Você

Seria fácil demais
Tentar entender
Seu toque, seus gestos, seu jeito
Sua forma de ver, sorrir, viver
Apenas um beijo
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Não seria nada incomum
Encantar-se, deixar-se levar
Sentir-se completo
E não perceber
Por estar mais uma vez ao seu lado
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A voz, o riso
O modo delicado
Para tentar esconder
Para brindar, para escolher
Um carinho
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É simples
É mágico
Deixar-se seduzir
Quando você é mais uma vez
Somente você mesma
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Cativante, apaixonante
Serena e delicada
A cada abraço, a cada beijo no rosto
A cada encontro
Um presente, uma paixão
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Sonho, digo, espero e finjo
Admiro
Escravizo minhas emoções
Enquanto luto para conquistar seu coração
Enquanto me esforço para trazer você pra mim
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Não importam mais
Os medos, os fracassos
Empecilhos e defeitos
Vontades e receios
Se já fora de muitos
Ou de ninguém
Ainda te levarei ao topo
Pois a única coisa que me importa agora
É você
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Uma pequena lembrança

O sol continuava a brilhar intensamente, mas mesmo assim o frio ainda congelava suas mãos. Havia esquecido suas luvas em cima da penteadeira. Algo nada sábio a fazer em pleno inverno. Andava a pé desde que seu pequeno automóvel tinha sido roubado. Haviam tentado três vezes, na quarta conseguiram furtá-lo. Era uma boa média para um carro popular.
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Aproveitava o tempo vago para realizar suas tarefas casuais. Sua sorte era grande por habitar um bairro no qual era possível sobreviver sem utilizar o “querido” transporte público. Bancos, supermercados, padarias. Tudo a poucas quadras de distância.
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Image by Andrea Rose
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Assim que havia terminado suas obrigações, parou por um momento em frente ao prédio de uma das garotas mais belas que já havia conhecido. Ela possuía cabelos negros e lisos até o meio das costas. A pele clara como a neve. Olhos castanhos e inesquecíveis. O sorriso? Este era, com toda a certeza, um dos sorrisos mais lindos e cativantes que já tivera a oportunidade de ver. Para sua sorte, teve a chance de apreciá-lo diversas vezes. Não é nenhuma novidade dizer que muitos acabaram se apaixonando enquanto trocaram, por acaso, algumas palavras ou gentilezas.
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Carregava um bilhete para entregá-la. Não pessoalmente, pois sabia que àquela hora ela não estaria presente, e, no momento que estivesse, ele não teria tempo de fazê-lo. Tudo bem. O porteiro faria um excelente intermédio entre os dois. Só havia um único problema: não conseguia se lembrar qual era o edifício que ela morava. Havia lhe dado carona até ali em algumas oportunidades. Era uma ótima companhia e recordava com carinho que tinham passado bons momentos juntos. Dividiam alguns valores em comum e se davam realmente bem.  Haviam perdido contato em certo momento, provavelmente por algum motivo bobo ou inexistente, mas isso nunca significou que havia deixado de admirá-la.
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Image by Dennis Jarvis
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Estava em dúvida entre dois prédios. Claro que erraria na primeira tentativa. Escolheu o condomínio da esquerda e disse ao porteiro que precisava entregar uma encomenda para um morador. A porta se abriu. Graças aos céus não era nenhum assaltante. Obviamente ele não apresentava tais características, mas nos dias de hoje como podemos prever? Havia sido fácil demais. Mas conversando, deu-se conta que estava no lugar errado. “Que tremendo idiota”, deve ter pensado o porteiro. “Vem fazer uma entrega e sequer sabe o endereço”. Deu-lhe um sorriso sem graça e abriu o portão. Foi obrigado a sair. Ainda com o bilhete nas mãos, dirigiu-se até o prédio ao lado.
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Na segunda tentativa, nutria mais esperança. Afinal, se não fosse ali algo andava completamente errado com seu senso de direção ou sua memória fotográfica. No pior dos casos, com suas recordações vividas, pois passar por tudo aquilo sem que nada tivesse realmente existido lhe deixaria totalmente paranoico. Dessa vez uma cordialidade incomum chegou pela portaria. Ela realmente morava ali. Um senhor muito educado disse que lhe entregaria a pequena carta assim que possível. Segurou-a com delicadeza nas mãos, agradeceu-lhe e se despediu.
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Quando chegou até a rua, colocou novamente os fones no ouvido. Girl From A Pawnshop voltou a tocar em um volume considerável. Olhou atentamente para os lados e atravessou. Com o andar calmo e tranquilo, decidiu retornar para casa.

Encontros e desencontros

Já estava tudo monótono demais para perder tempo pensando. Ela estava ao meu lado, sentada e observava a paisagem. O sol refletia a luz nos seus olhos e a deixava ainda mais bela. Eu estava lá somente por sua causa e ela pela minha, mas não havíamos ainda chegado a um consenso. Talvez nem precisasse. A verdade é que ela esperava que eu me aproximasse lentamente, segurasse delicadamente seu queixo com o meu polegar e guiasse seu rosto levemente até meus lábios. Ela desejava isso. Eu podia sentir, mas o nervosismo que tomava conta de meu corpo era tão intenso quanto a felicidade que me inundava o coração. Por que na vida coisas tão simples como o amor tornam-se tão complicadas?
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A primeira vez que nos encontramos foi em uma padaria, no final da noite, quando voltava para casa. Fazia meu pedido no balcão quando deixei cair minhas chaves. Em um breve segundo, ela se aproximou e devolveu os meus pertences:
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chaves
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– Você deixou suas chaves caírem. Toma! – E segurou minha mão com delicadeza incomum e me devolveu o molho de chaves. Não poderia dizer o que havia acontecido comigo, mas fiquei completamente imóvel e desejei que nunca mais suas mãos se separassem das minhas.
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Acho que fiquei tanto tempo deslumbrado com sua beleza e principalmente com o inesquecível tom de sua voz, que não a agradeci. Ela me olhou fundo nos olhos, balançou a cabeça e me deu sorriso mais lindo que já recebi. Olhou para os lados e saiu em passos lentos pela saída. Estava sozinha e eu completamente fora de mim. Não a conhecia. Jamais a tinha visto, mas sabia que ela era a mulher de minha vida.
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Image by Lindsay
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Quando me dei conta do que havia acontecido, saí correndo como um idiota. Corri até a esquina e consegui alcançá-la. Ofereci-lhe uma carona e ela, desconfiada, aceitou. Fomos conversando durante todo o caminho e jamais havia me sentindo tão bem assim com um completo estranho. Nossas almas eram compatíveis e ficamos íntimos instantaneamente. Brincamos, rimos e, quando menos percebemos, já havíamos chegado até a sua casa. Ela se despediu e me deixou um bilhete. Lá estava um agradecimento pela carona e por eu ter sido tão gentil. O número de seu telefone também estava marcado e naquela noite voltei para casa sentindo-me o homem mais feliz do mundo.
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Três dias depois lhe telefonei. Apenas três dias para não me mostrar tão ansioso. Mas na verdade foram os três dias mais longos que passei. Começamos a sair, ficamos ótimos amigos e agora estávamos aqui, sentados, sozinhos, esperando o sol se pôr.
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Image by Nattu
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Perguntava-me como ela podia estar tão tranqüila. Será que não tinha noção alguma de minhas intenções?  Ela era linda e todos sabiam disso. O mundo podia parar para vê-la, ali, apreciando o sol na beira da montanha e ninguém teria coragem para reclamar. Nesse meio tempo, resolvi parar de me lamentar e agir. Com um esforço incomum, controlei meu nervosismo e coloquei delicadamente minha mão sobre as suas. Era a pele mais macia que já tocara e senti um raio me penetrar o peito. A energia foi tão forte que ela percebeu. Aos poucos ela se virou em minha direção e meu deu um pequeno sorriso. Quando menos percebi, ela me beijou. Foi o beijo mais intenso que já recebi. Ela havia facilitado tudo e estava apenas esperando o momento certo para isso. Os céus estavam, pela primeira vez, ao meu lado. Depois disso, tudo foi perfeito e nunca mais iria me esquecer cada momento passado ao seu lado.
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Hoje estamos casados há 23 anos. Não posso dizer que sempre vivemos mil maravilhas, mas nada teria sido igual em minha vida sem a sua companhia. Sou grato a cada dia por tê-la conhecido e espero que, daqui a 23 anos, possa escrever um texto ainda melhor. Eu te amo do fundo do meu coração. Muito obrigado!