Não fica velho, não…

Não é nem um pouco nobre ansiar pela morte
Mas só é possível viver de verdade
Quando não se tem uma vida de merda

Fraqueza
Buracos de agulha por todos os lados
Um vulto negro em cada foco

Não ando
Não corro
Não vejo

Mal consigo cagar  sem sujar o caminho com merda
Não tenho forças nem para calçar os chinelos
Suplico aos céus por uma redenção

Gostaria de dormir tranquilo para nunca mais acordar
Mas não sou eu quem decide
Uma pena

O cano que sai de minha bexiga
A bengala ao lado da cama
A expressão de tristeza nos olhos de quem não enxergo

Que estado deplorável fui me encontrar

A família finge se importar com minha desgraça
Minha esposa já faleceu
Somente a medicação pode me confortar

Eu
Que já fui tão forte
Hoje, dependo dos outros para viver

Você não sabe o quanto isso me machuca
Me desculpe

Se pudesse te dar um conselho
Seria
Não fica velho, não, Thiago

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Imagem: ZaldyImg

 

 

 

Asilo forçado

Eram quase 4h30 da manhã. O telefone tocou. Tentei ignorar, mas algum pressentimento desagradável me dizia que era necessário atender. Virei-me até o aparelho com uma tranquilidade incomum e tirei-o do gancho.

– Alô! ­– Disse com a garganta bastante arranhada.

– Boa noite, senhor! Meu nome é Fábio Cardoso, sou da Polícia Militar. Uma senhora, provavelmente sua avó, nos deu esse número e está aqui na Rua Aimberé, próxima ao número 1900. Quebrou o pára-brisa de um carro estacionado e está completamente incontrolável. Ela está descalça, muito perturbada e fazendo um grande escândalo na vizinhança. Você precisa vir buscá-la agora!
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Parei um segundo para analisar a situação. Dei um leve suspiro e respondi:
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– Tudo bem. Já estou saindo daqui. Boa noite!
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Image by elias quezada
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Levante-me bastante incomodado. Preocupado com o que poderia ter acontecido. Fatos anteriores já haviam me deixado bastante estressado, mas não havia muito que pudéssemos fazer, apenas aceitar e entender que não podíamos, por mais que tentássemos, culpar absolutamente ninguém.
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Coloquei a típica calça jeans, calcei os tênis e saudei os cães enquanto colocava a camiseta. Cocei os olhos para espantar o sono e peguei a chave do carro. Sai de casa tentando organizar a infinita quantidade de dúvidas inexplicáveis que embaralhavam meus pensamentos.
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Image by Stefano Montagner
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Ela era e foi uma senhora sadia por muito, muito tempo. Sempre amou sua família e ajudou a todos da melhor forma que podia. Era devota, inteligente, instruída e extremamente caridosa com as pessoas que estavam a sua volta. Possuía somente 1,60m, mas era um ser de alma e coração imensos. Fez o que esteve ao seu alcance para que todos ao seu lado se contentassem com o melhor. A avó que todos, pelo menos por um único dia, gostariam de ter. Claro que, já com oitenta anos, apresentava alguns problemas que a velhice carrega, mas nunca poderíamos esperar que as coisas terminassem assim.
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Com o passar do tempo, medos incomuns começaram a dominar sua rotina. Dormir sozinha e ficar em seu próprio quarto por algumas horas passaram a ser tarefas inconcebíveis e duvidosas. Brigas e discussões por atitudes nada convencionais começaram a acontecer frequentemente. Era possível conviver com tais problemas, mas tudo, aos poucos, foi ficando cada vez pior. O receio de tudo a apavorava mais a cada dia. O fanatismo religioso já não supria suas fraquezas e sua sanidade começou a mostrar pistas de que algo não andava tão bem assim. Esquecia-se dos compromissos. Acontecimentos que não existiam passaram a se tornar verdadeiros no seu cotidiano. As conversas ficaram mais fantasiosas e já não era possível encontrar algum sentido nas palavras e frases proferidas. O porque de tudo ainda era um grande mistério.
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Image by *Ann Gordon
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Quando as fugas do lar tornaram-se constantes, ficava difícil manter a traquilidade inabalável. Todos ficavam, pouco a pouco, cansados, com o humor alterado e as brigas eram cada vez mais comuns. Ela passou a esquecer o verdadeiro caráter das pessoas que mais amava e deixou que idéias falsas tomassem conta de seu interior. Seus netos tornaram-se, para ela, assassinos e viciados. Sua única família, agora, em sua frágil consciência, detestava-a e sua permanência no próprio lar ficou insuportável. Não porque era impossível viver em harmonia, mas porque ela não mais entendia o que realmente acontecia ao seu redor e não nutria nenhuma vontade de permanecer conosco.
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As agressões aos que tentavam ajudar eram apenas mais um capítulo da saga que insistiam em piorar. O ponto crítico ocorreu quando trancou-se no quarto por horas intermináveis, evitando qualquer contato com o mundo exterior e negando- se a receber alguma forma de carinho. Sua transferência foi concluída assim que a porta foi arrombada, porém, finalmente, ela parecia estar mais calma e feliz.
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Image by Adam Selwood
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Os sintomas pioram a cada dia e os tratamentos convencionais não conseguem amenizar o progresso da doença. É muito mais difícil conformar-se quando não temos opções. Os sentimentos de culpa e perda ainda não desapareceram. Talvez nunca acabem. Internar uma das pessoas que você mais ama em um asilo – ou casa de repouso para aqueles que buscam disfarçar a verdade –, longe dos olhos de quem apenas lhe quer bem, não é, e nunca será, uma tarefa fácil. Nós continuaremos sempre a lhe amar mesmo que você, um dia, acabe se esquecendo disso.