Crime doloso

Ele não se lembrava de ter passado por um verão tão quente e perturbado. Trinta e seis graus durante o dia e muita chuva, água e desespero durante o final da jornada. Não havia mais vagas pelas ruas, a inflação elevou o valor dos alimentos a preços exorbitantes e as manifestações ocorriam por todo o planeta. O que nos restava fazer? Nós, meros mortais? Seguir em frente. Trabalhar, estudar, pagar as malditas contas e torcer por um pouco de felicidade durante o período de folga.
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Aquela época de sua vida podia ser chamada de “Aguardando pelo Final de Semana”. As segundas-feiras começavam com um único pensamento: quantos dias faltam para sexta? O problema era que a cada semana, os dias tornavam-se cada vez mais longos e cheios de obrigações. Talvez isso estivesse levando-o há uma vida dividida. Durante os dias de estudo e trabalho, concentrava-se em ser um rapaz centrado, integro e responsável. Nos tempos livres, sua principal ocupação era enlouquecer e se divertir. Não havia muitas regras. Álcool, drogas e mulheres fúteis e desinteressantes que nunca receberam um telefonema sequer após a noite anterior. A verdadeira felicidade é igual ao amor: está em todo lugar, mas a gente nunca encontra.
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Image by Gideon Tsang
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Uma bela noite, quando voltava de mais uma jornada de trabalho, saiu apressado do escritório e apertou o botão do terceiro andar. Saiu do elevador apenas para verificar se os manifestantes ainda estavam por ali. Meia dúzia de estudantes maltrapilhos haviam se acorrentado junto a catraca da entrada principal para mais um protesto sem resultados. Quem não chora não mama! Mas aquela era mais uma luta perdida. A polícia logo chegaria e dispersaria aqueles garotos na força. Os primeiros a apanhar seriam os três mil desocupados ao lado de fora. Aqueles da catraca certamente teriam um destino pior. Talvez presos. Talvez espancados.
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Foi obrigado a sair pela garagem do prédio. Ainda atravessava a ponte em direção ao terminal de ônibus quando percebeu toda a gritaria. Enquanto subia o escadarão, podia ouvir ao longe os tiros de bala de borracha e as bombas de gás lacrimogêneo sendo atiradas contra a multidão.  Não era nenhuma novidade.  O protesto nunca acabaria com pedidos de “licença” e “por favores”. Ele continuou andando enquanto pensava qual era o caminho mais rápido até o lar. Não iria se rebelar. Estava ocupado demais preocupado com seus próprios problemas para aderir a uma batalha perdida. E caso tivesse culhões para fazê-lo, certamente seria demitido no dia seguinte. Essa não era, nem de perto, a solução. Covarde? Egoísta? Chamem-no do que quiser, mas ele nunca seria um “revolucionário”.
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Image by Christian Scheja
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No ponto, como sempre, o transporte casual estava cheio, cheio até demais. Ficou parado por cinco minutos em frente a porta do primeiro ônibus que havia chagado e desistiu. Seria mais fácil voltar a pé. Teria sete quilômetros para refletir. O trajeto continuava sendo o mesmo de sempre, mas pelo menos seria percorrido de forma diferente.
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Depois de alguns quarteirões, havia constatado que precisava cortar os cabelos, arrumar uma namorada, tirar férias e suspender por alguns momentos a boêmia e os exageros. Seria conveniente se ausentar do mundo por uma quinzena de dias. Viajar para algum lugar qualquer e esquecer todos os problemas e preocupações. Mas sabe qual a grande ironia? Nada disso seria feito. E ele, mais que ninguém, percebia isso com muita clareza. Tudo bem, ele precisava de algum modo dispersar os pensamentos e continuar a caminhada.
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Image by Thomas's Pics.
Depois de mais algumas dezenas de minutos, chegava a parte mais estranha do percurso. Razoavelmente próximo de sua casa, havia um cemitério que torneava uma grande avenida. Algumas partes desse trajeto eram, às vezes, um pouco perigosas, escuras e desertas. Alguns mendigos, flanelinhas e viciados deixavam o ambiente literalmente mais inóspito. Não que ele se preocupasse, afinal nunca havia sido assaltado nem tinha sofrido problemas severos vivendo em uma das metrópoles mais perigosas do país. Talvez essa falsa sensação de segurança fosse seu grande erro. Erro que lhe custaria caro.
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Enquanto caminhava calmamente, percebeu a movimentação estranha de dois sujeitos que vinham pela direção oposta. Eles conversavam desconfiados e pareciam planejar alguma coisa. Seus instintos perceberam que algo estava prestes a dar errado. Aquele velho frio na espinha, o coração acelerado e o medo atento que desperta e aguça todos os seus sentidos. Não era necessário ser nenhum vidente para se dar conta que problemas sérios estavam a caminho.
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Image by Stefan Rheone
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O movimento dos carros era intenso, não havia brechas para mudar o curso, atravessar ou ir para o outro lado da rua. Os dois inimigos estavam cada vez mais próximos. Descalços, sujos e com feições nada animadoras. Os olhos injetados, as roupas em frangalhos. Andavam, quase corriam. Já haviam escolhido o alvo. Não havia como escapar. Seus olhos rápidos localizaram uma barra de ferro apoiada no poste a sua frente. Seria sua arma, sua defesa.
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Estavam apenas há alguns metros do confronto definitivo, quando um dos dois algozes gritou e seu companheiro correu em direção a vítima. Percebendo o perigo, agarrou a barra de fero com seu braço direito e deferiu o golpe com toda sua força. A haste atingiu o meio da face do indigente. Exatamente embaixo do nariz. Ele não esperava tal reação. Não conseguiu desviar. Mal tentou evitar o golpe. A força do impacto foi tão grande que estremeceu todo seu braço e metade do tronco. O sangue jorrou e o inimigo desabou. Ficou estirado no chão, gemendo e, ao que parecia, tendo algumas convulsões. A barra havia entortado pela metade.
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Image by Mate Marschalko
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Seu companheiro assistiu toda a cena tranquilamente. Olhou diretamente nos seus olhos e então observou seu amigo no chão. Abriu um grande sorriso e começou a gargalhar. Enquanto ria, retirou uma arma da cintura e apontou para o trabalhador que apenas tentava voltar para casa. Não disse nada e divertiu-se mais um pouco. Sem ter como reagir, deixou a barra de ferro cair e se rendeu. O som do ferro batendo no concreto foi o único barulho que se podia ouvir. Ecoou. O semáforo tinha fechado e a rua ficou deserta por alguns instantes. A tensão era imensa. O assaltante não esboçou emoção, apenas tirou do bolso esquerdo um pequenino saco contendo um pó branco em seu interior. Provavelmente era cocaína. Colocou um pouco sobre as costas da mão que estava desocupada e cheirou com muita satisfação. Deu algumas fungadas e sorriu novamente. Guardou o restante da droga no bolso e levantou a arma. Mirou com atenção. Ninguém dizia nada. A luz verde do farol ascendeu. Os carros aceleraram, as buzinas tocaram, o caos urbano recomeçou e ele puxou o gatilho.
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BAM!
                       BAM!
                                                                                                                BAM!
                                           BAM!
                                                                                      BAM!
                                                                                                                                                            BAM!

 BAM!

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Nosso protagonista caiu e não mais se mexeu. Sem movimentos, sem palavras, sem discursos perdidos. O sangue escorria e chegava até a sarjeta. O assassino analisou atentamente a situação, desdenhou o corpo e perdeu alguns segundos observando a iluminação que era refletida nas poças de sangue. Guardou a arma e foi em direção ao seu companheiro. Ajudou-o a se levantar e novamente começou a rir. A situação debilitada em que se encontrava parecia alegrar, e muito, o amigo. Aos poucos começaram a se afastar, seguindo o caminho que vinham fazendo antes do sangrento encontro.
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Não havia dúvidas, a intenção realmente era o homicídio. Sete tiros foram disparados. Todos contra o peito.  Não roubaram a vítima. Não levaram absolutamente nenhum pertence nem ao menos encostaram suas mãos no falecido corpo. Dobraram a esquina e desapareceram no horizonte.

Enquanto você dormia

Não saberia explicar o que ele fazia ali parado durante tanto tempo, imóvel e olhando para o mesmo lugar há horas. Também não poderia explicar o que fazia eu, aqui, imóvel, olhando para ele há um bom tempo. Alguma razão para estes atos deveria existir, para ele ou para mim, só que ainda não havíamos descoberto qual era.
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Um mendigo sujo, fétido e, ao que parecia, extremamente louco e atento ao que estava acontecendo dentro de sua mente. Com um cobertor imundo nas mãos e apenas uma bermuda cobrindo o corpo, se divertia sozinho e ria do que somente ele poderia explicar. Já eu, um jovem “rico”, limpo, bem vestido e, ao que me lembrava, aparentemente sóbrio o bastante para não me entreter com tudo aquilo, perguntava-me o que estávamos realmente fazendo. Seria melhor parar um segundo para refletir se o louco era ele ou eu, afinal.
.Image by Craig Sunter.
Quando levantei, atravessei o portão em passos lentos e me dirigi à rua. O chão estava coberto de lama e meus sapatos brancos, completamente sujos. No momento que voltei os olhos a um ponto fixo a minha frente, senti um vulto se aproximar em um movimento extremamente rápido. Sem esforço algum já havia me jogado ao chão. Levantei-me como um raio, mas fui nocauteado na mesma intensidade. Estava tudo muito claro e, por mais que abrisse os olhos, nada podia ver. Quando finalmente minha visão retornou, trouxe consigo uma dor incrivelmente forte em meu maxilar. Percebi que o sangue escorria por lábios, enquanto me arrastava pela lama tentando entender o que estava acontecendo. Não fazia a mínima idéia sobre o que havia me atingindo, mas somente um tolo não perceberia que as coisas já não andavam bem.
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Enquanto meu estado de consciência voltava ao normal, pude ver que o mendigo, já não mais imóvel, era o meu algoz. Mais um impacto estrondoso em minhas costelas e deitei-me ao solo para gemer e cuspir o resto de sangue que, agora, me inundava a boca. Meu companheiro sorria como um inocente menino e possuía uma pequena faca nas mãos. Seus dentes eram de ouro e, apesar do ato hostil, não senti raiva ou maldade em suas intenções, mas isso não fazia minha dor diminuir. Esforcei-me para tentar fugir, porém um olhar inóspito do inimigo me paralisou. Não havia nada nem ninguém, apenas uma força invisível que me impedia de mover até mesmo os dedos dos pés.
.Image by matt hannah.
Com as costas no chão, senti os pingos da chuva começarem a cair. Ele se aproximou e se ajoelhou próximo ao meu tronco. Proferiu palavras que não podia entender e apunhalou meu estomago com a arma. A dor não veio, mas um pavor intenso dominou meus pensamentos. Seria esse o fim? Enquanto abria meu corpo e arrancava, um a um, meus órgãos, pensava nos amores que havia deixado para trás, nos amigos e familiares que jamais voltaria a ver e no tempo perdido em vão.
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Meu coração já estava em suas mãos e minha vida já não me pertencia mais. Pingava e batia mesmo estando fora do corpo. Ele se levantou com o órgão em sua mão direita e, simplesmente, deixou os restos ali ao meu lado. Por que? Talvez para que antes da morte tivesse o prazer de entender que, apesar de tudo, por dentro, somos todos iguais. Apenas sangue e carne. Antes de ir embora, jogou seu cobertor sobre meu corpo e se despediu. Dobrou a esquina enquanto o temporal caía. “Adeus” foi a única palavra que realmente pude compreender.
.Image by Jim Bauer.
Fazendo minhas últimas reflexões, minha visão ficava cada vez mais turva e escura. O sangue e as gotas da chuva davam-me uma leve sensação de bem estar. Não pensava mais em arrependimentos e, muito menos, no que poderia, um dia, ter feito. O último desejo era que pudesse ver seu rosto uma última vez. Tudo escureceu e me despedi do mundo pensando nela.

Almas de cristal

Podia se recordar sempre que olhava as nuvens ao seu redor do quanto o mundo estava diferente. Talvez, antigamente, estivesse mais preparado ou simplesmente não conseguia mais se adequar as mudanças que aconteciam a sua volta.
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Nascera rico, sempre tivera grandes amigos e sua família nenhuma vez abdicara de amá-lo. Não lhe faltavam paixões e tinha a imensa habilidade de nunca falhar. Não porque se esforçasse para se eternizar como uma mente brilhante, mas, sem nenhum esforço e dedicação, conseguia mostrar ao mundo que nada era impossível não importasse o que pretendia ter, fazer ou conquistar.

Image by Ryan McGilchrist

O mundo que vivemos é diferente para cada um de nós. Todo o sucesso, fama e valor já não faziam mais sentido. Possivelmente nunca haviam feito. Rodeado de luxo não podia ser mais solitário. Por mais mulheres que conquistasse, seu coração não ardia mais. E independente do quão competente e conhecedor do mundo fosse, não lhe abandonava a ideia que fosse o mais pobre ser entre todos nesta terra.

Contentava-se apenas em conversar com o querido beija-flor que todos os dias lhe fazia uma pequena visita ao seu imenso jardim. Passava horas na frente do espelho e já não acreditava mais no que o reflexo lhe respondia. Passou a fazer brincadeiras sem sentido e a fingir que seu coração partido e sua alma sem convicção eram apenas um brinquedo quebrado largado ao longo da estrada.

Image by Stephen Z

Começou a colecionar armas e a enganar os que se preocupavam com sua nova reputação. Seu confidente o aconselhava a acabar logo com tudo, mas no fundo sabia que lhe faltava coragem. Em um desses longos monólogos, passou sete horas em frente ao espelho com um revolver calibre trinta e oito apontado para sua têmpora. Fazia piadas e se divertia com algo que somente ele seria capaz de explicar. Num certo momento se deu conta que já estava exausto de tudo aquilo e que chegava a hora de descansar. Simplesmente apertou o gatilho. O corpo caiu imóvel ao chão. Ainda sorria. O espelho refletia, agora no meio do caos, o sangue que escorria por todo o quarto e a silhueta sombria de uma alma vazia e inconsolável.