nossa natureza”. E “não há nada a se fazer”. Se os extraterrestres estiverem nos observando, devem estar discutindo todo o nosso potencial e gargalhando sobre a idiotice maquiavélica, manipuladora e destrutiva que ocorre aqui há centenas de anos. Meu caro, quanto mais pessoas abrirem os olhos, mais perto estaremos de mudar essa realidade. E quem tem que fazer isso somos nós. Nós, que tivemos oportunidade. Que conseguimos de alguma forma nos educar perante esse sistema educacional ridículo. Que adquirimos consciência para pensar e perceber a imensa porcaria que paira ao nosso redor.
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Chega de deadlines. Estresses. Burn outs. Karoshis.  Queremos um mundo com menos depressão. Com menos consultas ao psicologo. Precisamos que os tratamentos psiquiátricos sejam cada vez menos utilizados. Que as drogas legais não sejam a nossa salvação mental. Que as drogas ilegais não sejam nossa válvula de escape dessa grande maldição chamada rotina. Exigimos que seja extinta essa insensata corrida dos ratos. Por favor! Devolvam nossa auto-estima. Nossa vontade. Nossa perseverança. Deem-nos liberdade para viver!
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Enfim, chega de proferir tanta bobagem! Já perdi muito tempo divagando enquanto olho para o teto. Tenho prazos a cumprir e preciso voltar ao trabalho.
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É… retornar das férias nunca será uma tarefa fácil!
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Imagem: Omer Unlu
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