Enquanto você dormia

Não saberia explicar o que ele fazia ali parado durante tanto tempo, imóvel e olhando para o mesmo lugar há horas. Também não poderia explicar o que fazia eu, aqui, imóvel, olhando para ele há um bom tempo. Alguma razão para estes atos deveria existir, para ele ou para mim, só que ainda não havíamos descoberto qual era.
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Um mendigo sujo, fétido e, ao que parecia, extremamente louco e atento ao que estava acontecendo dentro de sua mente. Com um cobertor imundo nas mãos e apenas uma bermuda cobrindo o corpo, se divertia sozinho e ria do que somente ele poderia explicar. Já eu, um jovem “rico”, limpo, bem vestido e, ao que me lembrava, aparentemente sóbrio o bastante para não me entreter com tudo aquilo, perguntava-me o que estávamos realmente fazendo. Seria melhor parar um segundo para refletir se o louco era ele ou eu, afinal.
.Image by Craig Sunter.
Quando levantei, atravessei o portão em passos lentos e me dirigi à rua. O chão estava coberto de lama e meus sapatos brancos, completamente sujos. No momento que voltei os olhos a um ponto fixo a minha frente, senti um vulto se aproximar em um movimento extremamente rápido. Sem esforço algum já havia me jogado ao chão. Levantei-me como um raio, mas fui nocauteado na mesma intensidade. Estava tudo muito claro e, por mais que abrisse os olhos, nada podia ver. Quando finalmente minha visão retornou, trouxe consigo uma dor incrivelmente forte em meu maxilar. Percebi que o sangue escorria por lábios, enquanto me arrastava pela lama tentando entender o que estava acontecendo. Não fazia a mínima idéia sobre o que havia me atingindo, mas somente um tolo não perceberia que as coisas já não andavam bem.
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Enquanto meu estado de consciência voltava ao normal, pude ver que o mendigo, já não mais imóvel, era o meu algoz. Mais um impacto estrondoso em minhas costelas e deitei-me ao solo para gemer e cuspir o resto de sangue que, agora, me inundava a boca. Meu companheiro sorria como um inocente menino e possuía uma pequena faca nas mãos. Seus dentes eram de ouro e, apesar do ato hostil, não senti raiva ou maldade em suas intenções, mas isso não fazia minha dor diminuir. Esforcei-me para tentar fugir, porém um olhar inóspito do inimigo me paralisou. Não havia nada nem ninguém, apenas uma força invisível que me impedia de mover até mesmo os dedos dos pés.
.Image by matt hannah.
Com as costas no chão, senti os pingos da chuva começarem a cair. Ele se aproximou e se ajoelhou próximo ao meu tronco. Proferiu palavras que não podia entender e apunhalou meu estomago com a arma. A dor não veio, mas um pavor intenso dominou meus pensamentos. Seria esse o fim? Enquanto abria meu corpo e arrancava, um a um, meus órgãos, pensava nos amores que havia deixado para trás, nos amigos e familiares que jamais voltaria a ver e no tempo perdido em vão.
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Meu coração já estava em suas mãos e minha vida já não me pertencia mais. Pingava e batia mesmo estando fora do corpo. Ele se levantou com o órgão em sua mão direita e, simplesmente, deixou os restos ali ao meu lado. Por que? Talvez para que antes da morte tivesse o prazer de entender que, apesar de tudo, por dentro, somos todos iguais. Apenas sangue e carne. Antes de ir embora, jogou seu cobertor sobre meu corpo e se despediu. Dobrou a esquina enquanto o temporal caía. “Adeus” foi a única palavra que realmente pude compreender.
.Image by Jim Bauer.
Fazendo minhas últimas reflexões, minha visão ficava cada vez mais turva e escura. O sangue e as gotas da chuva davam-me uma leve sensação de bem estar. Não pensava mais em arrependimentos e, muito menos, no que poderia, um dia, ter feito. O último desejo era que pudesse ver seu rosto uma última vez. Tudo escureceu e me despedi do mundo pensando nela.

O primeiro e último encontro

O sol escaldante me fazia desistir de todos os meus planos. Era um belo, mas, ao mesmo tempo, ocioso dia. Alguns inimigos haviam dado as caras e me recordado que, dependendo da situação, o dia seguinte pode não mais existir. Comecei a prestar mais atenção ao movimento nas ruas e percebi que não vale nem um pouco a pena perder tempo se preocupando.
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Quando desci do ônibus, me dei conta que o ar estava diferente. Pesado e rarefeito. Talvez um reflexo de minha alma. Perdi alguns minutos olhando o céu e depois mais alguns outros observando as garotas que se exercitavam na academia em frente ao ponto. Não importa qual seja a situação, o instinto masculino sempre prevalece.

Image by Topher i

Parei em um daqueles decadentes bares e perdi um bom tempo jogando conversa fora, mas a cerveja já não descia mais com o mesmo gosto. Tentava descobrir o que estava errado. Em um esforço sem igual, concentrei-me ao máximo para encontrar o problema. Foi uma tentativa inútil. Dei o último gole. Uma navalha parecia cortar minha garganta. Sábia que era tudo obra de minha mente, mas o sabor do sangue me despertou.

Corri e corri pela rua atrás de algo que nem sabia o que era. Feliz e atordoado, pensando em como faria para sentir aquela sensação novamente. De repente visualizei um grande lampejo de luz e pude ver aquele rosto nitidamente. Era incrível. O mundo parecia melhor por um breve momento. O tempo parou por um segundo. Ouvi uma grande freada e vários gritos de desespero. Quando me virei, só pude ver o capô do carro se aproximando. O barulho do impacto foi muito maior que a dor que deveria ter sentido. Voei como um pássaro em queda livre. Rolei pelo chão por uma quinzena de metros e parei encostado na sarjeta como um bêbado em busca de um sono tranquilo.

Image by Axel Naud

Agora podia sentir o verdadeiro gosto do sangue. Dessa vez não era tão saboroso assim. A garota desceu do carro em um desespero sem igual. Chorava e, apesar do choro, conseguia manter a sua incompreensível beleza. Não podia acreditar no que meus olhos viam. Era única. Nunca havia visto nada assim tão lindo. Ela me abraçou olhando para o sangue que escorria em meu rosto. A adversidade da situação fez com aquele fosse o abraço mais sincero que já pude receber.

Sentia frio, mas estava feliz por poder estar junto dela ao menos uma vez. A dor, curiosamente, nunca chegou. Suas lágrimas pingavam em meu rosto. Agradeci pelo gesto. Sacrifiquei-me para pensar em algo bom a dizer, mas aquele não era mesmo um bom momento para tentar uma cantada. Os seus olhos brilharam mais uma vez. Aos poucos fui perdendo um a um os meus sentidos. Ouvir? A audição era apenas uma leve lembrança. Parei um minuto para pensar e desejei que tudo tivesse sido diferente. Queria tê-la conhecido em outra situação. Foi um enorme desperdício. Era extremamente difícil me mexer, mas consegui segurar suas pequenas mãos de fada. Aos poucos, fui fechando os olhos para nunca mais abri-los.